Campanha em Jaboticabal traz à tona disputa que até já interrompeu licença médica

Grupo do prefeito racha e tem dois candidatos; vice diz respeitar titular e que, quando interino, atuou com dinamismo e boa gestão

Jaboticabal (SP)

Um afastamento que poderia ser definitivo, mas acabou sendo temporário, expôs no meio político de Jaboticabal (a 342 km de São Paulo) divergências entre o atual prefeito, José Carlos Hori (Cidadania), e seu vice, Vitorio de Simoni (MDB), que disputa a eleição deste ano sem apoio do titular do cargo.

Em novembro de 2017, Hori começou a ter problemas de saúde após ter 100% de surdez súbita no ouvido direito.

Havia suspeita de Alzheimer devido ao histórico familiar e, em agosto do ano seguinte, quando o prefeito já tinha perdido também 15% da audição do ouvido esquerdo, pediu afastamento do cargo por quatro meses.

O vice Vitorio assumiu e passou a administrar a cidade diante da licença do titular. Comissionados foram demitidos e ele, contador, implantou novas medidas internas no dia a dia da prefeitura, que nem sempre agradaram servidores ligados a Hori, segundo relatos feitos à Folha.

Naquele momento, havia a possibilidade de a licença do prefeito se prolongar por até um ano. Até cogita-se a eventual renúncia, se a suspeita inicial se confirmasse.

Mas Hori retomou o posto três meses depois, um antes do previsto, com o objetivo de estancar as mudanças, conforme dizem seus aliados. O prefeito, que no fim acabou diagnosticado com diabetes, não quis comentar a relação com o vice.

Homem de camisa sorri com parede ao fundo
O prefeito de Jaboticabal, José Carlos Hori (Cidadania), que está em seu terceiro mandato, em seu gabinete - Eduardo Anizelli/Folhapress

Não é a primeira vez que Hori enfrenta conflitos com um vice-prefeito. Em 2012, quando encerrava seu segundo mandato, fez campanha para que seu então vice, Raul Girio (PSDB), se elegesse. Ele venceu, mas o atual prefeito qualifica o fato como “maior arrependimento”.

“Em 2017, peguei a cidade arrebentada, algo nunca visto na história. O endividamento estava em R$ 43 milhões, para um orçamento de R$ 230 milhões. Foram dois anos para por a casa em dia, com aprovações das contas no TCE [Tribunal de Contas do Estado]. Falei ‘não, para tudo’. Desde 2018 a cidade está no azul”, disse.

O período de Girio foi marcado também por exonerações de aliados de Hori de cargos públicos em todos os setores.

Antes do afastamento prolongado, em maio de 2018 Hori já tinha tirado licença médica de 12 dias, e Vitorio disse à imprensa oficial da administração que tinha recebido do prefeito “total liberdade para tomar qualquer tipo de decisão”.

À Folha Vitorio disse que quando assumiu a prefeitura interinamente tentou adotar um modelo de gestão ligado ao setor que ele conhece —é contador e empresário—, “voltado ao resultado, à eficiência e inovador”.

“Algumas pessoas se surpreenderam inclusive pela forma como eu estava conduzindo, com dinamismo, com governo acelerado, as coisas aconteciam mais rápido. É o meu jeito de ser”, disse.

Ainda de acordo com ele, durante os últimos quatro anos sua postura foi de vice-prefeito, respeitando as decisões de Hori, sem racha.

“Não teve nada, isso aí é mera especulação. Sempre tive trato respeitoso, conversamos com certa frequência. Pessoas querem contaminar as relações humanas, mas nunca aconteceu nada”, disse.

Ele, porém, afirmou que, nos três meses em que ficou no cargo, tomou as decisões que tinha de tomar. “Aí sim, a caneta estava em minha mão, o governo tem de ter a responsabilidade de quem está no comando [...] Eu não exonerei ninguém que fosse ligado a ele. Também não é uma verdade, mantive lealdade se posso assim dizer.”

Sobre a decisão do prefeito de não apoiar nenhum candidato na eleição deste ano, o vice disse que a respeita. “Bola para frente, vida que segue.”

Além de Vitorio, outros dois ex-secretários de Hori disputam a eleição numa chapa. João Roberto da Silva (DEM), ex-secretário da Saúde, é candidato a prefeito, com Claudio Almeida (PSDB), ex-secretário da Fazenda, como vice.

Quando Hori anunciou ao seu grupo político que não disputaria a reeleição, o PPS foi esvaziado e integrantes da legenda se espalharam em outros partidos.

Conhecida como Athenas Paulista, mas também já chamada de Cidade das Rosas e de Cidade da Música, Jaboticabal terá cobertura completa da Folha durante as eleições municipais deste ano.

Uma campanha que promete ser parelha, problemas estruturais e a atuação restrita da imprensa profissional são alguns dos ingredientes que tornam interessante a cobertura jornalística nessa cidade de 77 mil habitantes.

Jaboticabal, ao contrário do que já ocorre em outras localidades menores, não tem uma TV (comunitária ou educativa) para a transmissão do horário eleitoral gratuito, o que faz com que a campanha seja diferente das disputas dos grandes centros.

Os candidatos, e a própria dinâmica local, serão acompanhados diariamente pelo jornal, assim como ocorre nas eleições em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Além dos ingredientes políticos colocados na disputa deste ano, Jaboticabal foi escolhida pela Folha por ser uma cidade com forte peso educacional, com quatro universidades ou centros universitários, e também se destacar economicamente na agricultura e nas indústrias de alimentação e cerâmica. ​

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