CNBB elege continuidade no comando e frustra ala conservadora de católicos

Vitória de cúpula considerada progressista contrariou grupo que esperava guinada na entidade

Joelmir Tavares
São Paulo

Concluída nesta terça-feira (7) com a escolha do secretário-geral, a eleição da diretoria da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para o período 2019-2023 consolidou a vitória de um grupo moderado, que indica continuidade da atual gestão, mas visto por conservadores como “esquerdizado”.

Dom Joel Portella Amado, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, exercerá a função de secretário, pela decisão de 301 bispos reunidos em Aparecida (SP) desde quarta-feira (1º). O cargo é importante porque seu ocupante é quem dita o ritmo no dia a dia da instituição, em contato com líderes da igreja em todo o país.

Na segunda (6) já haviam sido eleitos o presidente e seus dois vices, em um pleito que refletiu o clima de polarização no país. Havia a expectativa da ascensão de uma cúpula conservadora, em contraposição à atual, tida como progressista. O clima favorável à guinada, contudo, perdeu força.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, eleito presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
Dom Walmor Oliveira de Azevedo, eleito presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) - Arquivo/Arquidiocese de BH

O presidente será dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, que é visto como moderado e conciliador, assim como seus vices, dom Jaime Spengler (Porto Alegre) e Mário Antonio Silva (Roraima). A posse da nova diretoria será na sexta-feira (10), encerrando a 57ª assembleia da CNBB.

Os novos dirigentes assumem o poder em um momento de tensões com o governo Jair Bolsonaro (PSL). O Planalto incomodou a igreja, por exemplo, quando demonstrou preocupação com o Sínodo da Amazônia (encontro que será realizado em Roma para debater evangelização na região).

No outro front, a CNBB tem feito críticas duras ao projeto de reforma da Previdência.

O resultado foi imediatamente criticado por conservadores católicos, que têm como principal porta-voz hoje o youtuber paranaense Bernardo Küster, algoz da agremiação dos bispos nas redes sociais.

"A CNBB trocou seis por meia dúzia", protestou Küster, que é simpático a Bolsonaro e incensado por grupos de direita. Na comparação feita por ele, "tiraram Lula e colocaram o Luiz Inácio da Silva".

Seguidores lamentaram a derrota dos conservadores, tacharam dom Walmor de "politiqueiro petista" e o acusaram de promover a chamada "ideologia de gênero".

De acordo com especialistas em religião ouvidos pela Folha, a nomenclatura progressista, no caso da igreja, poderia ser equiparada ao que se chama de centro no espectro político tradicional.

Os progressistas pregam uma atuação em consonância com as orientações do papa Francisco, que defende um clero mais próximo do povo e atento a problemas sociais.

Correntes conservadoras, por outro lado, acreditam em uma igreja mais fechada em si mesma, que priorize suas doutrinas e promova resgate de valores cristãos.

Nomes considerados mais próximos à ala conservadora da CNBB surgiram na bolsa de apostas para a eleição, mas não foram bem-sucedidos. Os arcebispos de São Paulo, dom Odilo Scherer, e do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta, vinham sendo mencionados.

O primeiro chegou a ser lembrado na votação dos bispos de segunda-feira, mas não conseguiu votação suficiente, perdendo a presidência para dom Walmor. O segundo se enfraqueceu antes mesmo do pleito, depois de ter sido citado na Lava Jato pelo ex-governador Sérgio Cabral (MDB-RJ).

​Ambos eram tratados por observadores da sucessão como potenciais interlocutores da CNBB com o governo, caso fossem eleitos, abrindo um canal de diálogo com o Planalto e com apoiadores de Bolsonaro que se voltam contra a entidade, apontando um enviesamento ideológico nela.

Nesse contexto, a escolha de Joel Portella para a secretaria-geral tem sido interpretada como um indicativo de busca de interlocução na seara governista. Aliado de dom Orani, ele é caracterizado como articulador eficiente. Na Arquidiocese do Rio, o bispo auxiliar assumiu a coordenação de pastorais, o que o levou a aperfeiçoar a capacidade de diálogo.

