Descrição de chapéu Legislativo Paulista

Bolsonarismo enquanto tese morreu, e viabilizar impeachment é possível, diz Arthur do Val

Deputado estadual conhecido como Mamãe Falei sai da eleição municipal mirando o Governo de São Paulo em 2022 e afirma que presidente faz 'open bar' de crimes

São Paulo

Depois de superar expectativas na eleição municipal em São Paulo, quando teve mais de 520 mil votos e terminou em quinto, o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), o Mamãe Falei, quer disputar o governo do estado em 2022 e, enquanto isso, militar pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Como membro do MBL (Movimento Brasil Livre), viu o caldo popular engrossar contra Dilma Rousseff (PT) e acha possível que isso se repita, apesar da falta de apoio na população e no Congresso.

Aliado ocasional da esquerda nesse movimento pelo impeachment, Arthur vê uma direita não bolsonarista órfã de representantes e tenta ocupar esse vácuo da política, resgatando pautas conservadoras nos costumes e liberais na economia.

O deputado estadual Arthur do Val (Patriota), o Mamãe Falei, em seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo - Eduardo Knapp - 16.dez.2019/Folhapress

"O bolsonarismo enquanto tese, fazendo governadores, fazendo uma bancada federal e estadual gigantesca em diversos estados, isso acabou", diz à Folha por telefone.

O deputado não economiza críticas ao governador João Doria (PSDB), minimiza a crise entre o MBL e o vereador Fernando Holiday (Patriota) e evita defender Isa Penna (PSOL), apalpada por Fernando Cury (Cidadania).

O sr. ficou em quinto lugar, à frente de Jilmar Tatto (PT) e Joice Hasselmann (PSL) e próximo de Celso Russomanno (Republicanos). A que atribui esse resultado? Claro que o resultado foi bom, mas só não foi maior por causa das pesquisas, inclusive do Datafolha. Me tiraram voto útil até o último dia. Eu poderia dobrar essa votação. Sem TV, sem igreja, sem dinheiro fazer essa votação mostra que há demanda para o que a gente acredita.

O sr. é de direita, é do MBL, é rechaçado pela esquerda e já tinha desembarcado do bolsonarismo antes da eleição. Quem é seu eleitor? A maior parte das pessoas, independentemente do meu voto, não são bolsonaristas. São pessoas de saco cheio da esquerda buscando pautas conservadoras. Com Bolsonaro traindo esses discursos, esse público vai ficando órfão. Se Bruno Covas [PSDB] ganhou, tendo Bolsonaro um candidato [Russomanno], mostra que as pessoas não querem votar na esquerda, mas não confiam em Bolsonaro. Mostra uma carência de representantes.

Qual leitura faz do recado das urnas em 2020 que pode servir de aprendizado para 2022? Não acho que o bolsonarismo esteja morto, longe disso, mas a única chance que o bolsonarismo tem, e talvez tenha realmente essa chance, é de essas pessoas não encontrarem representantes e, dependendo das opções que tiverem, Bolsonaro ganhar alguma força para a reeleição.

Agora, o bolsonarismo enquanto tese, fazendo governadores, fazendo uma bancada federal e estadual gigantesca em diversos estados, isso acabou. O bolsonarismo enquanto tese morreu.

O que planeja para 2022? Estamos trabalhando para ir para o governo [de São Paulo], para fazer nossa bancada de federais e estaduais e com um senador na chapa, dentro da lógica da direita não bolsonarista. Eu pretendo sair para governador.

Olhando para o impeachment da Dilma e o que veio depois, o movimento naquela época foi acertado? Com certeza. Assim que Dilma saiu, diferente das previsões da época e diferente das previsões que agora se fazem sobre impeachment de Bolsonaro, o que se teve no país foi mais estabilidade.

O impeachment da Dilma é visto como o início do processo de fragilização das instituições, intensificado no governo Bolsonaro. Acho o contrário. O impeachment fortalece as instituições. Mostra que um governo não está acima das instituições.

Por que defende o impeachment de Bolsonaro? Porque ele é um criminoso.

Quais crimes de responsabilidade ele cometeu? Costumo brincar que é um governo "open bar" de crimes. Tem falsificação de assinatura de ministro, interferência na Polícia Federal, compra de um remédio superfaturado, que é a cloroquina, sem nenhum tipo de evidência de eficácia, o total desprezo pela ciência no combate à maior pandemia que vivemos no nosso século.

A esquerda também defende o impeachment. Como fica isso para seu público conservador? Parte do público, minoritária, tem um pensamento dicotômico. Da mesma forma que, quando pedimos o impeachment da Dilma tinha galera na rua pedindo intervenção militar, e nós não concordávamos, agora que pedimos impeachment de Bolsonaro há essa galera de esquerda com essas pautas de politicamente correto, de antifascismo, que nós não concordamos. As últimas carreatas fizemos em dias diferentes da esquerda, para mostrar que temos motivações diferentes dessa turma.

Para que o impeachment vingue, acha importante que a esquerda também defenda essa bandeira? Depende. Se falar dos votos, claro que sim. Precisa da maioria da Câmara.

Por que depende? Por exemplo, acho importante a esquerda estar alinhada no que tange privatizações? Não. São pautas em que nunca vamos estar juntos, apesar de nesse momento nós estarmos pedindo o impeachment de um presidente criminoso. Mas quando começa a trazer outras pautas, você vê que não tem como se juntar com essa gente.

