Descrição de chapéu Lava Jato

'Rodrigo Hilbert da PF', agente vetou cachaça, vaso e até crucifixo para Lula

Jorge Chastalo foi quem mais teve contato com o ex-presidente em seus 580 dias de prisão em Curitiba

São Paulo

Um senhor oriundo de Minas Gerais chegou à recepção da sede da Polícia Federal em Curitiba com uma garrafa de cachaça na mão. Era um presente para o ex-presidente Lula, preso numa cela especial no quarto andar do prédio, de 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019.

Coube ao agente federal Jorge Chastalo Filho, chefe do Núcleo de Operações da PF paranaense, explicar que o agrado estava fora do permitido para um detento ali na superintendência.

“Claro que eu tentei levar na brincadeira, mas o senhor insistiu, dizendo que era uma das melhores pingas de Minas. Com muita paciência consegui convencer o sujeito a levá-la embora”, disse Chastalo.

“Uma fã do Lula mandou para ele um vaso com flores e eu não deixei entrar, por ser de vidro. Outro queria que eu entregasse a ele um crucifixo de ferro. Não dava, a peça era cheia de pontas.”

O agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho escolta o ex-presidente Lula a caminho de entrevista para a Folha
O agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho escolta o ex-presidente Lula a caminho de entrevista para a Folha - Marlene Bergamo /Folhapress

Foi Chastalo quem controlou por mais de um ano e meio a vida do ex-presidente da República. Todos os dias, às 8h em ponto, ele abria a porta da cela especial de Lula. Às 17h, trancava o petista novamente.

O local tinha 15 metros quadrados, com banheiro, e ficava isolado no último andar do prédio. Ele não teve contato com outros presos, que ficavam na carceragem, no primeiro andar.

Chastalo comandava os oito carcereiros que se revezaram de guarda, de dois em dois, em frente à porta da cela de Lula. Os agentes cumpriam turnos de 24 horas de trabalho por 72 horas de folga.

A convivência entre Chastalo e Lula está descrita no livro A Elite na Cadeia – O dia a dia dos presos da Lava Jato, do jornalista Wálter Nunes, repórter da Folha. A obra, da editora Objetiva e que chega às livrarias no próximo dia 22, retrata o cotidiano na prisão dos principais alvos da maior operação de combate à corrupção do país.

Os casos se passam nas carceragens da Polícia Federal, em Curitiba, e no Complexo Médico Penal, em Pinhais, presídio estadual do Paraná onde os presos do Petrolão cumprem pena.

Por 280 páginas, o livro relata episódios envolvendo o ex-presidente Lula, o empreiteiro Marcelo Odebrecht, o ex-ministro Antonio Palocci, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, o ex-governador Beto Richa e outros personagens célebres presos pela Polícia Federal.

 

Chastalo foi o primeiro policial a saber sobre a morte de Arthur, 7, neto de Lula. Estava em uma escolta de presos e, por rádio, ordenou ao agente federal que vigiava a cela do ex-presidente para retirá-lo rapidamente de lá para que ele não soubesse da tragédia familiar pela TV.

Os advogados de Lula o definem como um sujeito decente. Os policiais que não demonstram nenhum tipo de simpatia pelo petista também dizem que Chastalo sempre foi correto no trato com o prisioneiro.

Para manter a distância com o vigiado, o policial resolveu que a equipe que montava guarda na frente da cela de Lula fosse trocada a cada 30 dias, sempre com policiais de fora de Curitiba.

A medida aconteceu depois que recebeu críticas por causa da atuação de um agente chamado Paulo Rocha, o Paulão, que não esconde dos colegas a afinidade com o ideal de esquerda. Chastalo então retirou Paulão das proximidades de Lula.

De vez em quando, o policial levava frutas do pomar da chácara da sua mãe para o ex-presidente, que em tom de piada diz que preferia uma cervejinha. Por outro lado, era ele quem impedia que advogados entregassem para Lula refeições fora do padrão e controlava rigorosamente o entra e sai das visitas dos familiares e advogados.

Chastalo diz ter tomado uma série de precauções para que não fosse acusado nem de ser abusivo contra Lula nem ameno demais no trato com o ex-presidente.

O agente se formou em direito, mas queria mesmo era ser policial federal. Estudou até passar no concurso, fez uma carreira discreta até ficar famoso em 2017, quando Lula ainda não havia sido preso.

Apareceu escoltando o petista quando ele foi depor pela primeira vez para o então juiz Sergio Moro no caso do tríplex de Guarujá, antes da prisão. O agente chamou a atenção pela aparência.

As fotos em que aparecia ao lado do ex-presidente foram inundadas de comentários. Comparam-no com o modelo e apresentador Rodrigo Hilbert. A fama de galã se espalhou, e ele ganhou os apelidos de “policial gato” e “Rodrigo Hilbert da Federal”.

Ao contrário de outros colegas que surfaram na onda de celebridade repentina, Chastalo evitou aparecer. Mas bastava Lula dar uma entrevista, seja para um órgão de imprensa nacional ou estrangeiro, para estar lá estampada a foto de Chastalo ao lado do então preso mais famoso da Lava Jato.

Lula é escoltado pelo policial federal Jorge Chastalo até o carro que o levaria para o prédio da Justiça Federal, em Curitiba
Lula é escoltado pelo policial federal Jorge Chastalo até o carro que o levaria para o prédio da Justiça Federal, em Curitiba - Theo Marques - 10.mai.2017/UOL

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