Haddad diz que suspeição de Moro importa mais para direitos políticos de Lula

Petista afirma que julgamento tem mais relevância para o ex-presidente do que decisão sobre segunda instância, que STF volta a julgar nesta quarta (23)

Thais Arbex, da Folha Guilherme Mazieiro, do UOL
Brasília

Candidato derrotado na disputa à Presidência da República em 2018, Fernando Haddad (PT) afirma que, "como cidadão", quer ver o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputar novamente a corrida ao Palácio do Planalto. 

Para isso, o ex-prefeito de São Paulo diz apostar no resultado do julgamento da alegada suspeição do ex-juiz Sergio Moro —hoje ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro—, que pode levar à anulação da condenação do petista no caso do tríplex de Guarujá (SP). 

Haddad, assim como todo o PT, também entende que esse julgamento tem mais relevância do que a decisão sobre prisão após condenação em segunda instância —a análise sobre o tema será retomada nesta quarta-feira (23) no STF (Supremo Tribunal Federal) e pode beneficiar Lula e outros condenados da Lava Jato.

"Gostaria de ver Lula livre e com seus direitos políticos assegurados. É o que todos nós desejamos", afirmou.

Ao programa de entrevistas da Folha e do UOL, em um estúdio compartilhado em Brasília, Haddad afirma fazer parte de um time e que não importa se, em 2022, será "técnico, zagueiro ou artilheiro". O importante, diz, é o time ganhar.

"Se vou ser o artilheiro, o zagueiro, o capitão do time, o técnico, vamos ver, mas pertenço a um time que quer mudar o Brasil para melhor."

Ascensão de Bolsonaro e crise no PSL

Diante da implosão da centro-direita, de partidos como o PSDB e o MDB, que estavam em torno do governo Michel Temer, surgiu uma pessoa sem projeto que galvanizou um projeto de insatisfação, congregando perspectivas bastante incongruentes: os amantes do mercado a todo custo, que querem passar nos cobres o patrimônio público, o ultraliberalismo do [Paulo] Guedes; gente que não tem nenhum apreço pela democracia e quer uma saída autoritária para a crise, que é a turma do [Sergio] Moro e dos militares; e tem a turma fundamentalista, que quer o Estado teocrático no Brasil, que é a Damares [Alves], o [Abraham] Weintraub, o [Ernesto] Araújo e o [Ricardo] Salles —o quarteto fantástico.

Fernando Haddad em entrevista no estúdio da Folha e do UOL em Brasília
Fernando Haddad em entrevista no estúdio da Folha e do UOL em Brasília - Kleyton Amorim/UOL

Foi para baixo do guarda-chuva do Bolsonaro uma porção de perspectivas que não encontravam uma expressão política. A bancada do PSL é isso, é esse samba que ninguém entende, de desafinação. Não existe ali um partido propriamente.

Bolsonarismo em crise?

Bolsonaro é, ele próprio, uma crise. Ele se alimenta dela. É impossível imaginar um governo Bolsonaro que aposta na estabilidade. Ele vive dessa instabilidade porque é uma maneira de ele preencher o espaço vazio da chefia do Estado. É quase uma necessidade espiritual e psicológica.

A busca de coerência faria ele perder base. É difícil entender porque é um fenômeno novo, mas a coerência, a racionalidade, a estabilidade são conceitos que produzem mais problemas para ele do que essa instabilidade na qual ele navega e a partir da qual ele mantém conexão com esse eleitorado, que, pela primeira vez, encontrou um canal político de se exprimir. 

Unidade da esquerda e eleições 2020

Em toda eleição, acontece uma coreografia, um baile entre os parecidos para ver quem vai representar naquela disputa. A eleição do ano que vem será a primeira sem coligação proporcional. É natural que os partidos ajam, em primeiro lugar, olhando para a sua sobrevivência, para a cláusula de barreira, para o lançamento de novos nomes. Ninguém pode pedir para esses cinco partidos —PDT, PSB, PC do B, PSOL e PT— que abram mão imediatamente [de lançar seus candidatos].

