Partidos fracos abrem espaço para novos Bolsonaros, diz cientista político

Para coordenador de pesquisa que avalia a democracia na América, estabilidade depende de siglas mais fortes

São Paulo

Desculpe acabar a entrevista sem ter nada muito positivo para contar, disse nesta semana o cientista político Noam Lupu, da Universidade Vanderbilt (EUA).

 Lupu, 38, é um dos coordenadores da pesquisa de opinião Barômetro das Américas (Lapop), que investiga a avaliação da população do continente sobre a democracia e temas sociais.

Ele esteve no Brasil para apresentar os resultados das entrevistas no país. A satisfação com democracia cresceu, de 22% para 42%, entre 2017 e 2019. 

O nível, porém, ainda está distante dos 66% de sete anos atrás.

Mestre pela Universidade de Chicago e doutor pela Universidade Princeton, Lupu é cético em relação ao maior apoio atual à democracia no Brasil e na região como um todo.

Ele atribui o quadro melhor a uma lua de mel devido à posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL). A pesquisa no Brasil foi feita entre janeiro e março deste ano.

Segundo o pesquisador, um dos grandes problemas, e que parecem sem solução, é a carência de partidos políticos fortes. Sem eles, diz Lupu, o sistema democrático fica instável e dá lugar para candidatos como Bolsonaro, “que vêm do nada e vencem”.

O cientista político Noam Lupu, um dos coordenadores da pesquisa Barômetro das Américas
O cientista político Noam Lupu, um dos coordenadores da pesquisa Barômetro das Américas - Divulgação

Nesta entrevista concedida à Folha, o cientista político afirma que o PT será uma peça-chave para a estabilidade do sistema político brasileiro. Lupu tem pesquisado a importância dos partidos políticos na América Latina e escreveu o livro “Party Brands in Crisis” (partidos em crise).

"[Partidos] tiram um pouco o peso da personificação e valorizam mais agendas. Fazem com que os políticos possam ser cobrados. Se a cada momento é um, como você pode punir ou beneficiar na próxima eleição?", afirma. 

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A pesquisa aponta um crescimento na confiança na democracia no Brasil. Como o sr. avalia esse movimento? A pesquisa foi feita logo após a posse do presidente Bolsonaro. Parece ser uma espécie de lua de mel. As pessoas reconheceram que as eleições funcionaram, estavam infelizes com o PT e o então presidente Michel Temer. Veio algo novo. A democracia provê mudança quando você quer. O que é bom.

Mas é difícil saber se esse sentimento positivo se manterá. E acho muito improvável que a confiança na democracia retorne a níveis pré-2014. Houve dois fatores muito importantes. O primeiro foi a crise econômica. Mas os escândalos de corrupção também foram impactantes em toda a região [esquemas investigados na Lava Jato também funcionaram em outros países, especialmente no Peru].

Os escândalos deslegitimam a política e as instituições tradicionais, como o Congresso e os partidos.

 

A confiança na democracia não volta nem se houver um novo ciclo forte de crescimento econômico? Acho difícil. Essa sensação de corrupção ficou muito forte na sociedade.

Se algum governo apresentar um grande pacote anticorrupção, talvez. Bolsonaro apresentou essa mensagem na campanha. Mas algo realmente grande não parece estar no horizonte.

Uma saída seria os partidos investirem, de forma real, na agenda do combate à corrupção. Mas os resultados viriam apenas no longo prazo. E os políticos estão cada vez mais conectados com o curtíssimo prazo. O que dificulta o fortalecimento dos partidos, que hoje estão entre as instituições com a menor confiança das pessoas.

 

O sr. já escreveu livro e artigos defendendo a importância dos partidos no sistema democrático. O papel deles está mudando? Partidos políticos são vitais. Infelizmente eles têm ficado cada vez mais fracos na região.

Partidos são importantes porque dão alguma estabilidade ao sistema político. Tiram um pouco o peso da personificação e valorizam mais agendas. Partidos fazem com que os políticos possam ser cobrados. Se a cada momento é um, como você pode punir ou beneficiar na próxima eleição?

A ausência de partidos fortes cria oportunidades para candidatos que vêm do nada, baseados no carisma. É um pouco o caso do Bolsonaro.

Como ter partidos fortes? Difícil. Políticos não têm incentivos para fazer um investimento de longo prazo, que é o que se necessita para criar um partido forte.