​"A eleição dele, com um perfil complementar, pode ser uma tentativa de contrabalançar a atuação da nova diretoria", afirma Rodrigo Coppe Caldeira, professor de ciências da religião na PUC Minas. "Mas, obviamente, não deixará de haver um alinhamento entre presidente, vices e secretário-geral."

Para o historiador, mesmo que as divergências com políticas do governo continuem sendo manifestadas, dificilmente a CNBB se colocará como clara antagonista de Bolsonaro. No primeiro discurso após ser eleito presidente, dom Walmor fez questão de dizer que trabalhará à margem de polarizações.

A CNBB, prevê Caldeira, "vai ter uma posição forte em relação a políticas econômicas e sociais, mas buscando o diálogo mais amplo possível. Se a igreja entra na lógica da polarização, assume uma posição de conflito".

Pelo que conhece do novo presidente, que também é grão-chanceler (autoridade máxima) da PUC Minas, o professor diz acreditar que a entidade evitará embates. "Ele [dom Walmor] é mais dialógico", comenta o docente.

Baiano de nascimento (ele é natural de Cocos), mas com atuação em Minas desde a juventude, o novo chefe da CNBB é "mineiro de comportamento", na definição do padre Waldecir Gonzaga, diretor da Faculdade de Teologia da PUC Rio. "É tranquilo, equilibrado, ponderado. Tem o jogo de cintura de que nós precisávamos neste momento."

Gonzaga enxerga qualidades parecidas no futuro secretário-geral, que é professor na faculdade que ele dirige. "Dom Joel ajudará no diálogo da CNBB com os governos e com a sociedade. Sabe como lidar com as diferentes esferas", diz o padre.

O bispo emérito (aposentado) dom Angélico Bernardino, que participou da assembleia sem direito a voto, diz também acreditar que a nova gestão da CNBB "vai cumprir a missão, antes de tudo, de um trabalho em favor da comunhão e da união".

Considerado da ala mais à esquerda da igreja, ele é amigo de Lula (PT) e celebrou o ato ecumênico em São Bernardo momentos antes de o ex-presidente se entregar à Polícia Federal para ser preso, em 2018.

"Quem estava lá [em Aparecida] sabe que nós temos pensamentos diferentes, mas, sobretudo, há um respeito muito grande", afirma dom Angélico, empenhado em afastar os rumores de divisão no clero. 

"Não posso responder por possíveis insatisfeitos [com o resultado]. São bispos queridos, que estão aí na missão. Faço votos que apoiemos todos a nova direção da CNBB. Dom Walmor está focado na tarefa de construir, como fala o papa Francisco, uma igreja que vá ao encontro das periferias geográficas e simbólicas."

O que faz a CNBB

Instituição permanente que reúne os bispos católicos no Brasil, é a principal entidade da Igreja Católica no país, embora não seja uma representação oficial do Vaticano

Ano de fundação  1952

Membros  323 bispos

Principais organismos  Cáritas, Cimi (Conselho Indigenista Missionário), CPT (Comissão Pastoral da Terra)

Igreja e governo Bolsonaro têm pontos de contato e de atrito

Pontos convergentes

•    Discurso contrário ao aborto e com ressalvas a uniões homoafetivas
•    Defesa da família considerada tradicional
•    Resgate de valores morais cristãos

Pontos divergentes

•    Pensadores e grupos ligados ao governo promovem ataques ao papa Francisco e à CNBB, associando-os à esquerda
•    Reforma da Previdência é criticada pela CNBB
•    Medidas que prejudicam interesses indígenas, como o processo de demarcação de terras, são repudiadas pelo Cimi
•    Pacote anticrime de Sergio Moro virou alvo da Pastoral Carcerária
•    Preocupação do governo com Sínodo da Amazônia incomoda igreja

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.