Mobilização por dia 15 encolhe em rede social mesmo após fala de Bolsonaro, aponta consultoria

Maia foi político mais atacado pelos usuários do Twitter analisados; grupo tem cerca de 6% de robôs

São Paulo

A despeito de falas de apoio do presidente Jair Bolsonaro aos atos em sua defesa no próximo domingo (15), a atividade no Twitter relacionada às manifestações caiu —e não engata desde 28 de fevereiro.

Os protestos, que estão sendo convocados por grupos críticos à atuação do Congresso, têm na rede um outro tipo de simpatizante: os robôs, que podem representar cerca de 6% dos usuários que tuitaram apoiando a manifestação.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), personifica essa rejeição ao Poder Legislativo e é a figura pública que mais vem sofrendo ataques na rede.

Os dados são fruto de monitoramento feito pela consultoria Quaest, que acompanhou a atividade na rede do dia 24 de fevereiro ao dia 9 de março.

A empresa analisou postagens que mencionavam #Dia15PeloBrasil, #Dia15BrasilNasRuas, #15DeMarcoEuVou ou #Dia15PorBolsonaro. As hashtags são um recurso que organiza assuntos e campanhas no Twitter e são usadas livremente pelo usuários em suas publicações. A amostra foi de 256.267 tuítes.

De 24 a 27 de fevereiro, a atividade na rede vinha em franca ascensão. O pico (momento no qual os tweets sobre os atos geraram mais reações positivas e republicações) foi no dia 27, quando Bolsonaro cobrou votações do Congresso em sua live semanal.

Para medir a atividade na rede social, a Quaest criou um índice de 0 a 100, em que 100 indica o momento em que os tuítes sobre as manifestações geraram mais reações positivas e retuítes. No dia 27, o nível registrado foi de 98,8.

A análise começa um dia antes de quando veio à tona que Bolsonaro compartilhou vídeos pelo WhatsApp que incitavam a população a ir às ruas para defendê-lo. As convocações para os atos ganharam força nas redes em meio à disputa entre Legislativo e Executivo por R$ 30 bilhões do Orçamento.

No dia 26, o presidente da Câmara pediu respeito às instituições. Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), não comentou o fato publicamente.

Com isso, #MaiaGolpista e #MaiaVaiSerPreso passam a ser algumas das hashtags mais utilizadas pelos usuários até o dia 1º de março, e a conta do deputado, a segunda mais mencionada.

O dia 28, quando o índice da Quaest começa a apresentar queda —atinge 37,9—, foi aquele em que Alcolumbre marcou a sessão que discutiria os vetos de Bolsonaro ao Orçamento impositivo.

Dentre os atacados, teve destaque também a menção a Vera Magalhães, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura.

Responsável pela revelação de que o presidente havia compartilhado os vídeos pelo WhatsApp, a jornalista entrou na rota dos apoiadores de Bolsonaro com a hashtag #VeraFakeNews, a décima mais utilizada ao longo de todo o período. Sua conta foi a terceira mais mencionada.

No dia 7 de março, Bolsonaro faz mais uma aposta: em Boa Vista, diante de uma plateia de 400 autoridades e simpatizantes, convocou a população aos atos, sem meias palavras.

“É um movimento espontâneo, e o político que tem medo de movimento de rua não serve para ser político”, afirmou. “Então participem, não é um movimento contra o Congresso, contra o Judiciário. É um movimento pró-Brasil."

O chamado não animou bolsonaristas, que já amargavam oito dias patinando na rede. No sábado, o índice da Quaest sobre as manifestações bateu 6,5 —valor muito menor que os 98,8 registrados no dia 27.

Desde então, a atividade do usuários no Twitter vem caindo. Na segunda (9), registrou 3,2.

O coordenador da pesquisa, Felipe Nunes, tem uma hipótese para o encalhe do engajamento: o aceno de Bolsonaro ao Congresso para negociar o Orçamento pode ter minado o apoio. "A negociação que ele fez, na minha avaliação, fragilizou o presidente em relação à sua base porque mostrou um certo descompasso", afirma.

Bolsonaro dá sinais de que sabe disso. “Não houve qualquer negociação em cima dos R$ 30 bilhões", afirmou ele em suas redes sociais no dia 3 de março, ainda que naquele mesmo dia o governo tivesse enviado ao Congresso projetos de lei com proposta de divisão das verbas.

De acordo com o levantamento, cerca de 1% das contas analisadas é de robôs, e 5% são prováveis robôs. Entre suas características estão o baixo número de seguidores, a recente data de criação e o uso intensivo de hashtags.

O número pode parecer baixo, mas Nunes explica que a automatização não insufla a atividade por si só. "Esse número pode parecer pequeno porque nós usamos um critério muito estrito. Esses robôs são fundamentais porque funcionam como um empurrão", afirma.

Os resultados obtidos pela Quaest, contudo, não são suficientes para prever o tamanho dos atos do dia 15.

"Pode ser que essa mobilização esteja sendo feita por meio do WhatsApp, por exemplo. Mas o indicativo que a gente tem é de que a mobilização no Twitter é muito menor do que já foi", afirma o cientista político.

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