Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Derrota de Moro alimenta 'lavajatização' de atos pró-governo no domingo

Grupos que organizam manifestações dizem que aprovação de MP não satisfaz demandas após vitória do centrão com Coaf

Carolina Linhares
São Paulo

A aprovação pela Câmara dos Deputados da medida provisória do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que estrutura o governo não arrefeceu a convocação para protestos pelo país no próximo domingo (26).

Pelo contrário: a derrota do ministro Sergio Moro (Justiça) agravou a insatisfação de movimentos de direita com o chamado centrão e destacou o apoio à Lava Jato, que também é uma pauta defendida pelos grupos. 

Embora a aprovação da medida provisória fosse uma das reivindicações das manifestações, houve descontentamento com a transferência do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão que faz relatórios sobre movimentações financeiras suspeitas, do Ministério da Justiça para pasta da Economia, comandada por Paulo Guedes.

"O fato de eles tirarem o Coaf do Moro nos deu gás para aumentarmos a pressão e a adesão aumentou", diz Ana Cláudia Graf, do grupo Ativistas Independentes. "Mexeu com Moro, mexeu com todos, não tem jeito", afirmou à reportagem, enquanto participava de um buzinaço na av. 23 de Maio. 

Ana Cláudia Graf, do Ativistas Independentes, durante buzinaço na av. 23 de Maio
Ana Cláudia Graf, do Ativistas Independentes, durante buzinaço na av. 23 de Maio - Arquivo pessoal

O movimento do centrão (grupo informal com cerca de 200 deputados de partidos como PP, DEM, PL, PRB, MDB e Solidariedade) que impôs a derrota a Moro foi lido pelos organizadores do protesto como um ataque ao combate à corrupção. 

Os grupos afirmam à Folha que a expectativa para domingo é alta —esperam uma mobilização como as vistas durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT) ou na campanha eleitoral do ano passado. 

"Estamos indo para a rua contra os parlamentares do centrão. Essa é a nossa pauta. Se o centrão achou que eles iriam aprovar uma MP e acalmar as ruas, eles se enganaram, porque nós queremos muito mais", diz Graf. 

Além da aprovação da MP, os grupos pró-governo se mobilizam pela aprovação da reforma da Previdência e do pacote anticrime de Moro. "Os políticos deixando isso pra lá, levando com a barriga. E isso não pode acontecer", diz Ricardo Sicchiero, do Movimento Avança Brasil. 

Para Sicchiero, a paralisia das medidas propostas pelo governo Bolsonaro se deve ao modo "velha política" dos congressistas, e não à falta de articulação do Planalto

"Os políticos querem agir no modo da velha política, mas o Brasil está mudando. Tanto é que elegemos o Bolsonaro para isso", diz.

"Ficou claro que articulação no Brasil sempre foi o toma lá dá cá. Mas o político tem que trabalhar [movido] pela necessidade do Brasil. Essa maioria no Congresso vai ser formada com a pressão das ruas", completa. 

O fato de a bancada do PSL ter desautorizado o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), durante a votação da MP é um exemplo de desarticulação "que pode acontecer em outros partidos também", nas palavras de Sicchiero. 

Após a votação na Câmara na noite de quarta-feira (22), a página do Movimento Avança Brasil postou que "a maioria dos corruptos do plenário da Câmara do Deputados" votou para tirar o Coaf de Moro. 

"Isto é importante: Sergio Moro já tinha o apoio total do Brasil quando era juiz em Curitiba, e agora como ministro também", diz Sicchiero.

Num vídeo transmitido ao vivo pelas redes sociais, Joaquim Gomes, coordenador do grupo em Brasília, diz que o fato de a diferença de votos ter sido pequena (228 votos a 210) mostra que "eles estão com medo da gente". "É uma derrota, mas foram apenas 18 votos, isso demonstra que eles estão nos respeitando e nós somos os patrões", comenta. 

Um dos fundadores do Patriotas Lobos Brasil, conhecido como Torres Patriota, também diz que a manifestação ganhou força nesta quinta-feira (23). "Não são todos, mas a grande maioria [dos congressistas] está trabalhando contra Bolsonaro porque ele é honesto", diz. 

A saída do Coaf da alçada de Moro é "um absurdo", na opinião de Torres. "Queremos o Coaf com Moro, nós confiamos nele. Guedes também é competente, mas continuo com o Moro e isso não desfavorece o economista Guedes."

Os movimentos prometem não sair das ruas até que suas pautas sejam atendidas. De acordo com Graf, uma nova manifestação está programada para ocorrer dentro de 15 ou 20 dias. "Vamos dar um prazo para ver se o Congresso reage à voz do povo", diz. 


OS PROTESTOS CONVOCADOS PARA DOMINGO (26)

Pautas oficiais

  • Defesa da reforma da Previdência
  • Defesa do pacote anticrime de Moro
  • Apoio à Lava Jato e ao combate à corrupção
  • Votação nominal na MP da reforma administrativa, com a manutenção do Coaf com Moro 
  • Defesa de medidas de Bolsonaro, como contingenciamento de gastos e decreto de armas

Quem vai participar

  • Clube Militar
  • Nas Ruas
  • Ativistas Independentes
  • Movimento Avança Brasil
  • Direita São Paulo
  • Patriotas Lobos Brasil
  • Outros grupos de direita

Quem não vai participar e por quê

> Movimento Brasil Livre 
"Isso [fechamento do Congresso e do STF] é coisa de revolucionário. Quem é liberal e conservador defende a separação dos Poderes, e não o fechamento dos Poderes"
(Kim Kataguiri, deputado federal pelo DEM e um dos fundadores do grupo)

> Vem pra Rua
"Sendo um ato pró-governo, não vamos aderir, porque vai contra um dos nossos pilares, que é ser um movimento suprapartidário"
(Adelaide Oliveira, coordenadora nacional do movimento)

> Partido Novo 
"Em manifestações com pautas diversas e sem objetivo claro, o Novo entende que cabe ao cidadão decidir quanto ao apoio, e não ao partido como instituição"
(Nota divulgada pela legenda)

> Janaina Paschoal, deputada estadual pelo PSL
"Essas manifestações não têm racionalidade. O presidente foi eleito para governar nas regras democráticas. [...] Pelo amor de Deus, parem as convocações! Essas pessoas precisam de um choque de realidade. Não tem sentido quem está com o poder convocar manifestações! Raciocinem!"
(Em post no Twitter)

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.