Por que os partidos tradicionais estão falhando? No Brasil temos o PT e PSDB com muitos problemas. O Brasil não tem uma tradição de partidos fortes. O PSDB tinha uma reputação nacional, mas nunca foi muito coeso nem teve grande número de apoiadores.

O PT é uma exceção na região, conseguiu ser um partido grande, com muitos seguidores. Fez um trabalho melhor, mas meio que parou de fazer esse bom trabalho. O que sobrou do PT hoje? Basicamente, pessoas no Nordeste, beneficiárias do Bolsa Família. É uma base, claro, ainda que menor.

Mas vejo uma ótima oportunidade agora para o PT se reorganizar, por estar na oposição. Governar é fazer acordos, adotar medidas não populares. Na oposição você pode ser purista. O partido pode voltar às suas marcas originais.

Neste momento o PT não consegue definir uma bandeira clara, nem tem surgido novas lideranças claras... Mudança geracional é um problema comum nos partidos. Mas acredito que o PT se sairá bem, já que tem muitos membros com experiência municipal e estadual.

O que vejo como crucial é definir as bandeiras. Ser contra o governo simplesmente não é suficiente. As pessoas precisam ver algo como “esse partido me representa, e esse governo, não”. O PT precisa definir se as bandeiras serão diminuição da desigualdade, melhoria na educação ou resgatar as bandeiras históricas, como apoio à democracia e participação.

A democracia sobrevive com partidos fracos? Partidos fracos criam condições para oportunistas. Cabem às elites políticas definirem o que querem. Elas vão proteger as instituições?

As instituições não conseguem se defender sozinhas, sem esses atores políticos. Eleitores não serão os protetores das instituições.

E essa descrença nas instituições tradicionais pode ser algo geracional. Quem está chegando não viveu ditaduras militares e pode estar pensando: qual a alternativa para essa confusão que está agora?

O sr. vê algo que possa mudar esse panorama? Não. Me parece que esse será o novo normal, infelizmente. O PT é o único caso de sucesso de partido na região, que construiu uma base. Se ele sobreviver bem,  poderá organizar o sistema de alguma forma. No mais, as coisas não parecem boas.

Temos o caso da Argentina. Há Macri [atual presidente], há Cristina [ex-presidente]. Mas não partidos reais. Cristina agora está como candidata a vice, de um candidato que parece de centro. Mas será que ele é mesmo? E será de centro se ganhar a eleição? Como os eleitores podem reagir bem a isso?

A pessoa pode pensar, “ok, não vou votar no Macri, porque não gosto dele. Mas o que estarei colocando no lugar?”. Ninguém sabe.

Parece um pouco o caso do Bolsonaro. Voto nele porque não gosto do PT. Mas quem era ele? Viveremos um desequilíbrio estável.

No Peru, por exemplo, não temos partidos, apenas indivíduos. Os presidentes são ex-presidentes, filha de ex-presidente, esposa de ex-presidente. São personalidades. Não há incentivos para se investir em partidos.

E desde 2001 a economia lá vai indo muito bem, mas com muitos casos de corrupção. Assim, cada presidente acaba o mandato muito mal avaliado. Nos últimos dois anos, como consequência, vemos um grande declínio no apoio à democracia no Peru. Temos 60% dos peruanos achando que seria justificável o presidente fechar o Congresso.

A democracia está sob risco no Brasil? Até agora, vejo Bolsonaro e o Congresso negociando. Apesar da retórica populista e afagos à ditadura, não entendo que Bolsonaro tenha dado grandes passos para enfraquecer instituições democráticas. Também não parece haver muito apetite da população por algo nesse sentido.

Mas se a opinião pública e as instituições democráticas seguirem se deteriorando, e a retórica de Bolsonaro certamente vai em direção à deterioração, aí veremos oportunidades para as elites realmente minarem a democracia. Se essas elites farão algo, é outra questão.

Como o sr. vê o papel das redes sociais nesse debate? É difícil saber o que é causa e efeito. Mas é inegável que as redes sociais espalham informações muito mais rápidas que antigamente. As verdadeiras e as falsas. Só que está mais fácil de manipular as opiniões, especialmente num ambiente sem partidos políticos fortes, sem estabilidade.

De repente você recebe um WhatsApp de um primo, dizendo algo sobre Bolsonaro durante a eleição. Você pode passar a ter uma opinião muito rapidamente sobre ele, porque não tinha nenhuma informação prévia, algo que partidos fortes poderiam trazer. A combinação não é nada boa.

Desculpe ter poucas coisas positivas para dizer.

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