Bolsonaro provoca nova aglomeração, evita ataque a Poderes e fala em resgate de valores

Em meio a crise política, presidente vai à rampa do Planalto com ministros e filhos Eduardo e Carlos para saudar manifestantes

Em foto de drone, o presidente Jair Bolsonaro, ao lado de vários ministros, acena para apoiadores na rampa do Palácio do Planalto Pedro Ladeira/Folhapress

Brasília

Ao voltar a participar neste domingo (17) de um ato com aglomeração em meio ao coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que o governo federal “tem dado todo o apoio” para atender doentes da Covid-19 e que o país sairá mais forte após essa pandemia.​

Antes da chegada de Bolsonaro ao protesto, seguranças da Presidência pediram aos manifestantes a retirada de faixas contra o Congresso e o STF (Supremo Tribunal Federal). Uma delas chamava os dois órgãos de “sabotadores” e pedia uma nova Constituição.

“Manifestação pura da democracia. Estou muito honrado com isso. O governo federal tem dado todo o apoio para atender as pessoas que contraíram o vírus e esperamos brevemente ficar livre dessa questão, para o bem de todos nós. O Brasil, tenho certeza, certeza, voltará mais forte”, declarou Bolsonaro.

Num aceno ao Congresso, alvo de ataques em atos anteriores, Bolsonaro falou em proporcionar “dias melhores para a nossa população, em especial pelos poderes Legislativo e Executivo”.

Ele não citou, contudo, o Judiciário, que tem barrado algumas de suas medidas. O STF (Supremo Tribunal Federal) impediu a nomeação de Alexandre Ramagem, chefe da Agência Brasileira de Inteligência, para a direção-geral da Polícia Federal —Ramagem é próximo à família Bolsonaro.

Outro ponto de atrito com a corte é o inquérito que visa apurar se Bolsonaro tentou interferir indevidamente na PF. Ele foi autorizado pelo ministro Celso de Mello, após o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, romper com o governo fazendo acusações de ingerência na corporação.

Nas últimas semanas, após sucessivos episódios de embate, Bolsonaro tem buscado uma aproximação com o centrão — grupo de partidos que tem maioria na Câmara — para formar uma base de apoio na Casa e evitar derrotas em projetos de seu interesse, além do avanço de um eventual processo de impeachment.

Esse movimento envolve o loteamento de cargos no governo federal e em estatais.

Bolsonaro atraiu para a sua base o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, um dos condenados no esquema do mensalão.

Na sexta (15), o presidente reconduziu para o conselho de Itaipu Binacional o ex-ministro Carlos Marun (MDB), um dos principais aliados do ex-presidente Michel Temer (MDB) e, quando deputado, integrante da tropa de choque do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB), condenado por corrupção na Lava Jato.

Também foi reconduzido aso colegiado o ex-deputado José Carlos Aleluia (DEM) —antigo cacique do partido e aliado próximo do prefeito de Salvador, ACM Neto.

As tratativas com o centrão também envolveram a nomeação de de Fernando Marcondes de Araújo Leão como diretor-geral do Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas). O padrinho da indicação foi o deputado federal Sebastião Oliveira (PL-PE), alvo, no último dia 8, de uma operação da Polícia Federal contra desvio de recursos em obras na BR-101.

Bolsonaro também fez gesto de reconciliação com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), após estimular protestos contra o deputado e sugerir que ele lhe tramava um golpe.

Na quinta (14), horas depois de acusar o congressista de querer ferrar o governo por entregar relatorias de projetos do Executivo à oposição, Bolsonaro “se reuniu com ele no Planalto. “Voltamos a namorar. Está tudo bem com o Rodrigo Maia", disse, na ocasião.

“Queremos fazer um Brasil melhor para todos, agradeço a esse povo maravilhoso que está aqui, ao qual devo lealdade absoluta. É aquele que deve ditar as nossas normas e nosso norte. É o que precisamos: política ao lado do povo, tendo o povo como patrão”, afirmou o presidente na manifestação deste domingo.

Em meio a uma crise política, o mandatário foi à rampa do Palácio do Planalto, juntamente com ministros e ao menos dois de seus filhos —o deputado Eduardo e o vereador Carlos— para saudar os manifestantes.

Estavam com Bolsonaro os ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Tereza Cristina (Agricultura), Onyx Lorenzoni (Cidadania), Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União), André Mendonça (Justiça) e Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia).

Bolsonaro baixou a máscara para falar em um momento, pegou bebês no colo e levantou as mãos de ministros, descumprindo recomendações de distanciamento social.

Em vários momentos da manifestação, os participantes entoavam música exaltando a cloroquina, medicamento que o presidente defende com o panaceia na pandemia, mas sem comprovação de eficácia contra a Covid-19.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem minimizado o impacto do coronavírus e se colocado contra medidas de distanciamento social, atitude que culminou na demissão de dois ministros da Saúde no intervalo de um mês, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Apesar de dizer lamentar as mortes, o presidente tem dado declarações às vezes em caráter irônico quando questionado sobre as perdas humanas com a Covid-19. Como na ocasião em que afirmou não ser coveiro ou quando disse: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre."

Antes de descer para cumprimentar o público, ele declarou que, desta vez, não há “nenhuma faixa, nenhuma bandeira que atente contra a Constituição, contra o Estado Democrático de Direito”. Protestos anteriores, investigados pela PGR (Procuradoria-Geral da República), tinham pleitos antidemocráticos, como um golpe militar.

“O que nós queremos é resgatar os valores que formam a nossa nacionalidade, respeitar a família”, afirmou o presidente.

Antes da chegada de Bolsonaro ao ato, porém, seguranças do Planalto pediram a manifestantes a retirada de faixas contra o Congresso e o STF. A ação foi coordenada pelo general Luiz Fernando Baganha, secretário de segurança e coordenação presidencial do Planalto. Barganha, pessoalmente, pediu a um grupo de apoiadores afastar uma manifestante mais exaltada.

A Folha presenciou Barganha orientando os seguranças sobre a maneira da abordagem. "Cheguem com calma. Peçam a retirada. Expliquem que uma conversa prejudicial ao presidente. Ele está muito preocupado com esse tipo de mensagem", afirmou Baganha a seus auxiliares.

Os seguranças abordaram um grupo autointulado "Paraquedistas de Bolsonaro" que estava no local fazendo formação militares. Eles pediram que qualquer tipo de material potencialmente lesivo fosse retirado. Os militantes, uniformizados com camisas pretas e boina vermelhas, carregavam estiletes, canivetes e sprays de pimenta".

Durante o ato, uma apoiadora do presidente Jair Bolsonaro agrediu a repórter Clarissa Oliveira, da Band, com o mastro de uma bandeira do Brasil.

A jornalista aguardava para gravar quando foi atingida na cabeça. De acordo com Clarissa, outros manifestantes vieram socorrê-la após o episódio.

A Folha presenciou a exaltação da agressora contra a imprensa em dois momentos antes da agressão. A todo momento ela gritava “Globo lixo” e “jornalistas lixos”.

A segurança do Planalto chegou a pedir para que manifestantes acalmassem a agressora, que chegou a sair do local do ato, mas voltou até a chegada de Bolsonaro.

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