Líder do centrão defende emendas e diz que grupo nunca foi 'do mal'

Arthur Lira diz que único mérito do governo na Previdência foi ter enviado proposta ao Congresso

Thais Arbex Ranier Bragon
Brasília

Um dos principais líderes do centrão, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL), 50, diz que o grupo, essencial hoje na Câmara para aprovar ou barrar projetos, nunca foi do mal.

"Qual foi o mal que esses partidos que hoje estão nessa coalizão de centro fizeram?", questiona o deputado, um dos poucos que não demonstram descontentamento aos ser rotulado como integrante do "centrão".

O deputado Arthur Lira, em pé, conversa com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia - Pedro Ladeira-22.mai.19/Folhapress

O grupo, formado por cerca de 200 dos 513 deputados, teve sua atual formação iniciada sob a liderança de Eduardo Cunha (MDB-RJ), em 2014, hoje preso em decorrência das investigações da Operação Lava Jato. Atualmente, está sob comando do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que atribui ao centrão a aprovação em primeiro turno da reforma da Previdência.

Assim como o estigmatizado rótulo, Lira também elogia as emendas parlamentares pagas aos deputados, outro tema frequente nos bastidores da Casa, mas poucas vezes debatido publicamente.

"Se tem uma coisa boa nesse país, se tem uma coisa justa, são as emendas parlamentares. Você só faz a transformação na vida daquelas pessoas que mais precisam quando você leva as emendas. E nunca será o Poder Executivo que vai fazer isso porque ele não conhece os rincões. Se eu chegar aqui para o presidente Bolsonaro e perguntar: 'fale aí do povoado caboclo de São José da Tapera [AL]', ele vai olhar no Google e não vai achar", diz o deputado, que nega que as verbas tenham sido negociadas em troca de votos pró-Previdência.

Rodrigo Maia falou que o centrão, essa "coisa do mal", foi responsável pela aprovação da reforma. O senhor concorda?
Ele não disse isso não. É bom que está gravado o que ele disse. Ele falou assim: o centrão, que alguns chamam de coisa do mal, mas que ninguém define, foi o grande condutor de votos para a aprovação da reforma [Maia disse: "O centrão é essa coisa que ninguém sabe o que é, 'mas é do mal'... É o centrão que está fazendo a reforma da Previdência"]. Assinamos um documento que foi o responsável por ter tirado da reforma quem não deveria estar lá, como os portadores de deficiência, trabalhador rural, beneficiários do BPC [Benefício de Prestação Continuada]. Sem a nossa participação nem oposição nem direita teriam votos. Nós fomos determinantes. A questão da capitalização, da desconstitucionalização de regras, que nós não permitimos. Essa foi uma reforma possível. Nunca é justa, porque ela sempre trabalha para corrigir danos, estancar sangrias, e sempre alguém paga a conta. E a nossa tese é que pagasse a conta quem ganha mais. 

Qual foi o mérito do governo e do presidente Bolsonaro na aprovação?
A princípio, só o simples fato de ter mandado a proposta. Ter, num primeiro momento, trombado muito com o Legislativo, não contribuiu. Mas o mérito, mesmo? [faz uma pausa] Acho que foi uma pauta eminentemente legislativa. Respeitamos as posições econômicas do governo, mas em todos os momentos faltou um pouco de habilidade. A gente teve que jogar muita água na fogueira, não deixar que isso descambasse para o lado pessoal. Eu reputo dois momentos muito graves: o primeiro, a manifestação do dia 26 de maio [a favor de Bolsonaro e com críticas aos congressistas]. Se não tivesse bom senso da Câmara naquele momento, a reforma tinha ido pro espaço. Todos nós apanhamos nos estados, uns mais, outros menos, como se não fôssemos a favor da reforma. Depois tivemos outra crise, que foi naquela disputa entre Rodrigo e Paulo Guedes [ministro da Economia], quando retiramos a capitalização da proposta. Esse foi um ponto crítico. No mais, o governo ajudou. O ministro Onyx Lorenzoni [Casa Civil], há de se reconhecer que, a despeito de todas as dificuldades, ele conseguiu fazer uma relação de conversa política, de prestigiar o Legislativo. Tem que reconhecer também o trabalho do Rogério Marinho [secretário especial da Previdência], ele foi um monstro na defesa desse tema. Ao final, do meio para a frente, com o governo controlando marolas de internet e melhorando a conversa da Casa Civil com o Congresso, as coisas fluíram.

