'Chega de mandar estagiário para a Presidência', diz Ciro sobre Huck

Ex-ministro, que concorreu ao Planalto em 2018, afirma que Lula desmoraliza Justiça ao insistir em não passar para o semiaberto

Gustavo Uribe, da Folha Luciana Amaral, do UOL
Brasília

Em uma espécie de prévia da disputa presidencial de 2022, o ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) avalia que o apresentador Luciano Huck, cotado para concorrer à próxima eleição, não tem experiência no setor público ou na atividade política.

Por isso, diz Ciro, diante da atual crise socioeconômica, não é o momento de "mandar um estagiário para a Presidência da República".

Em entrevista ao programa de entrevistas da Folha e do UOL, em um estúdio compartilhado em Brasília, o terceiro colocado na eleição do ano passado afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem "desmoralizado" a Justiça ao insistir em não passar para o regime semiaberto.

O ex-ministro Ciro Gomes durante entrevista no estúdio da Folha e do UOL, em Brasília
O ex-ministro Ciro Gomes durante entrevista no estúdio da Folha e do UOL, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Ciro considera que não há no país clima político para um impeachment de Jair Bolsonaro, mas arrisca o palpite de que o presidente não deve concluir o mandato. "No Sete de Setembro do ano que vem, ele não bota a cara na rua, porque a economia não vai mudar nada", disse.

Candidatura de Huck

Você passa numa esquina e vê ali aqueles meninos fazendo malabares, jogando coisas, engolindo fogo. Eu acho aquilo admirável. Mas você entregaria seu filho com apendicite para um malabarista genial fazer a cirurgia dele? Essa é a pergunta que nós temos que fazer. Qual é a credencial? Não é do Luciano Huck. Pelo amor de Deus, chega de mandar estagiário para a Presidência da República.

Você pegar um malabarista extraordinário, maravilhoso, um grande artista, gente boa. É amigo pessoal, com pouca frequência, mas nos encontramos. Estive no casamento dele lá atrás. A Angélica encerrou minha campanha de prefeito de Fortaleza. Tenho, assim, delicadezas com ele, mas, camarada, experiência anterior no setor público, na política? Nenhuma.

Aí vamos entregar a Presidência da República no olho do furacão da pior crise socioeconômica da história do Brasil a um grande malabarista? Eu não dou meu filho para ele fazer uma cirurgia. Se o Brasil quiser, entrega o filho com apendicite para ele fazer a cirurgia. Eu não entrego.

Experiência para presidente

O Bolsonaro pateticamente diz assim: "Eu não entendo de economia". Aí tem uma decisão para tomar. Nós vamos fazer um sistema tributário mais regressivo, que cobra mais do mais pobre e menos do mais rico, ou um sistema mais progressivo, que cobra mais do rico e menos do pobre? Quem arbitra isso?

O presidente não entende. Aí a Dilma [Rousseff]. Experiência anterior na política? Nada. Aí vai para o governo e não consegue juntar um terço dos deputados de uma Câmara Federal que se revelou à venda. A Dilma é tão fraca, tão inexperiente, e o lulopetismo não assume responsabilidade nenhuma de ter imposto ao Brasil, pela popularidade extraordinária e merecida do Lula, uma inexperta.

Impeachment de Bolsonaro

Nem pensar [há clima para novo impeachment]. Nós estamos reconstituindo um bastidor que ainda está muito perdido por essa radicalização odienta da burocracia corrompida do PT e do bolsonarismo boçal que está infernizando o debate, impedindo a sociedade brasileira de trabalhar e produzir.

Eu lutei muito contra o impeachment. Lá atrás, também fiquei contra o impeachment que o Lula propôs contra Fernando Henrique Cardoso pela mesma razão. Remédio para governo ruim e para a nossa frustração não é impedimento. O PSDB, por exemplo, percebeu a grande bobagem que fez com o impedimento da Dilma. Estão profundamente arrependidos e com razão.

Imagine a Dilma arrastar esse governo trágico que ela fez até o fim. Em que ambiente aconteceriam as eleições? Não era o Bolsonaro quem iria ganhar, mas o PSDB. Eles deram um tiro no pé para o resto da vida.

Renúncia do presidente

Eu acho que ele não termina, mas é um mero palpite. Por quê? Porque o Bolsonaro não tem traquejo para o antagonismo. Ele já deu entrevista, impressionante que não repercutiu muito, para a revista Veja, que não é de ser lida, mas a gente vê a repercussão no Facebook. Mas ele se confessa acordar de madrugada chorando aos quatro meses de governo.

