Descrição de chapéu Eleições 2020

Bolsonaristas ainda buscam nome próprio à Prefeitura de SP e já admitem voto útil

Deputados e militantes do presidente rejeitam pré-candidatos, mas têm dificuldade em lançar opções

São Paulo

Enquanto parte dos pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo tenta atrair o voto de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, bolsonaristas rejeitam os nomes postos até aqui e tentam lançar seu próprio candidato na reta final —mas admitem que será preciso apelar ao voto útil se o cenário se mantiver.

O desafio dos seguidores de Bolsonaro em São Paulo é encontrar um partido que aceite seu candidato. A legenda que o presidente tenta criar, a Aliança pelo Brasil, não se viabilizou a tempo das eleições, e as siglas que passaram a abrigar bolsonaristas pelo país preferiram apostar em outros nomes na capital paulista.

O PRTB, do vice-presidente Hamilton Mourão, vai lançar seu presidente nacional, Levy Fidelix, conhecido como candidato do aerotrem e agora convertido ao bolsonarismo. O Patriota cedeu seu diretório municipal ao MBL (Movimento Brasil Livre), que apresentará a candidatura do deputado estadual Arthur do Val (Mamãe Falei), um conservador crítico do presidente.

Já o PSL (antiga sigla de Bolsonaro, hoje sem partido) terá como postulante a deputada federal Joice Hasselmann, inimiga dos governistas. Por fim, o Republicanos também não é opção: ou vai lançar o deputado federal Celso Russomanno ou vai abraçar a reeleição de Bruno Covas (PSDB).

Por também representarem a direita liberal na economia e conservadora nos costumes, esses pré-candidatos se unem a Filipe Sabará (Novo) e Andrea Matarazzo (PSD) na briga pela preferência bolsonarista.

O próprio presidente já indicou que vai se manter longe das disputas municipais, mas seus eleitores e militantes conservadores ainda almejam um candidato raiz.

Deputados da tropa de choque do presidente na capital paulista, como os estaduais Gil Diniz, Douglas Garcia e Frederico D'Ávilla e a federal Carla Zambelli, avaliam que nenhum dos pré-candidatos satisfaz o perfil desejado.

No espírito de que a esperança é a última que morre, um grupo tenta emplacar a candidatura de Major Costa e Silva no PTB de Roberto Jefferson, novo aliado de primeira hora do presidente, ou até mesmo no Patriota. As chances de sucesso do oficial do Exército, porém, são baixas.

"Os pré-candidatos que tentam se apegar à imagem do presidente, na verdade, nunca foram alinhados a ele. Não temos hoje nenhum candidato verdadeiramente bolsonarista", afirma Costa e Silva, que prega conservadorismo nos costumes e liberdade econômica.

Ao centro, com camiseta do Bolsonaro, o Major Costa e Silva, que ainda tenta legenda para ser o candidato bolsonarista em São Paulo
Ao centro, com camiseta do Bolsonaro, o Major Costa e Silva, que ainda tenta legenda para ser o candidato bolsonarista em São Paulo - Reprodução/Facebook

O major, que concorreu a governador em 2018 pelo DC e recebeu 3,7% dos votos, diz que tem a simpatia de Jefferson, mas um racha no PTB impede sua candidatura. O deputado estadual Campos Machado, cacique local da sigla, lançou à prefeitura o advogado Marcos da Costa, ex-presidente da OAB-SP.

Jefferson afirma que não deu aval à candidatura, que gostaria de lançar um candidato conservador e que iria resolver a questão com Campos Machado. Procurado pela reportagem, não atendeu. Do lado de Marcos da Costa, a avaliação é a de que não haverá recuo em sua candidatura.

Outra via igualmente complicada é o Patriota. Aliados de Silva esperam que o partido desista de lançar Arthur do Val e realize prévias com o nome do major. A direção estadual da sigla, porém, nega a hipótese.

Em outra frente, há um esforço para emplacar Gil Diniz. O deputado —em um imbróglio jurídico com o PSL desde que o partido decidiu expulsá-lo, em julho— quer insistir na realização de prévias na legenda. Ele diz que pode se apresentar como postulante, mas o objetivo maior é derrubar a candidatura de Joice.

"Continuo no PSL até ser notificado [da expulsão]. Vou exigir as prévias, como está no estatuto. Se recusarem, vou exigir judicialmente", diz ele, que admite a dificuldade de depender de uma decisão judicial favorável. "Com todos esses obstáculos, a possibilidade que eu saia é remotíssima."

Para o presidente estadual do PSL, deputado federal Júnior Bozzella, não há possibilidade de reverter a expulsão nem realizar prévias. A candidatura de Joice, diz ele, está consolidada no partido.

Segundo Gil, a expulsão dele e de Douglas foi uma manobra do PSL para tirar da disputa dois candidatos fortes. O deputado diz que o episódio reforça a necessidade de debater a permissão para candidaturas avulsas (sem filiação partidária, que hoje é obrigatória).

"A militância quer um candidato que tenha a identidade bolsonarista, defenda a pauta conservadora e tenha as bandeiras do presidente", afirma Gil.

De acordo com o parlamentar, se não houver um candidato que agrade à militância fiel de Bolsonaro, o caminho mais provável é o do voto útil. "Os que nós temos aí são horríveis."

O período de oficialização das candidaturas pelos partidos é de 31 de agosto a 16 de setembro, quando serão realizadas as convenções. Os partidários do presidente ainda esperam conseguir alguma legenda até esse prazo.

A legislação eleitoral, porém, exige que o candidato esteja filiado em seu partido ao menos desde 4 de abril, o que também dificulta a vida dos bolsonaristas. Douglas Garcia, por exemplo, migrou para o PTB após ser expulso do PSL e poderia ser uma opção, mas em abril ainda pertencia à antiga legenda.

Por isso também Costa e Silva (tenente-coronel do Exército, embora seja conhecido como major) é visto como uma carta na manga. Por ser militar da ativa, ele não pode estar filiado enquanto exerce sua atividade.

Pode, no entanto, concorrer a cargo eletivo se tiver o nome aprovado por um partido na convenção. Com isso, ele não teria a limitação de ter que estar vinculado a uma sigla desde abril.

Com dificuldade de emplacar um candidato à prefeitura, os bolsonaristas garantiram legenda ao menos para concorrer a uma vaga na Câmara Municipal. Se não for candidato a prefeito, Silva já tem acordo com o Patriota para concorrer a vereador.

Presidente do Movimento Conservador, Edson Salomão também cogitou ser candidato a prefeito, mas encontrou portas fechadas nos partidos. Será candidato a vereador pelo PRTB.

Douglas Garcia, que também é membro do movimento, fala que a militância está "num verdadeiro beco sem saída" nas eleições em São Paulo.

"Eu, por exemplo, estou desesperado aqui. Não sei o que eu faço da vida com relação à prefeitura", afirma o deputado. "Não tenho candidato a prefeito. A gente tentou lançar o Edson Salomão, nenhum partido quis dar a legenda. Está tão complicado que estamos sofrendo para ter um candidato no primeiro turno."

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