Mas no balanço geral, mais atrapalhou do que ajudou?
No começo, mais atrapalhou do que ajudou, não tenho dúvida. Quando o governo fala que já cumpriu a obrigação mandando para o Congresso a reforma, isso é a pior coisa do mundo. Em nenhum país do mundo, nenhuma reforma desse porte, como foi feita no Brasil, nenhum governo deixa de estar dentro, 24 horas, trabalhando, convencendo. 

Maia falou que espera agora uma nova relação entre governo e Congresso. Vai haver isso?
Sempre fui muito cético em relação aos resultados imediatos da Previdência. Ela foi vendida no começo como a solução de todos os problemas do Brasil. Crescimento, volta investimento, acaba com o desemprego. Eu não acredito em nada disso a curto prazo. É uma sinalização que você dá. Outras reformas virão, como a tributária, a administrativa, mas o pior de tudo é a insegurança jurídica e política. Você não tem, hoje, uma segurança jurídica no país. Cada tribunal julga de um jeito. A lei diz uma coisa e, no Brasil, você interpreta de acordo com a sua conveniência política do momento. Todas as vezes que as instituições fraquejam, o autoritarismo pode aparecer. Então a gente tem que sempre estar atento para corrigir decretos, medidas provisórias que são desnecessárias. Temos excesso de MPs tramitando no Congresso, não conseguimos fazer com que as pautas legislativas andem com tranquilidade. É importante que antes de qualquer medida, chamem os partidos, os líderes, para dialogar. Se o governo ouvir antes, vai errar menos. Outras [reformas] virão com certeza, mas é preciso estabilidade. Deixar de estar agredindo as instituições é primordial, deixar de estar ferindo as leis que vigoram é primordial.

O senhor, como parlamentar mais experiente, está vivendo essa "nova política". É uma nova política o que acontece aqui no Congresso?
Temos um presidente que foi eleito em uma plataforma diferente de tudo que já se viu. A maneira que o governo escolheu no início para governar, eu sempre tratei isso com muita alegria, sempre fui um defensor muito forte da retomada das prerrogativas do Legislativo. Quando diz que não tem mais toma lá dá cá, não tem o meu cargo, não tem a minha emenda, as prerrogativas retornam para o Parlamento. O governo nunca teve maioria para governar sozinho. Sempre governou por coalizão, que é o quê? Você vem governar comigo, te dou um ministério, te dou um espaço, te dou uma companhia, e eu vou legislar com você, porque era o governo quem fazia a pauta do Congresso. Logo se viu que não daria certo.

Na votação da reforma da Previdência, houve a prática que sempre existiu em todos os governo, liberar emendas, prometer até um lote extra, liberar cargos...
É. Isso que estou dizendo. O [novo] sistema não se afirmou. Agora, se tem uma coisa boa nesse país, se tem uma coisa justa, que eu falo com orgulho, são as emendas parlamentares. Você só faz a transformação na vida daquelas pessoas que mais precisam quando leva as emendas. E nunca será o Poder Executivo que vai fazer isso porque ele não conhece os rincões. Se eu chegar aqui para o presidente Bolsonaro e perguntar: "fale aí do povoado caboclo de São José da Tapera [AL]", ele vai olhar no Google e não vai achar. E eu sei que lá precisa de água, precisa de trator para associação, precisa de posto de saúde, precisa de uma reforma em uma escola. Então, nessas situações, a gente faz como aquela aspersão de água benta, você pulveriza no Brasil um dinheiro que está centralizado. É imposto de todo mundo recolhido para ficar preso em Brasília. E quando fica preso na mão de um ministro, um almofadinha, um técnico que não sabe de nada o que acontece no Brasil, um ministro que fica aqui comandando orçamento de R$ 100 bilhões e não sabe o que fazer com ele, nós vamos dar destinos. É uma obra federal que você está levando para o seu município. Então, gente, isso é a melhor coisa do mundo.

