'Radicalismo expõe pessoas a risco de saúde', diz governador do DF sobre protestos

Ibaneis Rocha (MDB) afirma que não se deve politizar crise do coronavírus e estuda novas medidas

Brasília

​O governador do Distrito Federal, ​Ibaneis Rocha (MDB), disse que o “radicalismo político” fez com que muitas pessoas se expusessem a um risco de saúde nas manifestações do último domingo (15) a favor do governo Jair Bolsonaro, em meio ao alastramento do coronavírus.

“Esse radicalismo está chegando ao ponto de as pessoas não entenderem que estão se expondo até num momento de crise como essa”, afirmou o governador à Folha, que disse ainda temer a criação de um ambiente para o retorno de uma ditadura no país.

O governador não responsabilizou Bolsonaro pelos atos, embora o presidente tenha participado do protesto realizado em Brasília e minimizado a gravidade da crise.

“O que eu tenho notado é que as atitudes do Ministério da Saúde têm se contraposto àquilo que o presidente tem dito. Mas não é hora de politizar, o assunto é de saúde pública coletiva”, disse.

Governador de uma das primeiras unidades da federação a adotar medidas restritivas diante das crise, como a suspensão de aulas em escolas, Ibaneis disse que ampliará essas ações caso haja avanço na transmissão do vírus e afirmou que outros estados devem adotar regras semelhantes.

Ibaneis Rocha, que governa o Distrito Federal
Ibaneis Rocha, que governa o Distrito Federal - Pedro Ladeira - 18.out.18/Folhapress

Houve algumas críticas, em um primeiro momento, às medidas restritivas adotadas pelo governo do Distrito Federal, como o fechamento das escolas. Como avalia essas reações?
Brasília é totalmente diferenciada da grande maioria dos outros estados da federação. Eu tenho o Congresso Nacional, tenho 180 organismos internacionais, onde as pessoas viajam pelo mundo. Tenho um padrão econômico diferenciado, então a grande maioria das pessoas estava viajando pela Europa e pelos EUA no Carnaval.

Quando eu vi a decretação da pandemia, decidi que era hora de tomar uma medida um pouco mais drástica, até para alertar a população de que a situação se agravaria. Eu busquei protocolos que deram certo. E os que deram mais certo foram exatamente Singapura e Hong Kong, onde tomaram medidas mais drásticas logo no início.

O governo estuda ampliar essas medidas, como o fechamento de bares, restaurantes e do comércio?
Eu tenho tudo em estudo, tanto para diminuir quanto para ampliar. Eu só penso em ampliar as medidas caso haja o contágio sustentado, sem que seja de pessoas que tenham vindo do exterior. Se eu tiver o contágio sustentado aqui, aí eu penso em ampliar, porque nós passamos a ter um risco de contaminação em todos os ambientes.

É hora de estudar também a suspensão de trabalho em prédios públicos, inclusive federais?
Eu acho que é hora de se avaliar, não é nenhum momento para susto. Eu não suspendi o trabalho dentro do Distrito Federal. Em alguns órgãos que têm mais acesso de pessoas, eu restringi um pouco o acesso e aumentei o espaçamento do atendimento. No âmbito federal, eu busquei junto aos tribunais superiores uma determinada interlocução para restringir ao máximo audiências e sessões, porque eles atendem todo um público que vem de fora de Brasília. Os ministros estão tomando essas posições.

Há um contraste entre as medidas tomadas no Distrito Federal e declarações do presidente sobre um tratamento exagerado da pandemia. Como o sr. avalia a atuação do presidente?
Prefiro não politizar o assunto. É um assunto de saúde pública. Agora é o momento de se preocupar com o que está acontecendo no cenário mundial. Tenho uma boa parceria com o presidente Bolsonaro, espero muito que o que ele está dizendo seja realidade. O que eu tenho notado é que as atitudes do Ministério da Saúde têm se contraposto àquilo que o presidente tem dito. Temos que tratar isso com muita responsabilidade porque isso vai recair exatamente na rede hospitalar nossa, dos estados. Se eu tiver uma crise em relação ao um vírus desse, é botar a mão na cabeça pra saber como nós vamos cuidar.

O presidente participou e estimulou as manifestações de domingo em Brasília, apesar da recomendação contrária do Ministério da Saúde. Isso amplia um risco sanitário?
Vamos passar muito tempo para entender que esse radicalismo político tem trazido muito mal para a sociedade. Esse radicalismo está chegando ao ponto de as pessoas não entenderem que estão se expondo num momento de uma crise como essa.

Está muito complicado conviver nesse cenário político, a ponto de as pessoas preferirem se expor a um risco de saúde do que atender a um pedido dessa natureza. É uma situação bastante complicada, nós temos que ter ainda uma observação muito grande do que está acontecendo nesse país. Eu tenho minhas teorias de onde se quer chegar com isso, mas eu espero que elas não venham a se confirmar.

Quais são elas?
Eu tenho muito medo do risco de uma ditadura novamente.

Alguns governadores falam sobre riscos autoritários e sobre os ataques do presidente às instituições. É essa sua preocupação?
Eu me preocupo, realmente, porque quando você tem 40% das pessoas que apoiam um governo militar, é muito preocupante. Não que eu tenha algo contra os militares, mas eu acho que foi tão difícil se chegar à democracia... Eu, que fui presidente de OAB, a gente tem um histórico de luta pela democracia, pela liberdade de imprensa. Eu tenho uma preocupação muito grande com esse radicalismo. Eu fico observando a cena daqui, pedindo a Deus que a política caminhe pelo rumo da política e que a gente possa se entender.

O presidente alimenta esse radicalismo?
Eu não tenho essa postura em relação ao presidente. Eu acho que ele é um político que passou a vida toda sendo antipolítico, desde quando deputado federal e agora como presidente. Ele alimenta isso a todo momento, ele é um político que luta para ser antipolítico. Ele sempre está remando contra a política, é a roupagem que ele tem. Cada um tem o direito de ter a sua, e nós temos que nos respeitar.

Que perspectiva o sr. tem sobre o avanço do coronavírus e a preparação dos órgãos públicos?
Nós vamos ter um avanço do coronavírus nos próximos 10 a 15 dias, não tenha dúvida disso. Devemos chegar a 1.000 a 1.500 casos no Brasil, é o que apontam os especialistas. Se soubermos aplicar medidas de contenção, como vejo na maioria dos estados, até a segunda quinzena de maio nós devemos ter o controle, se todos aplicarem as medidas sanitárias que precisam ser aplicadas, mesmo que isso tenha algum tipo de dificuldade.

O governo federal já apontou medidas como o adiamento de pagamento de tributos federais. Os estados têm condições de tomar atitudes em relação às empresas?
Nós estamos fazendo isso. Soltamos um pacote com todo o setor produtivo, liberando linhas de crédito no valor de R$ 1 bilhão. Estamos estudando a prorrogação de alguns impostos, como o IPTU, que impacta o orçamento das empresas, e estamos avaliando outras medidas em parceria. Estou criando um comitê econômico para estar em contato permanente com as empresas e tomar medidas para minimizar esse impacto.

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