Descrição de chapéu Governo Bolsonaro Coronavírus

Folha recorre ao STJ após intimação de colunista sobre texto que tratou de Bolsonaro e Covid

Hélio Schwartsman escreveu texto opinativo após presidente contrair coronavírus; investigação é pedido de ministro da Justiça

São Paulo

A Folha recorreu ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) nesta segunda-feira (24) pedindo a suspensão do inquérito da Polícia Federal aberto por determinação do ministro da Justiça, André Mendonça, para investigar o colunista Hélio Schwartsman.

Schwartsman foi intimado a depor nesta quarta-feira (26) no inquérito, instaurado com base na Lei de Segurança Nacional para investigar o texto de opinião "Por que torço para que Bolsonaro morra", assinado por Schwartsman e publicado em julho pela Folha após o presidente Jair Bolsonaro anunciar que havia contraído o novo coronavírus.

Em nota, à época, a Folha afirmou que "o colunista emitiu uma opinião; pode-se criticá-la, mas não investigá-la".

No pedido de suspensão do inquérito, os advogados da Folha ressaltam que "a coluna incriminada tem caráter crítico, mas não ofende nem ameaça o presidente da República e não faz apologia de crime".

"Qualquer que seja o suposto delito a ser investigado pela Polícia Federal, que certamente tem assuntos mais relevantes a tratar, seja com base na Lei de Segurança Nacional, seja com base no Código Penal, não existe justa causa para o constrangimento imposto ao paciente pelo ministro da Justiça e Segurança Pública", afirma o pedido.

A Associação Nacional de Jornais criticou a intimação de Schwartsman, classificando de “descabida qualquer investigação policial sobre opiniões publicadas na imprensa”.

À época, ao anunciar em rede social o pedido de abertura da investigação, Mendonça citou "princípios básicos do Estado de Direito".

"1. Há direitos fundamentais. 2. Não há direitos fundamentais absolutos. 3. As liberdades de expressão e imprensa são direitos fundamentais. 4. Tais direitos são limitados pela lei.", escreveu.

"Diante disso, quem defende a democracia deve repudiar o artigo 'Por que torço para que Bolsonaro morra”'. Assim, com base nos artigos 31, IV; e 26 da Lei de Segurança Nacional, será requisitada a abertura de inquérito à @policiafederal", disse o ministro.

Na ocasião, Bolsonaro republicou em suas redes sociais as postagens de Mendonça.

O artigo 31 permite ao ministro da Justiça requisitar a abertura de inquérito à PF. O artigo 26 prevê a pena de 1 a 4 anos de reclusão a quem "caluniar ou difamar o Presidente da República, o do Senado Federal, o da Câmara dos Deputados ou o do Supremo Tribunal Federal, imputando-lhes fato definido como crime ou fato ofensivo à reputação".

"Na mesma pena incorre quem, conhecendo o caráter ilícito da imputação, a propala ou divulga", diz o parágrafo único.

Usada por Mendonça e editada durante a ditadura militar, a Lei de Segurança Nacional voltou agora ao debate político após pedidos de investigação feitos pela gestão Bolsonaro contra jornalistas e também contra Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal.

No meio jurídico, a utilização dessa ferramenta pelo governo é vista como uma deturpação de uma legislação anacrônica gestada por um regime autoritário.

O texto em vigor desde 1983 também tem sido utilizado neste ano contra militantes bolsonaristas que pediram em uma série de protestos em Brasília o fechamento do Congresso e do STF.​

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