Sem Flávio e Carlos, Eduardo se consolida como herdeiro político de Bolsonaro

Depois de fracasso da indicação à embaixada nos EUA, filho está à frente de novo partido do pai

São Paulo

A criação da Aliança pelo Brasil consolida o movimento do presidente Jair Bolsonaro para ungir publicamente o filho Eduardo como principal herdeiro político.

A Aliança foi anunciada nesta semana como partido de sustentação do bolsonarismo.
Hoje deputado pelo PSL-SP, Eduardo já havia sido colocado em destaque pela tentativa do pai de indicá-lo embaixador do Brasil em Washington.

A ideia foi bombardeada por críticos que viam falta de predicados a Eduardo, que, segundo o pai, mereceria tal “filé-mignon”. Bolsonaro aproveitou a crise com o PSL para abortar a ideia, e o filho virou líder do partido na Câmara.

Jair e Eduardo Bolsonaro durante audiência, em agosto
Jair e Eduardo Bolsonaro durante audiência, em agosto - Marcos Corrêa - 28.ago.19/Presidência da República

Como o movimento para tomar o poder na sigla que o elegeu em 2018 fracassou, o presidente decidiu então que deixaria o PSL, e Eduardo seria figura de proa pública do processo, propagandeando os princípios da nova sigla e assumindo sua comunicação virtual. Foi ele quem divulgou o logotipo da agremiação.

O presidente Bolsonaro se preparou para a empreitada de fundar um partido.

Contratou Admar Gonzaga, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral que logrou registrar o PSD, partido criado do nada por Gilberto Kassab em 2011, em meros 193 dias. Geralmente, ter uma sigla viável é processo de dois a três anos.

A janela do presidente para poder ver candidatos a prefeito e vereador pela Aliança em 2020 é muito estreita: faltam hoje menos de 145 dias para o limite do registro do partido.

Se bater esse recorde, ainda assim há problemas de ordem técnica, por assim dizer. Com a conflagração, é provável que o PSL peça o mandato de deputados que migrarem para a Aliança, Eduardo naturalmente incluído.

A sigla tem esse direito legal, mas o acirramento do conflito pode ao fim dar a justificativa de perseguição para os interessados em deixar a agremiação liderada por Luciano Bivar. Mas é algo incerto e, salvo alguma acomodação, certamente contencioso.

O nome de outro filho presidencial, o senador Flávio (RJ), surge como opção para manter a família à frente do projeto personalista da Aliança, que em manifesto de fundação define a sigla como “o sonho e a inspiração de pessoas leais ao presidente Jair Bolsonaro”.

Apesar da toxicidade associada a seu nome, devido às investigações que ligam seu gabinete de deputado estadual no Rio a milicianos, Flávio já apresentou seu pedido de desfiliação do PSL na sequência do anúncio do novo partido.

Ainda assim, é Eduardo o nome à frente da Aliança. O deputado já é o principal articulador do chamado grupo ideológico do governo, orientado pelas ideias do escritor Olavo de Carvalho, e é considerado um “chanceler sombra” do titular, o igualmente olavista Ernesto Araújo.

O resto é especulação. Ele poderia ser candidato a presidente em 2026, na hipótese de o pai ser reeleito em 2022 e a ideia de um clã no poder virar uma realidade —ao estilo da família Bush, nos EUA.

A evidência dada ao filho mais novo de Bolsonaro na política contrasta, por sua vez, com o momento do herdeiro 02, o vereador Carlos (PSC-RJ).

Chefe da comunicação digital que o presidente credita como o motivo de sua vitória e gestor das contas em redes sociais do pai, ele abandonou o mundo virtual. Segundo disse, o fez “para dar um tempo”. 

Foi apoiado por Eduardo, para quem Carlos deveria ser reverenciado pela capacidade de antecipar a presença de traidores no entorno do pai.

A decisão pegou de surpresa aliados no Planalto. Carlos esteve à frente dos principais contenciosos do ano, representando a face mais estridente do bolsonarismo radical.

Eduardo tem tomado algo desse protagonismo também, como na polêmica de sua defesa de um “AI-5” renovado.

De acordo com duas pessoas com acesso à família, a principal especulação acerca da submersão de Carlos tem a ver com o adensamento das investigações sobre as práticas de seu gabinete no Rio.

Segundo as informações disponíveis, há vários pontos investigados em comum com os apontados contra o irmão Flávio.

Não há informação sobre isso porque os inquéritos estão sob segredo de Justiça, e Carlos não comenta o caso.

Sua relação com o pai sempre foi intensa. Eles ficaram anos rompidos após Bolsonaro obrigá-lo a disputar uma vaga de vereador só para evitar que sua mãe usasse o sobrenome do ex-marido na disputa.

Depois, virou o dono da palavra final em discussões sobre a comunicação do então candidato. Na posse, posou de guarda-costas no Rolls-Royce presidencial, por temer mais um atentado contra o pai.

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