Mas tem um processo de construção da convergência, que é natural. Não vejo nenhuma indisposição da parte desses partidos em construir unidades duradouras.

A política é a construção do imponderável, daquilo que você não está enxergando. Se a centro-esquerda souber jogar o jogo, ela vai estar representada no segundo turno. Mas tem de tomar o cuidado para não acontecer o que aconteceu em vários países, em que a centro-esquerda desaparece e fica a centro-direita discutindo com extrema direita.

Suspeição de Sergio Moro

Como a votação do habeas corpus [da alegada suspeição do ex-juiz Sergio Moro] já teve início, entendo que o Lula, com razão, está olhando para esse julgamento. Desde o início, ele diz com todas as letras: não estou sendo julgado por um juiz imparcial, simplesmente porque não há provas contra mim. São suposições, é quase um conto do Gabriel García Márquez que não para em pé. Quem teve paciência para ler o processo, pelo menos as principais peças, percebe que ali não tem uma narrativa que permitisse um juiz condenar. 

Acho que o Lula, com razão, está aguardando o posicionamento do Supremo sobre a suspeição do Moro. Depois das revelações do The Intercept, tem pelo menos uma dúzia de razões [para declarar a suspeição]. Foi tudo muito meticulosamente construído pelo próprio juiz. Se isso não for razão para declarar a suspeição, eu diria que nenhum juiz vai ser declarado suspeito nunca mais. 

A Lava Jato pecou quando resolveu fazer política. No caso do Lula, isso é patente. Ela resolveu fazer política e aí julgou com base no seu desejo de criminalizar.

Lula candidato em 2022

Gostaria de ver Lula livre e com seus direitos políticos assegurados. É o que todos nós desejamos. Se você perguntar o que eu gostaria, eu disse na campanha de 2018: este país só vai encontrar paz o dia em que o Lula subir a rampa do Planalto. Essa é minha opinião. 

O Lula é um político incomum, reconhecido pelos adversários. Eu, como cidadão, gostaria muito de vê-lo disputar uma eleição.

Papel pós-liberdade de Lula

Em janeiro de 2018, o Lula me convidou para coordenar o programa de governo dele e me sondou para ser o seu ministro da Fazenda. Não sei se esse convite vai se repetir, mas o que quero dizer é que, no momento em que ele imaginava que ia ser candidato com chances de vitória, ele me sondou para coordenar o programa de governo com essa perspectiva.

Sou uma pessoa disciplinada. Se for comparar com um atleta, chego no horário do treino, não falto, faço mais exercício do que o técnico manda. Eu me sinto membro de um time que quer disputar o campeonato para ganhar. 

Se vou ser o artilheiro, o zagueiro, o capitão do time, o técnico, vamos ver, mas pertenço a um time que quer mudar o Brasil para melhor, que quer enfrentar a desigualdade, que quer oferecer oportunidade, que quer ver o Brasil se aproximar das grandes potências, que quer que o Brasil tenha voz no cenário internacional. O Brasil respeitado fora e dentro por cada um dos seus cidadãos. Vou lutar por isso. 

Disparos em massa via WhatsApp

Se o Tribunal Superior Eleitoral quiser investigar, todos os especialistas sabem como fazer o caminho de volta e descobrir se o Bolsonaro usou caixa dois de empresário para fazer os disparos que todo mundo sabe que aconteceram. Foram mais de 1 bilhão de mensagens disseminadas com calúnias, injúrias contra mim, contra a Manuela [D’Ávila] e contra o PT. 

Se o tribunal quiser fazer essa investigação, basta chamar o WhatsApp, que sabe exatamente como tecnicamente tem de fazer para chegar aos responsáveis pelos disparos e saber quem pagou. 

Não estou vendo o ânimo de buscar a verdade. O caminho que eles estão escolhendo é o mais longo e tem um caminho mais curto. Vamos ver se a CPI das fake news consegue acelerar o passo.

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