A nova política, então, na prática, não vingou no primeiro texto? 
É uma mudança paulatina. Discutimos muitos temas que são cruciais para a vida de milhões e milhões de brasileiros. Não se há de dizer que o cara melhorou ou piorou aquilo por conta de uma emendinha. Absolutamente, gente. Você não consegue uma maioria desse tamanho se não tiver uma mobilização grande de partidos, de líderes, do presidente da Casa. Quantas noites nós perdemos, quantas reuniões nós tivemos? Quem tocou foi o Congresso. O presidente Bolsonaro nunca foi afeito, inclusive votou contra no passado. O Congresso foi importantíssimo. Teve um papel de absoluto protagonismo nesse assunto. 

O senhor vê chance de avançar na Câmara a pauta de costumes do presidente Jair Bolsonaro? Porte de armas, as alterações no Código de Trânsito e Escola sem Partido, por exemplo.
Acho que aí o governo vai ter mais dificuldades. Essas pautas de costumes terão uma discussão, como de costume, mais dura. Com relação à educação, a gente tem muito mais coisa séria para corrigir do que Escola sem Partido. 

Depois de todo o processo de votação da Previdência, essa tal "coisa do mal” virou "do bem"?
O centrão? Mas ele nunca foi do mal. Trinta e tantos partidos, uns mais ao centro, outros mais à direita, outros mais à esquerda. O que machuca é esses partidos, que não fizeram nenhuma ação contra o país, nenhuma matéria bomba, que não tiveram nenhum tipo de ataque pessoal ou político ao presidente ou a uma instituição sejam taxados de coisa do mal. Qual foi o mal que esses partidos que hoje estão nessa coalizão de centro fizeram? 

Existe aquela percepção antiga de que há troca de votos por emenda e cargos.
Nem tem cargo nem emenda para ser trocada. Estamos votando há sete meses, não só a Previdência, mas outros temas importantes. E qual é a nossa postura? Equilíbrio, dar o conforto, discutir, dialogar com um lado, dialogar com o outro. Eu tenho muito mais acesso aos partidos de esquerda do que aos partidos de direita.

E a defesa das emendas, que o senhor diz ser legítima, não é usada por vários parlamentares como moeda de troca na hora da votação? 
Não. Não vi, sinceramente, isso aqui, a faca no pescoço.

Na época em que Eduardo Cunha começou a montar esse novo centrão, houve várias pautas-bombas…Naquela época tinha uma briga direta do Cunha com a [ex-presidente] Dilma [Rousseff] que foi visceral. É isso que estou dizendo: não é normal um presidente da República brigar com um presidente da Câmara. Bolsonaro já deve ter recebido 200 lembretes desses. Brigar na víscera com o presidente da Câmara... Se ele não tiver calma, cai qualquer governo. 

O senhor acha que há uma possibilidade de aprovar mudança para possibilitar a reeleição do presidente da Câmara e do Senado?
Acho difícil. No Senado nem tanto, mas o presidente da Câmara fica eterno. Estamos, por exemplo, no início do mandato. O Rodrigo se elegeu, se a gente permitisse a reeleição dele, ele ficaria quatro [anos]. Aí vem a nova eleição e ele volta de novo, aí de novo, aí fica, em tese, até o dia que quiser. É uma Casa de 513 e a oxigenação é importante.

Raio-X

Arthur Lira
50 anos
Líder da bancada do PP
Empresário, advogado e agropecuarista
Filho de ex-senador Benedito de Lira, está no terceiro mandato como deputado

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.