No fim de semana, tivemos carreatas separadas pelo impeachment. Acha desejável ou possível que esse protesto seja unificado para dar uma massa de gente maior? Nem sei te responder. Depende muito da comunicação que for feita. Se um jurista neutro ou um grupo misto faz um pedido baseado numa tese objetiva de crime, sem colocar ali teses de esquerda ou de direita, e se marca um ato para esse pedido, tudo bem. Se for uma manifestação pelo impeachment do Bolsonaro porque ele é um fascista, não, isso não vou aderir.

O sr. é liberal e é empresário. O Datafolha mostra que 71% dos empresários são contra impeachment. Por que não aderiram? Infelizmente, a maior parte das pessoas não entende os movimentos políticos. Na época da Dilma foi a mesma coisa. Acredito que parte do empresariado está muito medrosa, acontece que estão defendendo algo que traz mais instabilidade, que é a manutenção de Bolsonaro.

Hoje a maioria do Congresso e da população não apoia o impeachment. Acha que é possível? Com certeza. No governo Dilma foi a mesma coisa. A popularidade de Bolsonaro comprada com o auxílio emergencial não só está indo embora como vai se virar contra ele quando a conta chegar para a classe média. Quero ver os empresários entenderem que é bom manter Bolsonaro com ele recriando CPMF.

Acha que vai ter mobilização para virar voto no Congresso? Não sei, acho possível. Desde que a gente está batendo no Bolsonaro, desde o início de 2019, a gente está vendo que está cada vez mais fácil bater nele.

Como avalia a condução da pandemia por Doria, considerando a rivalidade com Bolsonaro? Bolsonaro, que é um criminoso, quadrilheiro, corrupto, não tem o que fazer e se baseia nos erros do Doria. E Doria, que é um falso, um animal político, um marqueteiro, se baseia nos erros de Bolsonaro. Na carência de virtudes, ambos se apoiam nos erros do seu oponente. Um absurdo.

Doria é um péssimo governador. Teve uma vitória na vacina, sim. Mas não fez lockdown no começo como deveria, continua agora com medidas que não têm o menor sentido, essa restrição de horários. Em São Paulo estamos vendo o tanto de clandestinidade [de festas] que há e ninguém faz porcaria nenhuma. E Doria aumentou impostos, isso é inadmissível.

Bolsonaro pode se filiar ao Patriota? Isso é mais especulação da imprensa. Até onde eu sei, a [direção] nacional não aprova isso. De qualquer forma, Bolsonaro vindo, vou embora no mesmo dia.

O MBL vive um racha com Holiday. O que aconteceu e como está a situação agora? Não é um racha e não é por causa da eleição na Câmara dos Deputados. O que teve foi o Holiday, de forma completamente amistosa, decidindo sair do movimento por conta de uma decisão pessoal dele. Mas o Holiday é amigo nosso. Não é uma briga.

Holiday expôs a divergência sobre a presidência da Câmara no Twitter. Ele falou que apoiava o Marcel [Van Hattem, do Novo], e a gente se posiciona diferente, mas isso já aconteceu um milhão de vezes no MBL.

O sr. é próximo ao Novo. Qual sua posição sobre a presidência da Câmara? Eu acredito que há uma ala do Novo essencialmente bolsonarista, por mais que eles não gostem de assumir. E essa galera infelizmente não está vendo a possibilidade real de tirarmos do governo a vitória da presidência da Câmara. No caso do Marcel, acho ele o melhor candidato, mas no momento errado.

A Assembleia também tem eleição da Mesa em março. Qual a sua posição? Na Assembleia, é diferente, quanto mais demorar para lançar candidatura, mais você pode ganhar. Como são menos deputados e o governo tem mais poder, quando você lança antes, o governo começa a comprar seus votos. Até agora, eu sei que está acontecendo um movimento para se derrotar o governo e eu apoio, mas não sei dizer já tem candidatura, se vai conseguir juntar PSOL e PSL. Não sei nem os nomes que estão na disputa.

O que acha sobre o assédio de Fernando Cury em Isa Penna? Acho muito difícil a comissão de ética decidir por cassação e acho ainda mais difícil os deputados cassarem o mandato de outro deputado.

Mas o que acha do episódio? É complexo. Vou tentar falar uma frase que não dê margem para segundas interpretações. O que ele fez é indefensável, mas não acho que a Isa Penna esteja agindo de forma 100% correta.

Como assim? O que eu posso te dizer é isso. O que ele fez não tem defesa. "Ah foi sem querer, isso é normal." Não existe isso. Não existe a possibilidade de se culpar a vítima. Mas não acho que Isa esteja agindo 100% correto. Não tenho muito mais o que falar sobre isso.

Raio-X

Arthur do Val, 34
Nascido em São Paulo e formado em engenharia química, atuou no comércio e gerenciou um estacionamento. Seu canal no YouTube "Mamãe Falei" tem mais de 2,7 milhões de inscritos. É membro do MBL. Foi o segundo deputado estadual mais votado de São Paulo, com 478 mil eleitores. Em 2020, concorreu a prefeito de São Paulo pelo Patriota e terminou em quinto, com 9,8%

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