Em novo depoimento, hacker diz que não copiou conversas de Dilma, Moraes e Janot

Delgatti também disse que não contou a Glenn que foi responsável por hackear Moro

Reynaldo Turollo Jr. Rubens Valente
Brasília

Em novo depoimento prestado à Polícia Federal na terça-feira (30) e obtido pela Folha, Walter Delgatti Neto, principal suspeito de hackear o Telegram de autoridades, afirmou que não copiou mensagens de outros alvos de invasão, como a ex-presidente Dilma Rousseff, o ex-procurador-geral Rodrigo Janot e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

Delgatti, 30, afirmou também que não repassou as mensagens de procuradores da Lava Jato para nenhuma outra pessoa além do jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil. O suspeito só admitiu ter copiado conversas de procuradores de Curitiba, como Deltan Dallagnol, e de um promotor de sua cidade, Araraquara (SP) —Marcel Bombardi, que o havia denunciado por crimes antigos.

Walter Delgatti Neto (de blazer escuro) é levado para depor - Pedro Ladeira/Folhapress

O suspeito afirmou ainda que não invadiu contas de procuradores que atuam em Brasília na Operação Greenfield, como sugerira em seu depoimento anterior, mas baixou conteúdo relativo à investigação a partir do celular de Deltan Dallagnol.

Diferentemente do que consta de seu primeiro depoimento, Delgatti disse agora que não se lembra exatamente como foi obtendo os números de telefone de seus alvos. No entanto, disse que “em toda conta do Telegram que era acessada pelo declarante havia uma lista de pessoas que utilizavam o aplicativo e que tinham um vínculo direto ou indireto com o usuário invadido”.

O contato do ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, ele havia dito ter obtido no celular do deputado Kim Kataguiri (DEM-SP). No novo depoimento, disse que o conseguiu na agenda de Deltan.

Já o de Manuela, que inicialmente ele disse ter encontrado no celular de Dilma, agora relatou ter obtido em um flyer da campanha presidencial de 2018, disponível na internet.

No fim de semana, os advogados do suspeito divulgaram uma nota afirmando que Delgatti havia deixado informações “devidamente resguardadas por fiéis depositários, nacionais e internacionais”.

À PF Delgatti disse que “gostaria de consignar que o fiel depositário mencionado por seus advogados refere-se à empresa vinculada à Dropbox [meio utilizado para repassar as mensagens a Greenwald] e o jornalista vinculado ao The Intercept”.

O suspeito relatou ainda que nunca contou a Glenn que foi o responsável pelo ataque ao celular do ministro Sergio Moro (Justiça), apesar de o editor do site The Intercept Brasil ter lhe feito essa pergunta.

Na última sexta (26), Glenn revelou à revista Veja diálogos que teve com a pessoa que lhe entregou o material vazado da Lava Jato —ele o Intercept têm dito que o interlocutor nunca se identificou. Conforme a conversa, após vir a público a notícia de que Moro fora hackeado, a fonte do Intercept negou ao jornalista que fosse responsável pelo ataque.

Delgatti modificou detalhes de seu primeiro depoimento, prestado na noite do dia 23, quando foi preso. Ele confirmou que pegou o telefone de Greenwald com a ex-deputada Manuela d'Ávila (PC do B), mas disse que nunca repassou a ela um áudio de conversa entre procuradores da Lava Jato, como relatara antes.

“[Delgatti disse] Que não invadiu a conta do Telegram de Manuela d'Ávila, tendo apenas enviado uma mensagem; que enviou a mensagem para Manuela através de uma conta no Telegram que criou exclusivamente para estabelecer esse contato; que enviou apenas mensagem de texto para Manuela d'Ávila; que as conversas que realizou com Manuela não estão registradas em seu computador, tendo em vista que foi realizada em um chat secreto”, disse o depoimento obtido pela Folha.

Em nota enviada à imprensa na semana passada, Manuela, que foi candidata a vice na chapa de Fernando Haddad (PT), confirmou que repassou o contato de Glenn, mas não mencionou ter recebido um áudio.

“[Afirmou] Que não enviou para Manuela d'Ávila uma gravação de áudio entre os procuradores Orlando [Martello] e Januário Paludo para comprovar que estava falando a verdade; que referido arquivo de áudio contendo o diálogo entre os procuradores da República Orlando e Januário Paludo somente foi enviado ao jornalista Glenn”, diz o texto do depoimento.

Segundo Delgatti, Manuela sugeriu, a princípio, que ele contatasse Glenn pelo aplicativo Signal, mas o hacker pediu ao jornalista para criar uma conta no Telegram.

Ainda segundo Delgatti, ele recebeu no mesmo dia do primeiro contato (12/5/2019) “uma mensagem indicando que Glenn Greenwald havia ingressado ao Telegram; realizou seus contatos com Glenn Greenwald através do chat secreto do Telegram; as conversas do chat secreto são destruídas assim que a conta do Telegram é encerrada”.

O suspeito disse “que não falou para o jornalista Glenn que foi o responsável pelo ataque ao Telegram do Ministro Sergio Moro; que Glenn perguntou para o declarante se ele havia sido responsável pelo ataque do Telegram do Ministro Sergio Moro; que nunca admitiu para o jornalista Glenn que havia sido o responsável pelo ataque”.

Segundo o suspeito, suas conversas com Glenn se davam por meio de um email criptografado, que está no computador apreendido pela PF, e também por ligações de áudio via Telegram. Em uma dessas ligações, que estava ruim, o jornalista passou o telefone para uma outra pessoa —não identificada no depoimento— auxiliar na conversa, pois, segundo Delgatti, ele não entendia bem o sotaque de Glenn (que é americano).

O suspeito disse que somente ele entrou em contato com Greenwald para “discutir questões relacionadas aos conteúdos do aplicativo Telegram que havia obtido”.

 
 

Tempo real

Uma informação nova dada por Delgatti à polícia é que ele conseguia ler as mensagens trocadas por seus alvos em tempo real. “As contas que eram acessadas pelo declarante [Delgatti] através de seu computador poderiam ser acompanhadas online, ou seja, toda mensagem trocada por meio do aplicativo poderiam ser lidas em tempo real”, afirmou.

“[Delgatti disse] Que as contas de Telegram que possuíam conteúdos de interesse público, conforme análise do declarante, são principalmente aquelas vinculadas aos membros da força-tarefa da Lava Jato no estado do Paraná; que considerou os conteúdos de interesse público os que teriam, em sua opinião, indícios de crime de responsabilidade e crimes comuns”.

O suspeito também forneceu detalhes técnicos de como operava, em sua casa, geralmente de madrugada.

“[Disse] Que o seu celular acessava o Telegram através do aplicativo PIA (Private Internet Acess), que é uma VPN com sede nos Estados Unidos; que as ligações para o número das pessoas-alvo eram realizadas a partir do notebook (MacBook Air) do declarante, que possuía instalado o aplicativo ZoIPer e que realizava as ligações pelo provedor BRVoz por meio de VPN; que o sistema BRVoz não aceita ligações através de VPN, motivo pelo qual utilizava o IP disponibilizado em sua residência.”

A investigação da PF chegou a Delgatti e a três amigos dele por causa da identificação dos endereços de IP das conexões. Os quatro suspeitos tiveram a prisão temporária convertida em preventiva (sem prazo para acabar) nesta quinta-feira (1º).

 

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