Bolsonaro usa metáfora do casamento para falar de problemas na política

Para cientista político, recurso facilita comunicação dele com população

Bolsonaro e o vice Mourão (com a mão no rosto) em cerimônia do Colégio Militar de Brasília

Bolsonaro e o vice Mourão (com a mão no rosto) em cerimônia do Colégio Militar de Brasília Pedro Ladeira/Folhapress

Thais Bilenky
Brasília

​Quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se vê pressionado a responder a alguma situação complicada, uma imagem lhe vem à mente: a do casamento.

Com frequência, o presidente compara dificuldades de relacionamento com políticos a namoros, noivados e divórcios. Mesmo temas como a ditadura militar e a embaixada em Israel o remetem a questões nupciais.

Desde a campanha eleitoral do ano passado, Bolsonaro apela à metáfora. Sem aliança com nenhum partido, ele era questionado com frequência sobre quem seria o vice de sua chapa.

Em junho, admitiu que fez o convite ao então senador Magno Malta (PR-ES) e tentou descontrair. "O PR já deu sinal verde. Da minha parte está resolvido. Eu já falei sim, já pedi ele em casamento. Ele que está mudo."

As demissões de dois ministros em três meses de governo também foram associadas a relacionamentos que frustraram as expectativas.

"Está bastante claro que não está dando certo o ministro [Ricardo] Vélez [na Educação]. Na segunda-feira, vamos tirar a aliança da mão direita, ou vai para a esquerda ou vai para a gaveta", afirmou, sinalizando a exoneração.

Sobre a queda de Gustavo Bebianno (PSL) da Secretaria-Geral da Presidência em meio à crise dos laranjas do PSL revelada pela Folha, disse lamentar o ocorrido, “mas não poderia ter tomado outra decisão". "É quase um casamento que infelizmente prematuramente se desfez."

A imagem nupcial voltou à sua mente quando o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que renunciaria à articulação política da reforma da Previdência, em meio a uma discussão pública entre os dois

"Você nunca teve uma namorada?", reagiu Bolsonaro. "Quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar? Não conversou? Estou à disposição para conversar com o Rodrigo Maia, sem problema nenhum."

Em seu terceiro casamento, Bolsonaro tem três dos cinco filhos presentes no cotidiano político —o vereador Carlos, o deputado federal Eduardo e o senador Flavio. A imagem da família Bolsonaro entrou para a rotina nacional.

“Desde Getúlio até Lula, a figura do ‘bom pai’, do chefe de família, é colocada em cena para tentar angariar os corações e as mentes da população”, afirmou a psicanalista Belinda Mandelbaum, da USP. 

“O presidente Bolsonaro, que se considera o paladino da nova política, nada mais está fazendo do que outorgar uma nova versão ao velho modelo populista paternalista, um dos modos de se manifestar do nosso regime presidencialista”, completou a professora, que coordena o Laboratório de Estudos da Família no Instituto de Psicologia da universidade.

Para Mandelbaum, Lula projetava "a figura de um pai mais protetor, que viria para cuidar de todos os brasileiros" com programas como o Bolsa Família.

Bolsonaro, por sua vez, com gestos como o de simular uma arma nas mãos de uma menina em seu colo e o discurso de autoridade, traz "um modelo de figura mais violenta", que "trabalha uma concepção de família enrijecida", disse a psicanalista. 

O cientista político Carlos Melo, do Insper, também compara Bolsonaro a Lula. O petista usava lances do futebol para falar de política, e Bolsonaro, a família. São tentativas de didatismo e de aproximar o eleitor por meio de um vocabulário comum, segundo o professor.

No caso do presidente, "a questão da família e do casamento são valores muito fortes para a média do eleitor bolsonarista", disse Melo.

Fernando Henrique Cardoso (PSDB) usava pouco o recurso de linguagem. "Até por ser mais culto, talvez ele perdesse essa possibilidade de comunicação direta com as pessoas mais simples", comparou o professor. No universo político, o repertório do presidente suscita reações diferentes.

Para a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP), "são metáforas que simplificam questões complexas e reforçam estereótipos". 

"O presidente não se coloca como o chefe do Executivo disposto a debater problemas profundos e oferecer soluções políticas, mas como um marido de um relacionamento conflituoso e violento. Apresenta visão distorcida da Presidência e de relacionamentos."

O senador Major Olímpio (PSL-SP) lembra que Bolsonaro, aliado de longa data, já usava metáforas do casamento desde muito antes da campanha.

"Ele busca uma identificação com fatos da vida cotidiana, da vida do lar, da relação homem e mulher, marido e mulher", comentou. "É uma mania dele, uma forma que ele adota para que as pessoas entendam rapidamente o que ele quer dizer. Creio que tenha muito sucesso", concluiu Olímpio.

Presidente foi casado três vezes

Rogéria Nantes Nunes Braga Bolsonaro
Filhos: Flavio, Carlos e Eduardo

Ana Cristina Valle (união estável)
Filho: Renan 

Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro
Filha: Laura
 

Bolsonaro e a linguagem nupcial


Bolsonaro convida Magno Malta (PR-ES) para ser seu vice (26.jun.18) - "O PR já deu sinal verde também. Da minha parte está resolvido. Eu já falei sim, já pedi ele em casamento. Ele que está mudo."

Sobre legislação trabalhista (3.jan.19) - "A mão de obra do Brasil é muito cara. É pouco para quem recebe e muito para quem paga. [A relação entre patrão e empregado] é como um casamento. Se tem excesso de ciúmes não dá certo.”

Depois de ser corrigido pela equipe econômica ao anunciar mudanças no IOF e IR, elogia Paulo Guedes (8.jan) - "Tenho certeza, sem qualquer demérito, de que eu conheço um pouco mais de política que o Paulo Guedes. E ele conhece muito, mas muito mais de economia do que eu. Então, partindo desse princípio, do respeito acima de tudo, começamos a namorar, no bom sentido"

Demissão de Gustavo Bebianno (28.fev) - Lamento o ocorrido, mas não poderia ter tomado outra decisão. É quase um casamento que, infelizmente, prematuramente, se desfez.”

Imagem pública (1º.mar) - Quando comecei a namorar a minha esposa [Michelle], as amigas dela falaram: 'você com esse grosso'?”

Rodrigo Maia (22.mar) - Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar? Não conversou? Estou à disposição para conversar com o Rodrigo Maia, sem problema nenhum"

Ditadura militar (27.mar) - "Temos de conhecer a verdade. Não quer dizer que foi uma maravilha, não foi uma maravilha regime nenhum. Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem um probleminha, é coisa rara um casal não ter um problema, tá certo?"

Lei da Anistia (28.mar) - "Vamos supor que fôssemos casados, tivéssemos um problema, resolvêssemos nos perdoar lá na frente. É para não voltar naquele assunto do passado, que houve aquele mal-entendido entre nós. A Lei da Anistia está aí e valeu para todos"

Demissão Ricardo Vélez (5.abr) - "Está bastante claro que não está dando certo o ministro Vélez. Na segunda-feira, vamos tirar a aliança da mão direita, ou vai para a esquerda ou vai para a gaveta"

Israel (11.abril) - "Queremos cumprir esse compromisso [transferir a embaixada brasileira para Jerusalém], mas, como um bom casamento, tem que namorar, ficar noivo."

Imprensa (18.abr) - “Imprensa brasileira, estamos juntos. Pode ter certeza de que esse namoro, esse braço estendido aqui estará sempre à disposição de vocês.”

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