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Prédio de jornal em Olímpia tem incêndio após ser atacado; dono relata ameaças

Editor diz que sofria ofensiva de 'negacionistas' ao defender medidas de isolamento devido à Covid na cidade do interior de SP

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Ribeirão Preto

A sede do jornal Folha da Região, onde funciona também o portal IFolha e uma rádio comunitária, em Olímpia (SP), foi alvo de um ataque durante a madrugada desta quarta-feira (17) que provocou um incêndio.

O jornal semanal é o mais antigo e tradicional da cidade, com mais de 40 anos de existência, e é o único que circula em versão impressa no município, que fica na região de São José do Rio Preto.

O local em que funciona, um sobrado construído há 70 anos, também abriga no piso superior a residência do jornalista José Antônio Arantes, 62, editor do jornal, que foi surpreendido às 4h30 com as chamas e a fumaça.

Imagem de câmera de segurança mostra ataque à sede do jornal Folha da Região
Imagem de câmera de segurança mostra ataque à sede do jornal Folha da Região - Reprodução

O combustível usado no incêndio —que acredita-se ser álcool— foi jogado na porta do jornal e um balde com o restante do líquido foi abandonado no local.

Ele disse ter sido acordado com os latidos dos dois cães da raça poodle da família devido à fumaça, que já tinha chegado ao quarto em que dormia.

Com a ajuda da mulher, o fogo foi apagado. Além do jornalista, estavam na casa sua mulher e uma neta, de 9 anos. A mulher teve uma queimadura leve em um dos braços.

"É uma construção antiga, com muita madeira. Foi assustador ver aquela fumaça toda tomando conta da escadaria, não sabia se apagava o fogo ou protegia com o corpo a minha netinha. Fomos salvos pelos cães, acho que mais 15 ou 20 minutos, morreríamos queimados ou sufocados", disse Arantes.

Além de editar o jornal, Arantes apresenta, com sua filha, um programa de rádio de segunda a sexta-feira que é também transmitido por redes sociais. Ele é presidente da Rádio Cidade, emissora comunitária.

No jornal e em suas falas, tem adotado a postura de defender as medidas de isolamento social e fechamento de atividades não essenciais como forma de combater a disseminação do novo coronavírus.

"Acredito que a raiva das pessoas, se de fato houver motivação política, se dê mais pela rádio do que pelo jornal e portal. A gente vem sofrendo achaques pela internet de pessoas reacionárias, negacionistas. Tem um grupo de pessoas que ficam o tempo todo pregando o que para mim é uma imbecilidade. Semana passada começamos a sofrer uma campanha muito virulenta porque fazemos defesa intransigente de isolamento e medidas restritivas."

Olímpia, que é estância turística, tem sofrido com a pandemia por ver afetada sua principal atividade econômica, com resorts e parques aquáticos. O setor está fechado há cerca de 15 dias e, desde março do ano passado, ficou paralisado por oito meses.

Com 55 mil habitantes, Olímpia tem 23 mil leitos em sua rede hoteleira, o que dá uma dimensão da importância do turismo para o desenvolvimento econômico local.

De acordo com o que Arantes escreveu após o ataque, ameaças estavam sendo feitas pela internet devido ao seu posicionamento contra o que classificou de “negacionistas genocidas”, razão pela qual suspeita que o crime tenha sido praticado por defensores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Arantes disse que tomará as providências cabíveis e que não se calará na luta contra a intolerância, o ódio e o negacionismo.

“Estou há 40 anos na profissão, comecei minha carreira já no final da ditadura e não vou abrir mão de lutar pelo meu povo e contra qualquer tipo de terrorismo e pensamento político que visem tirar a liberdade e suprir os direitos de minha população”, disse.

Incêndio atinge sede de jornal em Olímpia, no interior de SP
Incêndio atinge sede de jornal em Olímpia, no interior de SP - Arquivo Pessoal

O jornalista afirmou que começou a ser ameaçado ainda na última sexta-feira (12), quando um veículo iniciou perseguição na rodovia ao carro em que estavam seu genro, sua filha e uma netinha de um ano, quando foram buscar a mais recente edição do jornal, que é impresso em São José do Rio Preto.

Ele disse que o carro ameaçava bater na lateral de seu veículo, o que inicialmente qualificou como “brincadeira de mau gosto” de alguém. Mas, no domingo (14), segundo ele, seu carro amanheceu com o pneu furado e, quando um familiar foi fazer a troca de pneus, disse que os parafusos das rodas estavam frouxos.

“Nem assim, consegui enxergar que algum atentado terrorista estava sendo armado contra mim e os meus. Mas agora veio a confirmação de que estamos num embate muito mais sério do que imaginávamos. Só não consigo enxergar qual seria o motivo real desta situação. Se é meramente local ou transcende as fronteiras do município e chegam a Brasília. Quero acreditar que não, pois aí estaríamos realmente trilhando um caminho que pode ser sangrento demais”, escreveu Arantes.

A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo se solidarizaram com o jornalista e sua família pelo ataque sofrido em Olímpia e exigiram investigação sobre o caso. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) vai enviar ofícios às autoridades pedindo que as investigações sejam rápidas.

A Prefeitura de Olímpia manifestou, na manhã desta quarta, solidariedade ao jornalista e sua família diante do incêndio suspeito ocorrido na casa e sede do jornal.

“Em um momento de tamanha comoção pública, que o país todo enfrenta o seu maior desafio para salvar vidas, é inaceitável e de profunda indignação e tristeza presenciar atitudes como essas”, diz comunicado em nome do prefeito Fernando Cunha (PSD) e secretariado.

A administração informou ainda que vai acompanhar a investigação policial. “O município acrescenta que diante da suspeita de o incêndio ter sido criminoso, devido às características da ocorrência, a prefeitura acompanhará a investigação da polícia e irá colaborar no que for necessário para a elucidação dos fatos.”

O caso está sendo investigado pela Polícia Civil. Imagens de câmeras de segurança na região do jornal estão sendo analisadas para tentar chegar ao autor do crime.

Imagens de uma das câmeras mostrou um homem alto e branco chegando ao local em uma moto preta e azul. "Temos essa informação, mas a polícia está atrás de outras", disse o jornalista.

Arantes estimou que o prejuízo —porta danificada, pintura e móveis— será de R$ 3.000 a R$ 4.000. "Mas o maior prejuízo foi o trauma que minha neta vai levar para o resto da vida. Dediquei minha vida inteira à sociedade e quero seguir fazendo isso. Só se me matarem [para não seguir]", disse.

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