Justiça tenta há 2 anos citar José de Abreu em ação por comparar Bia Doria a animal

Ator, que mencionou primeira-dama em post sobre vaquejada, está 'em local incerto e não sabido', segundo juiz

São Paulo

José de Abreu avisou a seus seguidores nesta semana que estava a caminho de Paris, depois de passar por Holanda, Suécia e Dinamarca.

Para o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), no entanto, o ator "se encontra em local incerto e não sabido".

Desde outubro de 2017, quando a então primeira-dama da capital paulista, Bia Doria —hoje primeira-dama do estado—, entrou com uma ação contra ele, a Justiça nunca conseguiu citá-lo para responder ao processo.

A primeira-dama do estado de São Paulo, Bia Doria; ao lado, o ator José de Abreu
A primeira-dama do estado de São Paulo, Bia Doria; ao lado, o ator José de Abreu - Greg Salibian/Folhapress e Paulo Belotte/TV Globo

A mulher do governador João Doria (PSDB), que na época ainda era prefeito de São Paulo, acionou Abreu judicialmente, pedindo R$ 100 mil de indenização por dano moral.

Ela alegou que o ator da TV Globo, que é apoiador do PT e detrator do tucano, ofendeu "sua honra e reputação ao compará-la a um animal".

Em 9 de outubro de 2016, um ano antes de Bia entrar com o processo, ele escreveu no Twitter: "STF proíbe vaquejada mas permite que a Bia Doria dê entrevista? é um crime contra os animais...".

Naquele dia, a Folha havia publicado entrevista com ela sobre a eleição de Doria para a prefeitura. A repercussão foi catastrófica, a ponto de Bia ser, desde então, blindada de contato com a imprensa.

Em um dos trechos da entrevista, destacado por Abreu em outro tuíte, a artista plástica dizia se orgulhar de ter transformado a vida dos assistentes de seu ateliê.

"Todos moravam em barracos e nem tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes para eles, dei um plano de saúde bom", afirmou.

O ator, na rede social, enfatizou: "Bia Doria deu dentes para seus empregados".

Mas o problema mesmo foi a postagem que associou o nome dela à liberação, pelo STF (Supremo Tribunal Federal), da vaquejada —corrida entre dois vaqueiros montados a cavalo que têm o objetivo de derrubar um boi.

"Para um cidadão médio, ao ler o termo vaquejada, no seu sentido literal, inconscientemente e imediatamente é remetido ao termo 'vaca'", escreveram os advogados de Bia.

A artista afirmou que se sentiu ofendida e pediu à Justiça que o Twitter fosse obrigado a apagar o post, no que foi atendida.

Começou, então, a saga para intimar o ator, que até hoje não tem advogado constituído para representá-lo na causa.

Como ele mora no Rio de Janeiro e o processo corre em São Paulo, a praxe é o tribunal do estado de origem expedir uma carta precatória para a outra jurisdição localizar a parte.

Em julho de 2018, a Justiça autorizou buscas sobre os endereços de Abreu em dois sistemas, um que rastreia dados da Receita Federal e outro que faz cruzamento com registros do Departamento Nacional de Trânsito.

O ator foi procurado por oficiais de Justiça nos locais relacionados a seu nome, mas não foi encontrado.

Em outra tentativa, foram enviadas correspondências a quatro operadoras telefônicas com a solicitação de compartilhamento de endereços ligados a Abreu. Sem sucesso.

A Globo, onde ele trabalha, também foi acionada para fornecer o endereço de seu funcionário. A emissora atendeu à demanda e compartilhou a informação, mas no local apontado a resposta foi: "Mudou-se".

Em maio deste ano, Abreu entrou no ar na novela das nove "A Dona do Pedaço". Em 13 de novembro, o juiz despachou: "O réu é ator conhecido e atualmente está no elenco da novela da Globo. Portanto, a citação pode se dar no local das gravações". Só que a trama acabou nove dias depois, sem que o ator fosse contatado.

Encerrado o trabalho, Abreu tirou férias. Como contou na rede social, está viajando pelo mundo e acaba de desembarcar na capital francesa, onde comprou em 2014 um apartamento, hoje alugado.

Na decisão mais recente da ação aberta por Bia, o magistrado Douglas Iecco Ravacci decidiu na terça-feira (10) que a citação poderá ser feita por edital, "tendo em vista que restam exauridos todos os meios disponíveis para localização do requerido".

À Folha Abreu diz estranhar que a Justiça não consiga achá-lo, já que gravou duas novelas na Globo desde o início do processo. "O que eu vou fazer? Isso não é problema meu. Eu não sei [o que aconteceu]."

Ele afirma que desistiu de manter casa no Rio "há uns cinco anos" e, desde então, mora em locais alugados via Airbnb. "Eu não tenho endereço fixo. Não moro em lugar nenhum. Eu moro onde me dá na telha."

Abreu diz ainda que seu post sobre a mulher de Doria era uma piada e que, se for preciso, está disposto a ir até o STF (Supremo Tribunal Federal) para garantir seu direito à liberdade de expressão.

"Sou um comediante, eu faço piada. Eu tenho direito de me expressar. Não vou perder uma piada por medo de processo. Esses caras estão malucos."

Nessa toada, ironiza: "Eu devo ter uma importância jurídica imensa, né? Para o cara [juiz] mandar me citar por edital".

"A Justiça tem mais o que fazer do que ficar perseguindo ator. Não sei que prejuízo moral eu dei à dona Bia Doria. Eu não vou parar de falar."

"Vejam até onde vai a covardia do Zé de Abreu", publicou Doria em sua conta no Twitter neste sábado (14) sobre não conseguirem localizar o ator.

"Um notório ativista da esquerda e defensor do Lula. Que desrespeita mulheres, cospe na cara das pessoas e, após condenado, foge covardemente da justiça", escreveu o governador.

José de Abreu respondeu ao tweet de Doria. "O governador é tão covarde que nao cita minha @. A cara mostra o caráter", escreveu em seu perfil na rede social.

Para o advogado de Bia no caso, Jacomo Andreucci Filho, o ator "não atualiza seus endereços nos cadastros justamente para ocultar-se de citações".

Abreu contesta a fala e diz que seus dados estão em dia na Globo, no banco onde tem conta e na Receita Federal.

Andreucci afirma que tanto a defesa da primeira-dama quanto a "de todos aqueles que são injustamente ofendidos" pelo ator esperam que o processo termine em condenação.

"Que faça a retratação pelo mesmos meios utilizados para realizar as ofensas e também que seja condenado ao pagamento dos danos morais requeridos", diz o advogado.

A primeira-dama, que é presidente do conselho do Fundo Social de São Paulo (braço do governo para programas sociais), pretende doar o dinheiro da indenização, caso vença a causa.

Segundo seu defensor, os recursos iriam para as Obras Sociais Irmã Dulce. Procurada via assessoria de imprensa, Bia não quis se pronunciar sobre o caso.

Em outro conflito, Abreu foi condenado em julho a pagar R$ 20 mil de indenização ao hospital Albert Einstein por ter escrito no Twitter que a instituição apoiou o atentado a faca contra o hoje presidente Jair Bolsonaro.

O ator criou uma vaquinha virtual e arrecadou o valor em menos de 24 horas. Nesse processo, ele foi formalmente citado e apresentou defesa.

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