Conflito entre fazendeiros e indígenas gera tensão e isola esquerda no sul da Bahia

Em Buerarema, ocupação de terras pelos tupinambás levou população a rejeitar partidos hoje na oposição

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Apoiadores do atual prefeito Vinícius Ibrann (DEM), durante concentração de carreata em Buerarema

Apoiadores do atual prefeito Vinícius Ibrann (DEM), durante concentração de carreata em Buerarema Raul Spinassé/Folhapress

João Pedro Pitombo Raul Spinassé
Buerarema (BA)

Nas margens da BR-101, o prefeito Vinícius Ibrann (DEM) quis dar demonstração de força. Em carreata no sábado (17), reuniu dezenas de motos, carros, quadriciclos, caminhões com as carrocerias cheias de eleitores, carroças e até um jet-ski, devidamente rebocado.

Seu oponente, Ariosvaldo Vieira (Republicanos), vereador por cinco mandatos, deixou de lado a estratégia de terra ocupada para pedir votos de casa em casa. Mirou a zona rural e visitou produtores do assentamento Dois Irmãos na manhã de domingo (18).

Mesmo em lados opostos na eleição de Buerarema, cidade de 18 mil habitantes do sul da Bahia, Ibrann e Vieira têm uma trajetória político-ideológica em comum: ambos sempre estiveram em partidos de direita e, em 2018, apoiaram a eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

As urnas na cidade refletem o histórico de conflitos entre os fazendeiros e os indígenas tupinambás, que isolaram os partidos de esquerda e fizeram da cidade bastião da direita baiana.

Além dos dois candidatos a prefeito, a eleição deste ano em Buerarema tem 71 candidatos a vereador. Nenhum deles é do PT, PC do B, PDT, PSB e PSOL ou qualquer outra legenda da esquerda brasileira.

Os conflitos na cidade giram em torno da criação da Terra Indígena Tupinambá, área de 45 mil hectares localizada entre os municípios de Ilhéus, Una e Buerarema. O processo de demarcação da área, onde vivem cerca de 8.000 indígenas, foi iniciado em 2004.

A terra já foi identificada e delimitada pela Funai (Fundação Nacional do Índio) e houve parecer favorável da AGU (Advocacia-Geral da União) pela demarcação, mas o processo está parado desde 2016.

Os conflitos na região são históricos, mas ganharam força no início desta década, quando sob liderança de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, 45, os tupinambás passaram ocupar terras da região em um processo que chamaram de "retomada das terras". Cerca 150 fazendas foram ocupadas.

O acirramento da disputa de terras resultou no envio da Força Nacional em 2013, que ficou mais de um ano na região. Babau foi preso pelo menos quatro vezes sob acusação de invadir as terras e passou mais de seis meses em presídios estaduais e federais.

Desde então, a questão indígena se tornou central na política de Buerarema. Os partidos de esquerda, que em sua maioria apoiaram a demarcação de terras dos tupinambás, acabaram sendo rechaçados por parte da população.

Na cidade, moradores não raro se referem aos tupinambás como invasores e questionam até a origem indígena deles. Os indígenas rebatem: defendem que a região é ocupada há séculos por comunidades tradicionais e afirmam que a maior parte das terras da região foi alvo de grilagem.

Apoiador de Ibrann, o caminhoneiro Gildevando Batista dos Santos, 59, afirma que teve uma fazenda de 27 hectares invadida pelos tupinambás: "Perdi a minha principal fonte de renda", diz ele, que pleiteia uma indenização do governo federal.

Entre os apoiadores do candidato oposicionista, o comerciante e postulante a vereador Cristian Santana, o Papinha (PSD), conta uma história semelhante. Ele diz que teve uma fazenda de cacau de 45 hectares tomada por grupos de tupinambás há sete anos.

Desde então, passou a nutrir ódio por partidos de esquerda. "Aqui, se a gente souber que o cara é o PT, a gente queima o carro e dá tapa. O PT apoiou essas pestes [indígenas]", afirma Papinha.

Ele também critica Bolsonaro por, após quase dois anos de mandato, não ter resolvido o imbróglio na região. "Se não resolver, ele vai se tornar outro descarado em quem ninguém vai votar em Buerarema". Em 2018, Bolsonaro teve 55% dos votos na cidade.

Com um histórico de militância no município, o professor Edjaldo Vieira, 45, afirma que os esquerdistas tiveram que se abrigar em outros partidos para disputar a eleição para a Câmara de Vereadores.

A maioria foi para o PSD, que faz parte da coligação de Vieira. Mas também há petistas na cidade que apoiam o candidato do DEM.

Edjaldo diz que os governos dos ex-presidentes Lula e Dima Rousseff, ambos do PT, fizeram muito pela região e cita como exemplo a eletrificação da zona rural, por meio do programa Luz para Todos. Mas confirma que os conflitos ofuscaram os benefícios de obras e programas sociais.

