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CPI da Covid congresso nacional

CPI erra ao bater palma para garoto-propaganda do bolsonarismo dançar

Hang simboliza falta de capacidade da política em lidar com o fenômeno que explodiu em 2018

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São Paulo

Até 2018, Luciano Hang era um ilustre desconhecido associado, quando muito, à rede de absurdas cópias da Estátua da Liberdade em frente às suas lojas —ou seria vice-versa?

Nesta quarta (29), o empresário sentou-se à bancada da CPI da Covid para ser devidamente grelhado. Afinal, trata-se talvez do ápice de uma nova espécie que surgiu no país e explodiu no pleito de três anos atrás: o bolsonarista-raiz.

Hang segura cartaz pedindo "liberdade de expressão" ao bater boca com senadores
Hang segura cartaz pedindo "liberdade de expressão" ao bater boca com senadores - Pedro Ladeira/Folhapress

Tudo estava colocado para o evento: sua responsabilidade como divulgador de fake news na pandemia e fora dela, o relacionamento com a rede de influenciadores digitais do bolsonarismo, a relação macabra do episódio da morte de sua mãe com o escabroso escândalo da Prevent Sênior.

Hang não se fez de rogado. Dispensável considerações estéticas sobre um personagem que se veste como o Zé Carioca da Disney, mas há algo mais na sua indumentária: ela encarna o patriotismo banal e histriônico dos aderentes de sua seita.

Pois o comportamento do bolsonarista-raiz em nada difere de um fervor religioso ante seu líder, como esmiuçado pelo psiquiatra britânico Anthony Storr no pequeno clássico "Pés de barro - Um estudo sobre gurus" (1996).

E parte integrante da identidade do grupo é a absorção de símbolos nacionais, uma perversão usual de quem é autoritário e busca legitimidade.

Assim, o terno verde brilhante e a gravata amarela de Hang falam sobre uma versão "self-made man" da legião de "tiozões do zap" com camisa da CBF que foram ignorados pela alta política até entregarem Jair Bolsonaro ao país na urna hoje rejeitada.

Claro, o presidente foi eleito por outros fatores que vão do fastio de 2013 à antipolítica lava-jatista, mas central em sua mística autoconcedida de "mito" está justamente o exército de Hangs, mais ou menos bem-sucedidos financeiramente.

Não é casual que Bolsonaro busque sempre que possível agradar a esses 15% do eleitorado, acrescidos de mais ou menos gente, mesmo que isso signifique ter de recuar após ter rompido com a legalidade no 7 de Setembro. Sem eles, não há sonho de segundo turno que se sustente.

Com tantos elementos à mão, a CPI se embananou, assim como a política tradicional não soube lidar até hoje com o fenômeno do bolsonarismo. Porque é fácil chamar um sujeito de maluco, mas mais fácil ainda é bater palma para ele dançar.

E Hang aproveitou-se disso. O empresário dava respostas repetidas, às vezes cândidas, às vezes evasivas, provando a eficácia da linha narrativa segundo a qual tudo na vida não passa, bem, de narrativa. Até brincar como seu apelido nas redes ("Véio da Havan") ele brincou.

O depoente tratou os senadores com um desdém limítrofe, como o cartaz pedindo "liberdade de expressão" que levou como se fosse um paladino da causa e não um suspeito de estimular justamente o contrário.

Mal embasados tecnicamente, os senadores não exploraram as ligações do empresário com as redes bolsonaristas além da superfície. O discurso segundo o qual Hang é corresponsável por mortes na pandemia é para convertidos, assim como a negação disso é lei para seus aliados.

O mais foi o show usual da CPI, que serve tanto à formação das tais narrativas de lado a lado quanto à certeza de que a comissão deu um tiro longe do alvo.

A própria razão inicial da convocação do empresário, a divergência acerca do que aconteceu na morte de sua mãe, não era exatamente um tema tão vital assim. Dá audiência, mas mesmo com o elo com o caso da Prevent tinha fragilidades.

O fato é que a teatralidade, de resto normal em qualquer CPI, pode ter se esgotado como recurso da comissão. Ela já prestou um grande serviço em organizar o bestiário da tragédia da pandemia sob Bolsonaro, mas ao tentar um troféu verde-amarelo para ilustrá-lo acabou perdendo o foco.

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