Ex-companheira de testemunha que mentiu na CPI o acusou de ameaça de morte

Em depoimento à polícia, Hans River negou; a vítima reiterou a denúncia em novembro de 2019

São Paulo

Hans River do Nascimento, testemunha que deu declarações falsas à CPMI das Fake News e afirmou que uma repórter da Folha se insinuou sexualmente a ele, foi acusado de ameaças de morte pela mãe de sua filha de 8 anos.

Em boletim de ocorrência registrado em 30 de novembro de 2018, a mulher relatou que teve um relacionamento de 16 anos com Hans, que os dois têm uma filha e que ele vinha a ameaçando de morte.

Segundo relato que consta do relatório de investigação, “Hans ameaçou-a dizendo que tinha vontade de estrangulá-la” e, depois disso, ela não teve mais autorização para entrar na casa dele.

De acordo com o relatório da polícia, registrado no 91º Distrito Policial da Ceagesp, em São Paulo, Hans afirmou: “Não é verdade que tenha ameaçado A., pois pouco a vê. A. sequer cumpre determinação judicial com relação a visitas de sua filha e quando leva sua filha até sua casa logo em seguida aciona a Polícia Militar acusando-o de estar sem autorização com sua filha”.

Ex-funcionário de empresa de disparos em massa, Hans Nascimento (à dir.) presta depoimento nesta terça (11) na CPMI das Fake News
Ex-funcionário de empresa de disparos em massa, Hans Nascimento (à dir.) presta depoimento nesta terça (11) na CPMI das Fake News - Jane de Araújo/Agência Senado

Ainda segundo a investigação policial, Hans teria dito que a ex-mulher estaria tentando prejudicá-lo por saber que ele estava em outro relacionamento. 

O promotor de Justiça Marcelo Otávio Médici afirmou, em sua manifestação durante o inquérito, que “diante do relato da vítima, parece que os fatos possuem contornos de violência de gênero” e “razão pela qual requeiro a remessa destes autos à Vara regional de Violência Doméstica”.

Em depoimento que a vítima deu em 26 de novembro de 2019, um ano depois da primeira acusação, ela “ratifica o teor das declarações anteriores”.

Hans River do Rio Nascimento trabalhou para a Yacows, empresa especializada em marketing digital, durante a campanha eleitoral de 2018. Ele foi convocado pelo deputado Rui Falcão (PT-SP) a prestar depoimento na comissão parlamentar mista de inquérito que investiga a disseminação de notícias falsas no pleito.

Em dezembro daquele ano, reportagem da Folha, baseada em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos de Hans, mostrou que uma rede de empresas, entre elas a Yacows, recorreu ao uso fraudulento de nome e CPF de idosos para registrar chips de celular e garantir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

Na ocasião, a Folha falou diversas vezes com Hans, que também era autor da ação trabalhista. Nas primeiras conversas, ocorridas a partir de 19 de novembro e gravadas, ele disse que não sabia quais campanhas se valeram da fraude, mas reafirmou o conteúdo dos autos e respondeu a perguntas feitas pela reportagem.

No dia 25, ele mudou de ideia após fazer acordo com a antiga empregadora, o que foi registrado no processo no dia 27. "Pensei melhor, estou pedindo pra você retirar tudo que falei até agora, não contem mais comigo", disse, em mensagem de texto à reportagem. Dias antes, a Folha havia procurado a Yacows para solicitar esclarecimentos sobre o caso.

Hans foi convocado pelo deputado Rui Falcão (PT-SP) a prestar depoimento na comissão parlamentar mista de inquérito do Congresso, formada por deputados e senadores, que investiga a disseminação de notícias falsas na eleição.

Depoimento

Nesta terça, ele deu informações falsas à CPI e insultou Patrícia Campos Mello, uma das autoras da reportagem sobre o uso fraudulento de nomes e CPFs para permitir o disparo de mensagens.

"Quando eu cheguei na Folha de S.Paulo, quando ela [repórter] escutou a negativa, o distrato que eu dei e deixei claro que não fazia parte do meu interesse, a pessoa querer um determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção, que a minha intenção era ser ouvido a respeito do meu livro, entendeu?", disse Hans no Congresso.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, aproveitou a fala de Hans para difundir ofensas e fazer insinuações contra a repórter da Folha, tanto no Congresso como em suas redes sociais. 

"Eu não duvido que a senhora Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente, como disse o senhor Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, é o que a Dilma Rousseff falava: fazer o diabo pelo poder", afirmou Eduardo.

O Código Penal estipula que fazer afirmação falsa como testemunha em processo judicial ou inquérito é crime, com pena prevista de dois a quatro anos de reclusão, além de multa. Na condição de testemunha, Hans se comprometeu em falar a verdade à comissão. O regimento do Senado diz que a inquirição de testemunhas em CPIs segue o estabelecido na legislação processual penal.

"Acusar alguém quando esse alguém não está presente não é um ato de coragem, é um ato de covardia", afirmou o senador Angelo Coronel (PSD-BA), presidente da CPMI das Fake News, após as declarações de Hans.

"Comprovando que houve mentira, nós podemos indicar o seu indiciamento, uma abertura de inquérito, porque mentira numa CPMI é crime. Ele teve diversas incoerências", disse Lídice da Mata (PSB-BA), relatora da CPMI das Fake News.

Em nota, a Folha rebateu os ataques a seu jornalismo na CPMI das Fake News. 

“A Folha repudia as mentiras e os insultos direcionados à jornalista Patrícia Campos Mello na chamada CPMI das Fake News. O jornal está publicando documentos que mais uma vez comprovam a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais na campanha de 2018. Causam estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)." ​

"A ilação de que a jornalista teria sugerido a troca de matéria por sexo causa danos a ela, não apenas porque se trataria de um desvio de natureza ética da profissão como também por atingir sua condição feminina", disse Taís Gasparian, advogada da Folha. "Na medida em que provoca danos, cabe a reparação."

Em nota, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) criticou Eduardo Bolsonaro. "É assustador que um agente público use seu canal de comunicação para atacar jornalistas cujas reportagens trazem informações que o desagradam, sobretudo apelando ao machismo e à misoginia."

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