Doria emplaca ex-assessores em postos estratégicos da gestão Bolsonaro

Grupo que assessorou tucano na prefeitura forma bloco de 'enxugadores' no governo federal

Guilherme Seto
São Paulo

Governador de São Paulo com conhecidas ambições de se tornar presidente, João Doria (PSDB) já tem companheiros para encontrar em Brasília caso eventualmente se mude para lá.

Profissionais que buscou para compor sua equipe durante a sua rápida passagem pela Prefeitura de São Paulo agora ocupam funções importantes no governo federal, com Jair Bolsonaro (PSL), especialmente nas áreas de gestão e economia.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com o presidente Jair Bolsonaro (PSL), em Brasília - 9.jan.19/Divulgação

São os casos de Paulo Uebel, secretário de Desburocratização do Ministério da Economia; Caio Megale, secretário de Indústria, Comércio e Inovação, no mesmo ministério; e Julio Semeghini, secretário-executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Além deles também há ex-funcionários da prefeitura que foram chamados para trabalhar em Brasília, como Wagner Lenhart, que foi chefe de gabinete das secretarias de Gestão e de Desestatização na administração paulistana, e Juliana Natrielli, ex-subprefeita de Pinheiros. Ambos fazem parte da equipe de Uebel.

Ex-secretário de Desestatização de Doria, o empresário Wilson Poit também foi convidado a fazer parte do governo Jair Bolsonaro (PSL), mas recusou.

Outros funcionários da prefeitura paulistana foram chamados para participar do governo federal. No entanto, eles precisariam pedir afastamento de suas funções no município para assumir novas funções, o que não foi autorizado pela gestão de Bruno Covas (PSDB).

Eleito no primeiro turno em 2016, Doria passou 15 meses na prefeitura e abandonou o cargo 1.000 dias antes do final do mandato para disputar as eleições ao governo do estado. Agora se movimenta para se firmar como possível candidato ao Palácio do Planalto em 2022.

A maior parte dos “dorianos” chegou ao governo federal por intermédio do ministro da Economia, Paulo Guedes, que enxerga no grupo com passagens de sucesso pela iniciativa privada a bagagem necessária para participar de uma gestão econômica pautada pelo liberalismo, com redução da intervenção de estado e estímulos ao empresariado.

A afinidade ideológica liberal, então, marcaria esse ponto de encontro das visões de Doria e Bolsonaro.

O advogado gaúcho Uebel é figura importante na gestão econômica federal. Ex-secretário de Gestão de Doria em São Paulo, ele foi CEO do Lide, empresa de eventos fundada pelo governador de São Paulo, e foi diretor do Instituto Millenium, um think tank de difusão de ideias liberais, onde se aproximou de Guedes.

Uebel tenta implantar em escala federal o que iniciou na Prefeitura de São Paulo em 2017 e 2018: um programa de enxugamento de gastos da máquina pública, com renegociação de contratos, corte de gastos considerados desnecessários e controle de produtividade de funcionários públicos.

Para essa tarefa ele conta com a ajuda de Lenhart, que ele levou da prefeitura paulistana e que terá olhar especialmente dedicado a isso.

Encarregado também de medidas de desburocratização, ele deve lançar em breve uma revogação em massa de leis consideradas obsoletas, tal como fez em São Paulo, e um processo de reestruturação administrativa (que atualmente está na fase de dimensionamento das áreas de trabalho no Planalto).

No mesmo sentido, também recai sobre ele a digitalização de processos —na capital paulista, ele foi um dos mentores da ideia de encerrar a edição impressa do Diário Oficial do Município, mantendo apenas a versão digital. Segundo cálculos da prefeitura, isso teria gerado economia de R$ 1,5 milhão por ano.

“Meu trabalho envolve projetos de compras compartilhadas, melhora da logística, redução de gastos operacionais. Também abrange a gestão de pessoas, avaliação de desempenho e reestruturação de carreiras. A ideia é simplificar processos e a vida das pessoas”, diz Uebel à Folha.

​Megale foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo sob Doria e sob Covas até dezembro de 2018 e na sequência assumiu a secretaria de Indústria, Comércio e Inovação de Bolsonaro. Entre outras funções, ele tem que articular as relações dos setores produtivos com o poder público.

O economista foi, entre 2011 e 2016, membro de equipe no Itaú comandada por Ilan Goldfajn, por quem Paulo Guedes tem apreço e que deixou o Banco Central no final de 2018 (contrariando a vontade do ministro).

Adepto da filosofia do fazer mais com menos, que, segundo ele, tentou levar da iniciativa privada para a gestão pública em São Paulo, Megale tenta replicar o modelo em Brasília.

“Tenho alguns eixos de trabalho. Um deles é desburocratizar, simplificar a vida das empresas. É uma agenda de desobstrução. Trato também dos temas da relação do governo com o setor privado: abertura e fechamento de empresas, contas a prestar, visando facilitar o processo também”, afirma Megale, acrescentando também o eixo de inovação e digitalização da economia.

A interação de Uebel com Megale é intensa, já que o primeiro executa na administração pública o enxugamento que o segundo tenta implementar nas relações do governo com as empresas. O economista também interage continuamente com Semeghini na elaboração de pautas de inovação.

“Estamos lançando o marco legal do empreendedorismo inovador a partir do diálogo com a iniciativa privada, ouvindo as demandas. A ideia é deslanchar o setor de startups e tecnologias. Essas são áreas que, no passado, nem sempre os ministérios da Ciência e da Economia trabalharam juntos, havia sobreposição de programas, mas que agora estamos tratando em conjunto”, diz.

O grupo é unânime ao dizer que o fato de terem trabalhado juntos anteriormente, na prefeitura, dá fluidez aos processos e ajuda no encaminhamento de projetos.

Uebel mantém relação próxima com Doria, com quem troca mensagens e se encontra em eventos ocasionalmente. Megale diz que não tem falado muito com o ex-chefe desde sua saída da prefeitura.

Em Brasília, eles dizem viver relação distante do núcleo político bolsonarista por estarem em áreas técnicas.

Segundo Megale, a rejeição a Doria que existe entre alguns bolsonaristas —entre eles, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que ocasionalmente lança indiretas ao governador de São Paulo nas redes sociais e já o chamou de “o querido dos bostas da nova direita”—, não chega até eles e, por isso, não é motivo de tensão interna.

“Francamente, nem sabia que existia essa situação”, diz Megale.

CONHEÇA A EQUIPE DE DORIA QUE MIGROU PARA O GOVERNO BOLSONARO

  • Paulo Spencer Uebel, secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia, foi secretário de Gestão da Prefeitura de São Paulo (2017-2018). Antes disso, foi CEO do grupo Lide (2013-2015), fundado por João Doria, e diretor-executivo do Instituto Millenium (2008), think tank de liberais, fundado por, entre outros, Paulo Guedes. Formado em direito
     
  • Caio Megale, secretário de Indústria, Comércio e Inovação do Ministério da Economia, foi secretário da Fazenda da Prefeitura de São Paulo (2017-2018). Foi também economista do Itaú BBA (2011-2016) e sócio e economista-chefe da Mauá Investimentos (2005-2010). Formado em economia
     
  • Julio Semeghini, secretário-executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia, foi secretário de Governo da Prefeitura de São Paulo (2017-2018). Quadro antigo do PSDB, foi presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado de SP (Prodesp) (1995) e deputado federal (1998-2002, 2002-2006, 2006-2010, 2010-2014). Formado em engenharia eletrônica
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.