Descrição de chapéu Eleições 2020

PSDB confirma Covas candidato à reeleição em SP, prega moderação e busca caminho para Doria-2022

Campanha do tucano é parte do projeto do governador e de siglas como MDB e DEM para enfrentar Bolsonaro

São Paulo

Com discursos que exaltaram a política, as alianças partidárias e a moderação, o PSDB confirmou neste sábado (12) a campanha do prefeito Bruno Covas à reeleição em São Paulo. O partido sinalizou que a candidatura é parte da pavimentação do projeto nacional do governador João Doria em 2022.

Durante a convenção da sigla, os tucanos —que reuniram em torno de Covas a maior coligação deste pleito, com nove partidos até agora— destacaram a adesão do MDB, de onde vem o vice da chapa, o vereador Ricardo Nunes, anunciado nesta sexta-feira (11).

"Acreditamos no diálogo e na união, algo que tem faltado muito na política no nosso país", afirmou Covas, em referência a ele e a Doria, de quem herdou o posto de prefeito em 2018, quando o colega de legenda renunciou à cadeira para concorrer ao governo do estado.

A frente composta por DEM, Podemos, MDB, PSC, PP, PL, Pros, Cidadania e PV pode ser o prenúncio de uma coalizão para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na próxima eleição presidencial. Doria se movimenta para aglutinar apoios a seu nome dentro desse grupo.

"É preciso menos polarização e mais conversa e consensos a favor das pessoas e do Brasil", disse Covas em discurso transmitido pela internet —o evento foi realizado de maneira virtual por causa das medidas de prevenção à Covid-19.

Pregando o combate às desigualdades socais, ele pediu esforços para "construir um novo espaço de atuação coletiva, fortalecendo nossa democracia, a participação cidadã e a política com 'p' maiúsculo".

O governador João Doria e o prefeito Bruno Covas participam da convenção do PSDB que definiu Covas como o candidato do partido em São Paulo, neste sábado (12) - Bruno Santos/Folhapress

A parte presencial da convenção se deu de forma descentralizada, com urnas espalhadas em diretórios pela cidade. Pela manhã, Covas, Doria e Nunes estiveram em um dos pontos de votação, na zona leste.

Doria confirmou que a coligação da disputa municipal abre caminho para um projeto nacional, mas procurou adotar cautela. "Cada momento é um passo. Neste momento, o passo é pela Prefeitura de São Paulo. Mas a soma de passos fortalece esta relação", contemporizou.

O governador disse que a eleição na capital paulista tem "uma representatividade muito expressiva no cenário nacional" e destacou a reaproximação do que classifica como "centro democrático liberal, que sabe dialogar com a esquerda e com a direita".

Doria agradeceu ao ex-presidente Michel Temer pelo apoio "vital e muito importante" dado à costura que incluiu o MDB na órbita dos tucanos. "Viva a coalizão PSDB-MDB", comemorou.

A votação interna deu mostras da unidade do PSDB sobre a candidatura de Covas. Dos 451 delegados partidários que votaram, só 1 rejeitou a escolha do nome.

O atual prefeito é considerado hoje o favorito da disputa. Por causa disso, tornou-se o principal alvo dos adversários, tanto à direita quanto à esquerda. Sua ligação com Doria também tem sido explorada, inclusive por postulantes que buscam o voto de bolsonaristas.

Em tratamento contra um câncer no trato digestivo, Covas tem o desafio de dar visibilidade aos feitos de sua gestão, que carece de uma marca, na visão dos oponentes. A seu favor ele tem a vantagem de contar, em virtude da ampla coligação, com o maior tempo de propaganda gratuita em TV e rádio.

Durante a convenção, a defesa de união entre partidos apareceu nos vídeos gravados por dirigentes do PSDB e das siglas aliadas, por militantes tucanos e por simpatizantes da candidatura, como a ex-prefeita Marta Suplicy, que rompeu com sua legenda, o Solidariedade, para declarar apoio a Covas.

Líderes tucanos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador Geraldo Alckmin apareceram na tela em depoimentos gravados. A participação de Alckmin, antes uma dúvida pelo fato de ele ter virado réu sob acusação de corrupção e caixa dois, havia sido confirmada durante a semana.

"Eleição municipal é uma espécie de prévia [...] do que pode acontecer no futuro", disse FHC. "Tem que olhar sempre para a frente. E nós temos aqui em São Paulo a chance de termos alguém de uma nova geração, que é o Bruno Covas", completou, lembrando que é preciso "juntar gente" para ganhar.