"Sou simpatizante da causa indígena, mas acho que eles foram usados para fortalecer a direita na nossa cidade. Nosso candidato a prefeito, infelizmente, é um bolsonarista."

Cercadas pela serra do Padeiro, vivem 218 famílias de tupinambás. Para chegar no local, é preciso percorrer pelo menos 40 quilômetros em estradas de terra, que se bifurcam como em um labirinto.

Plantações de cacau, abacaxi, banana e galpões para criação de aves espalham-se pelas terras ocupadas pelos indígenas. Os tupinambás raramente saem da região. O cacique Babau e outros já foram alvo de emboscadas, sofreram ameaças de morte e, por isso, evitam circular pela zona urbana de Buerarema.

O clima ficou tão hostil que eles simplesmente desistiram de participar da política em Buerarema. Todos transferiram seus títulos eleitorais para Una, cidade vizinha que também integra a área ocupada e onde a relação com poder local é menos conflituosa.

Babau diz que a política na região sempre foi dominada pelos mesmo grupos, desde a época dos coronéis do cacau.

"Nunca foi eleito em Buerarema um partido de esquerda. Qualquer um que tenha uma posição de esquerda, é mais fácil o cara morrer do que assumir uma eleição em Buerarema. Sempre foi nesse nível."
Com a pandemia, os tupinambás voltaram a ter conflitos com a prefeitura após implantarem barreiras sanitárias em uma estrada que dá acesso à área ocupada.

O prefeito Ibrann, que chegou a mandar um ofício para o governo do estado pedindo o fim das barreiras, diz que vê pouca relação dos indígenas com a eleição local. E nega a pecha de que Buerarema é uma cidade bolsonarista.

"Não tem esse negócio de bolsonarista. Simplesmente não votamos em quem não traz benefício para nossa cidade", diz ele, que é filho do ex-prefeito Orlando Filho.

Vieira, candidato da oposição, diz que o histórico de conflitos impactou o comércio e impulsionou a migração no município. O principal destino é a cidade de Brusque (SC), para onde seguem pelo menos três vans cheias de passageiros toda semana.

A disputa direita versus direita na eleição criou uma situação insólita, com candidatos de diferentes correntes ideológicas abrigando-se em um único partido.

O caso mais extremo é o do PSD, partido criado em 2011 pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que na época afirmou que a sigla não era "nem de direita, nem de esquerda, nem de centro". Em Buerarema, o partido abriga petistas, bolsonaristas e até mesmo um monarquista que tem o escritor Olavo de Carvalho como seu guru.

O cenário é resultado da união em torno da candidatura de Vieira. A candidatura é amparada por uma coligação entre o Republicanos e o PSD, que indicou o candidato a vice Wagner do Mototáxi. As duas legendas agruparam os candidatos a vereador que apoiam Vieira.

Com 19 anos, João Vitor Santana (PSD) disputa sua primeira eleição na cidade. Com um broche com o brasão do Império brasileiro na lapela da camisa, ele afirma que começou a se interessar por política aos 14, quando passou a assistir na internet vídeos de Olavo de Carvalho e Enéas Carneiro.

Foi a partir de Olavo que ele chegou a Bolsonaro, a quem passou a apoiar com entusiasmo e para quem fez campanha em 2018.

Em 2019, viajou até Vitória da Conquista para ver o presidente de perto. Levou uma bandeira de um metro e meio com as imagens de Bolsonaro, Olavo, Enéas e Donald Trump.

Focado na eleição, diz achar que tem boas chances de conquistar uma cadeira na Câmara: "Não é só Buerarema, o Brasil tem uma identidade conservadora".

No domingo (18), ele foi até a comunidade rural Dois Irmãos conversar com eleitores junto com Vieira. Na mesma caravana estava a atriz Maria das Graças Santos, a Gal Macuco, 60, que vestia uma camisa vermelha com a imagem de Marielle Franco.

Com uma trajetória de militância na esquerda, ela filiou-se ao mesmo PSD para disputar uma vaga na Câmara.

"Eu não sou e nunca serei de direita. Mas, aqui na cidade, o PT está morto, o PC do B está morto, nenhum deles tem força para eleger um candidato. Não tive outra opção", afirma.

Gal, que também é presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras de Buerarema, pretende trabalhar para incrementar a cultura da cidade caso seja eleita.

Mesmo em extremos ideológicos, Santana e Gal Macuco têm boa relação. Os dois frequentam o mesmo centro espírita e costumam trocar ideias, mesmo sem esperança de um convencer o outro. "Esse menino não tem jeito", diz Gal, aos risos, antes de abraçar seu companheiro de chapa.

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