Secretário de Doria preso pede licença para se defender e reduzir danos

Prisão de Alexandre Baldy foi pior constrangimento político do tucano no cargo até aqui

São Paulo

O secretário estadual Alexandre Baldy (Transportes Metropolitanos), preso nesta manhã de quinta (6) em São Paulo, pediu licença do cargo a partir desta sexta (7) por um mês para se defender.

Sua prisão foi o maior constrangimento político enfrentado por João Doria (PSDB) desde que assumiu o governo de São Paulo.

O entorno do tucano esperava o movimento de Baldy, que foi comunicado por meio de advogados no fim da tarde ao Palácio dos Bandeirantes. Na segunda nota sobre o tema nesta quinta, Doria fez os elogios protocolares à gestão do secretário à frente da pasta.

Ocupará interinamente o lugar de Baldy seu número 2, o secretário-executivo Paulo Galli.

Doria com Alexandre Baldy durante entrega de trem da CPTM, em fevereiro deste ano
Doria com Alexandre Baldy durante entrega de trem da CPTM, em fevereiro deste ano - Willian Moreira - 4.fev.2020/Futura Press/Folhapress

​Diferentemente dos dois outros episódios envolvendos autoridades de alto escalão alvo da Justiça, no caso Gilberto Kassab (Casa Civil) e Aloysio Nunes Ferreira (InvestSP), contudo, desta vez houve prisão.

Assim, Doria ainda não pôde conversar com Baldy na manhã desta quinta (6). Uma primeira nota do governador, pela manhã, havia apenas dito confiar que ele se explicaria à Justiça e que os fatos pelos quais Baldy é acusado não ocorreram na sua gestão em São Paulo.

Com isso, foi acionado o protocolo Kassab, por assim dizer. O então chefe da Casa Civil indicado por Doria pediu licença após ser alvo de operação por acusação de caixa dois. Passados mais de 500 dias, segue afastado.

Politicamente, o potencial do caso Baldy é ainda maior. O incidente é bastante diferente das agruras recentes do PSDB, que viu seus antigos caciques José Serra e Geraldo Alckmin, ambos ex-governadores paulistas como Doria, acusados de crimes como caixa dois e lavagem de dinheiro.

O constrangimento de estar numa sigla com líderes sob investigação, ao fim, poderia ser absorvido pelo fato de que nenhum dos alvos fazia parte de sua equipe.

Baldy, por outro lado, era uma das estrelas do secretariado de Doria, e uma ponte com o centrão —desde 2017 ele está no Progressistas, depois de ter entrado na política em 2010 no PSDB e tido uma curta passagem pelo Podemos.

Além disso, o secretário tem grande interlocução tanto com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aliado de Doria, e o ministro Fábio Faria (Comunicação), o homem do PSD no governo federal. Baldy era visto com candidato certo a senador ou governador de Goiás em 2022.

Essa articulação foi vista como explicação possível por um estranhamento do dia, que foi o fato de o secretário ter pedido licença na terça e na quarta, vésperas da operação.

O trânsito de Baldy também e grande entre personagens da política goiana envolvidos em investigações de corrupção nos últimos anos.

Ele foi citado no relatório da CPI que avaliou os negócios do Carlinhos Cachoeira, que estabeleceu seus vínculos com o bicheiro, mas foi rejeitado por falta de provas de irregularidades. Esses laços já haviam sido apontados como provável dor de cabeça por aliados, e adversários, de Doria.

A prisão de Baldy também significa mais uma rachadura em um dos esteios da gestão Doria, o aproveitamento de ex-ministros do governo Michel Temer (2016-17) em sua gestão. Foram escolhidos ao todo oito ex-ministros para seis secretarias e outros órgãos.

A ideia sempre foi a de fazer um "mini ministério" em São Paulo, o que aliados e adversários já viam como uma antecipação de pretensões presidenciais do tucano para 2022, mas o ônus acompanhou o bônus.

Inicialmente, houve Kassab. O presidente do PSD era uma das mais vistosas aquisições políticas de Doria, olhando o longo prazo. Até hoje se queixa do governador, segundo seus aliados, pelo tratamento dispensado.

Tanto foi assim que, sem fechar as portas ao PSDB, operou a entrada de seu partido no governo de Jair Bolsonaro, o adversário principal de Doria.

O mesmo valeu para o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira, que teve de deixar a agência InvestSP depois que a Lava Jato bateu às suas portas.

Eleito em 2016 prefeito paulistano e, dois anos depois, governador, Doria sempre associou-se fortemente ao discurso de moralidade pública típico do "Zeitgeist" do lava-jatismo. Daí as execuções sumárias de auxiliares.

A Lava Jato e métodos de seus expoentes, como como o próprio juiz que levou Baldy à prisão, o fluminense Marcelo Bretas, estão em xeque nesses dias.

Sofreram reveses com as acusações de impropriedade de condução de processos pelo então juiz Sergio Moro, que podem levar à declaração de sua suspeição no caso em que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além disso, o governo de Jair Bolsonaro, eleito presidente também pelo desejo antiestablishment decorrente da erosão da classes política pelo lava-jatismo, agora tenta se livrar dos riscos de manter o grupo forte.

Daí decorre o embate no qual saiu Moro do governo e se digladiam o procurador-geral da República, Augusto Aras, e os procuradores associados ao lava-jatismo.

Doria, agora, buscou marcar mais uma diferença com Bolsonaro, acreditando que o eleitorado com pendores lava-jatistas ainda está ativo no país, apesar da manutenção dos índices de popularidade do presidente após sua guinada retórica.

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