Protagonismo de Luciano Huck gera incômodo em movimento de renovação

Para ala de integrantes, Agora! foi 'cooptado' pelo apresentador, que cogita concorrer à Presidência em 2022

Joelmir Tavares
São Paulo

A ascensão de Luciano Huck e de seus aliados dentro do Agora! passou a incomodar parte dos integrantes, insatisfeitos com o que chamam de cooptação indevida do movimento pelo apresentador e empresário.

Como a Folha mostrou, Huck intensificou suas articulações com vistas a uma provável candidatura presidencial em 2022. E o Agora! é considerado um pilar crucial dos planos políticos do comunicador.

O sinal mais recente da influência do apresentador na organização foi a criação de um conselho consultivo para o qual foram convidados dois de seus interlocutores mais frequentes: o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung.

O apresentador da TV Globo entrou para o Agora! em 2017. O movimento independente, que àquela altura encabeçava uma lista de novos grupos que empunhavam a bandeira da renovação política, havia sido criado meses antes.

Huck despontava, ao mesmo tempo, como o outsider que poderia atrair para si nas eleições de 2018 o apoio de partidos de centro e de direita. Ele ensaiou entrar na disputa, mas acabou se retirando meses antes do pleito.

Um dos fundadores do Agora! é o cientista político Leandro Machado, que integra o núcleo embrionário de uma eventual campanha do comunicador ao Planalto, assim como Arminio e Hartung.

Machado criou a organização em 2016 ao lado de outras pessoas próximas do apresentador, como a especialista em segurança pública Ilona Szabó e a consultora Patricia Ellen, hoje secretária de Desenvolvimento Econômico do governo João Doria (PSDB-SP).

Huck também é um dos doadores do movimento, que sobrevive com dinheiro privado. O valor individual das contribuições não é divulgado, mas o grupo afirmou em seu balanço de 2018 ter arrecadado até o fim daquele ano R$ 3,76 milhões.

A entrada do apresentador no Agora! já provocou pelo menos outros dois desgastes. Seu ingresso foi apontado por Alê Youssef, um dos fundadores do movimento, como a razão para que ele deixasse o coletivo no fim de 2017.

Youssef, hoje secretário municipal de Cultura na gestão Bruno Covas (PSDB-SP), reclamou na época do que enxergava como imposição do time de Huck. Disse que o engajamento do grupo em uma campanha presidencial esvaziaria seu propósito inicial de incentivar a renovação do Legislativo.

Em 2018, um episódio que teve o dedo do apresentador foi responsável pela saída de outro membro considerado mais à esquerda, o advogado Beto Vasconcelos.

Secretário nacional de Justiça no governo Dilma Rousseff (PT), Vasconcelos ficou contrariado com a decisão do Agora! de se manter neutro no segundo turno da eleição presidencial.

Ocorre que o movimento havia realizado uma votação entre os participantes, com resultado favorável à divulgação de uma nota de apoio crítico a Fernando Haddad (PT) e rejeição a Jair Bolsonaro (PSL).

Huck fazia parte da ala que discordava da articulação do texto anti-Bolsonaro, e foi esse o entendimento que prevaleceu. O impasse aborreceu integrantes que defendiam a manifestação de um posicionamento claro em defesa dos valores democráticos.

O apresentador —que não participou diretamente da votação, mas endossou a tese vitoriosa— declarou à época que faria uma "resistência positiva" a qualquer um dos dois que triunfasse nas urnas. Também afirmou que nunca votou no PT e jamais votaria.

Recentemente, ele se referiu a Bolsonaro como "o último capítulo do que não deu certo". O presidente revidou, atacando o comunicador por ter comprado um jatinho com subsídio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), negociação feita legalmente.

Falando sob anonimato, membros que se irritaram com os reveses associados a Huck afirmam haver risco de o Agora! ser instrumentalizado em benefício dos planos políticos dele, algo que não foi discutido em profundidade nem agrada à totalidade dos integrantes.

O Agora! possui hoje aproximadamente mil membros em todo o Brasil. O núcleo mais ativo, com menos de cem pessoas, reúne profissionais liberais, empresários, profissionais ligados a ONGs e acadêmicos de diferentes áreas do conhecimento.

Em seu escopo inicial, o mote era a busca de oxigenação política, com a previsão de apoiar novos líderes que quisessem se candidatar ou assumir cargos na administração pública.

Em 2018, contudo, o grupo decidiu por um reposicionamento e escolheu priorizar a formulação de políticas públicas. Com o novo foco, passou a se definir como "um hub de boas práticas", ou seja, um espaço para debater programas e difundir iniciativas bem-sucedidas.

Logo que Arminio e Hartung foram introduzidos como parte do conselho consultivo, em abril, Huck foi às redes sociais dar as boas-vindas. "Uma contribuição enorme para um movimento cívico que se propõe a discutir uma agenda para o país", comemorou.

Ele também defendeu que a tal agenda para o Brasil seja "aberta a todos, e maior que as discussões ideológicas que trincaram a nossa sociedade".

No horizonte dessas discussões está a busca de soluções para os grandes problemas nacionais, em setores como educação, segurança pública, saúde, infraestrutura e ambiente, com ênfase no combate à desigualdade, um tema urgente para o movimento.

O Agora! diz que suas propostas estão à disposição de qualquer político ou cidadão que quiser se apropriar delas para executá-las. Na eleição do ano passado, compartilhou com campanhas de presidenciáveis um documento com 130 sugestões.

Elaborado ao longo de meses com a ajuda de cem especialistas, o compilado pregava desde a implementação do imposto sobre grandes fortunas até a regulação da maconha para uso adulto.

Nos bastidores, o trabalho desenvolvido pelo Agora! tem sido visto como uma espécie de piloto do que pode vir a ser um plano de governo do candidato Huck, caso a aventura eleitoral vire realidade.

Ele evita, por ora, confirmar candidatura. E a organização nega que qualquer atividade do coletivo tenha em vista um ou outro político específico.

Procurado pela Folha, o Agora! não comentou as críticas que envolvem seu agregado mais famoso.

A organização afirmou, em nota, que "existe para discutir e propor um projeto de país, que é aberto e de livre acesso a qualquer cidadão brasileiro".

"Com mais de mil membros e quase uma centena de doadores, atuamos como um polo de boas práticas em políticas públicas, reunindo especialistas e lideranças interessadas nessa discussão. Luciano Huck é uma delas e coopera com o projeto em diversas áreas desde 2017."

O movimento disse ainda que Arminio e Hartung foram os primeiros convidados para integrar o recém-criado conselho consultivo e não esclareceu se há outros conselheiros.

Huck também é apoiador do RenovaBR, outro movimento cívico (como ele define) que está atuando para ajudar a renovar a cena pública. A escola de novos políticos elegeu 17 parlamentares na eleição de 2018, ligados a partidos como Cidadania, Novo, Rede, PSB e PDT.

Movimento Agora! nasceu em 2016
Com membros no Executivo e no Legislativo, a organização quer buscar soluções para os grandes problemas nacionais, com ênfase no combate à desigualdade.
O Agora! é financiado com doações privadas e possui cerca de mil membros em todo o Brasil.
O núcleo mais ativo, com menos de cem pessoas, reúne profissionais liberais, empresários, profissionais ligados a ONGs e acadêmicos de diferentes áreas do conhecimento.

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