O senador José Serra, também envolvido em escândalos recentes por suspeitas de desvios, foi uma das ausências. O presidente municipal do PSDB, Fernando Alfredo, informou que ele não pôde participar porque está internado, mas expressou gratidão e admiração a Serra.

"A sacanagem que estão cometendo contra o Serra e o Geraldo é a pequena mostra daquilo que eles são capazes de fazer", disse no evento Sebastião Farias, filiado do PSDB, ao afirmar que adversários vão "jogar pesado e sujo" para impedir a vitória de Covas.

De caciques do DEM, marcaram presença o presidente nacional da sigla, ACM Neto, que é prefeito de Salvador, e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (RJ), além do vice-governador paulista, Rodrigo Garcia.

Coube a Marta fazer as críticas mais duras e diretas a Bolsonaro. A ex-senadora, que aderiu à campanha de Bruno sob o argumento de que é preciso formar uma frente ampla para evitar a reeleição do titular do Planalto, disse que o presidente é despreparado e não respeita o cargo que ocupa.

"Pode parecer insólita a minha presença nesta convenção", disse a ex-petista, que recordou os momentos no passado em que deu as mãos ao avô de Covas, o governador Mário Covas. Os dois fizeram PT e PSDB se unirem na eleição de 1998 (estadual) e na de 2000 (municipal) para derrotarem Paulo Maluf.

"O Bruno tem sido um exemplo de resiliência, enfrentando com coragem uma doença difícil, ao mesmo tempo em que não descuidou da cidade", afirmou Marta, que deve se desfiliar do Solidariedade, partido que decidiu aderir à campanha de Márcio França (PSB).

Sem mencionar diretamente Bolsonaro, o ex-senador Aloysio Nunes (PSDB) falou em combater o extremismo e caracterizou Covas como um homem afeito a buscar consensos.

"Estamos ficando cansados de governantes que fazem da injúria a sua linguagem preferida. Precisamos colocar São Paulo à frente de um grande movimento, para que o Brasil retome os trilhos da boa vida democrática, ameaçada por essa extrema direita reacionária e agressiva", disse.

Como antecipou a Folha, o discurso inaugural de Covas na briga eleitoral se concentrou em sua gestão, deixando de lado aspectos ideológicos. O tucano se apresentou como um prefeito que gosta da função e disse que, para ele, a cidade "vem sempre em primeiro lugar".

Em sua fala após ser sacramentado como candidato, priorizou questões municipais e enumerou programas e obras de sua administração. A estratégia desenhada por seus assessores é a de trazer a discussão para o plano local e fugir de polêmicas ligadas ao governo federal.

Adversários, no entanto, planejam justamente o oposto: nacionalizar a disputa. À esquerda, Jilmar Tatto (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) querem usar a campanha para marcar posição contra Bolsonaro.

Em entrevista coletiva depois da homologação, Covas procurou minimizar a associação de sua candidatura ao projeto de Doria para 2022. Disse que a rede de partidos à sua volta demonstra, sobretudo, a reconstrução do centro, depois de uma eleição polarizada como a de 2018.

"O pano de fundo da candidatura é a retomada do espaço do centro como um polo político importante para o país. A retomada dessa importância é muito mais um pano de fundo do que um projeto presidencial numa figura ou em outra em 2022", afirmou.

O prefeito disse ainda que a questão tem reflexo praticamente nulo no pleito de novembro. Na opinião dele, os paulistanos vão guiar sua decisão pelas urgências locais. "A população não está preocupada sobre quem vai ter chance ou não de ser eleito em 2022."

Covas também relativizou o peso da entrada na disputa do deputado federal Celso Russomanno (Republicanos), único dos principais nomes da eleição que ainda não oficializou a candidatura. O partido dele tem convenção marcada para quarta-feira (16), último dia possível no prazo da Justiça Eleitoral.

"[A confirmação] em quase nada influencia a nossa estratégia de campanha, [que] é bem diferente da dos demais candidatos. Enquanto todos os outros vão vender sonho, nós vamos vender uma realidade, o que foi feito na cidade ao longo dos últimos quatro anos", disse Covas.

Questionado sobre eventuais problemas que sua conexão com Doria podem lhe causar, o prefeito respondeu que não vai esconder nenhum dos apoios que conquistou e que "todo o mundo sabe da boa relação" dele com o governador.

"Nós vamos mostrar para a população o quanto tem sido boa essa atuação conjunta entre prefeitura e governo do estado", afirmou.

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