Você imagina que o Bolsonaro é o presidente que mais rápido e profundamente erodiu seu capital político de origem. Ainda foi no Sete de Setembro, saiu no carro oficial e teve uma palminha. No Sete de Setembro do ano que vem, ele não bota a cara na rua, porque a economia não vai mudar nada.

Saída de Lula

A presença de um cidadão na cadeia é ordem do Estado e da lei. Não depende da vontade dele. Então, se a Justiça determinar o regime semiaberto, cabe ao paciente, isso estou falando em tese qualquer que seja ele, simplesmente obedecer. Isso é o que está escrito na lei. Não é voluntário a presença de ninguém em uma cadeia pública.

Lula só faz política 24 horas por dia e está desmoralizando a Justiça que resta do Brasil. No Brasil, agora, não tem mais lei. É tudo conveniência e o Lula sentiu, com esse instinto extraordinário que ele tem, que a Justiça brasileira está em xeque e resolveu tripudiar.

Atuação de Moro

Sou um profissional do direito. Sei a importância de a gente respeitar a regra e o Estado de Direito democrático independentemente quem ele atinge. E, evidentemente, o Moro não se comportou. Isso não estou dizendo agora.

O juiz que é bom juiz tem de ter determinados zelos com o seu comportamento. E o Moro é um politiqueiro ambicioso e corrupto, porque aceitou uma promessa de uma vantagem. Ou não é corrupção um juiz condenar um político, independentemente se esse político é ou não culpado, e depois aceitar ser ministro de quem ganhou a eleição, porque aquele outro não pôde participar da eleição? Isso é deplorável. Não existe esse tipo de precedente no mundo.

O Moro é um politiqueiro absolutamente desonesto. É uma mancha grave no Poder Judiciário brasileiro, além de ser muito despreparado. Moro é analfabeto funcional de matéria de direito.

Homicídios e pacote anticrime

Um ponto positivo mais relevante [na gestão Bolsonaro] para mim é que há uma tendência, que já vinha de antes deste governo, mas que eu acho que ele está ajudando a aprofundar, na queda dos homicídios. Em 2017, foram 61 mil homicídios registrados oficialmente no Brasil. Em 2018, que não foi Bolsonaro, isso caiu para 57 mil. Até junho deste ano, nós estávamos em 21.800. Se nós dobrarmos, e há uma tendência de queda, estamos falando de 44 mil homicídios.

[Mas] o pacote anticrime é uma grande bobagem, uma grande mentira, não tem nenhuma coerência com nada do que é mais moderno e avançado no mundo.

 

Inquérito das fake news do STF

Isso é uma impertinência absoluta, sem precedente. É uma aberração dessas que eu estou assustado. Fake news estabelecendo bases psicossociais para eventuais insultos e agressões a ministros da mais alta corte do Brasil é um crime. 

Este crime, uma vez acontecendo, a vítima dele, um ministro ou o presidente do Supremo, cabe a ele pelo melhor rito legal dar notícia de haver um crime nessa conduta e apontar os elementos indiciários ao Ministério Público. É ao Ministério Público que cabe tomar iniciativa de determinar à Polícia Federal o inquérito. Se não ocorrer isso, caímos na seguinte aberração: o representante é o titular do inquérito e ele próprio é o julgador do inquérito que ele próprio presidiu e executou. Isso não existe no direito. É uma aberração completa.

Voto de Kátia Abreu na Previdência

Ela ainda tem o segundo turno para votar. Portanto, seria absolutamente precipitado e injusto que a gente não desse a ela a possibilidade, que é a razão de ter dois turnos, de refletir um pouco.

A questão aqui para nós é muito doída e central sob o ponto de vista programático. Quem cria o sistema previdenciário público no Brasil são os nossos ancestrais no partido, o [ex-presidente] Getúlio Vargas. E essa reforma previdenciária é profundamente injusta. Ela preserva privilégios e concentra 80% de todo o sacrifício na mão daqueles que estão no regime geral. 

O PDT tem uma proposta de superar o déficit previdenciário em 24 meses. Não há como ter dois critérios, dois pesos e duas medidas. O nosso diretório nacional, em convenção nacional com a presença dela, fechou questão contra essa reforma.

​Raio-X

Ciro Ferreira Gomes, 61
Formado em direito pela Universidade Federal do Ceará. Foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro dos governos Itamar Franco e Lula. Já foi filiado ao MDB, PSDB, PPS, PSB e PROS. Atualmente está no PDT. Candidatou-se à Presidência em 1998, 2002 e 2018. Na última eleição, ficou em terceiro lugar, com 12,4% dos votos válidos

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