Descrição de chapéu Vida cultural na pandemia

Junto à ciência, cultura será fundamental para transição ao pós-pandemia

Debatedores ressaltam o hibridismo físico e virtual, a ampliação do público e a esperança na arte

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

O cenário ainda é incerto para previsões sobre a cultura no mundo pós-pandêmico, mas quem trabalha na área diz que é possível enumerar aprendizados que vieram para ficar. A capacidade de democratização dos conteúdos culturais por meio da internet e a valorização da arte como aliada da saúde mental são dois dos principais.

"Temos que encontrar uma sinergia entre a vibração e o afeto presentes em um evento físico com a possibilidade que a internet proporciona de falar para o mundo", resume o pernambucano Julio Ludemir, diretor da Flup (Festa Literária das Periferias).

Ele foi um dos participantes do webinário Vida Cultural na Pandemia e no Pós-pandemia, realizado pela Folha e pelo Itaú Cultural na terça-feira (15).

O neurocientista Sidarta Ribeiro afirma que, ao lado da ciência, arte e cultura formam a trinca que pode ajudar na superação da crise sanitária. "Observo que as pessoas que se voltaram para o seu mundo interior com a cultura, sejam livros, músicas ou filmes, estão com mais saúde mental. A arte é curativa."

Ele acrescenta, porém, que pesa o desafio de socializar os bens culturais. "Estamos em uma inércia de achar que tudo deve girar em torno de um único eixo: o capital. Se dá lucro, é bom. Enquanto for assim, estaremos afundando."

Julio Ludemir acrescenta que, da própria cultura, pode vir o impulso para a reparação de desigualdades. O produtor cultural ressalta a emergência de escritores e pensadores negros que trazem para o centro do debate uma narrativa antirracista. "É algo incontível o que está acontecendo."

Neste ano, a Flup homenageou duas escritoras negras: Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez. A nona edição da festa literária foi realizada virtualmente.

O diretor afirma que a principal característica de um festival, o encontro, foi perdida. Ainda assim, a possibilidade de fazer oficinas para brasileiros de todos os estados e gravar participações internacionais, como de Lisboa e Paris, compensou a perda.

Outro festival, mas de grandes proporções, também já pensa em como incorporar o que foi catalisado pela crise sanitária. Pela primeira vez em 35 anos, o Rock in Rio teve que adiar uma edição devido à pandemia.

A edição de Lisboa, marcada para 2020, será em junho de 2021 —três meses antes da data do festival no Brasil, em setembro.

A vice-presidente do Rock in Rio, Roberta Medina, diz que duas novas arenas e outras novidades estão sendo estruturadas para inovar a experiência de quem for à Cidade do Rock.

"A aceleração do uso das tecnologias está nos fazendo pensar em como evoluir a experiência de quem está longe. Queremos permitir que o público vivencie mais do festival dentro de casa."

Ela afirma que a expectativa é de que o festival ajude a celebrar a passagem para um período pós-pandêmico. "Vemos o potencial de que o Rock in Rio 2021 seja um reencontro e uma celebração da vida."


ASSISTA AOS DEBATES DO SEMINÁRIO:


Além dos aprendizados que beneficiam os consumidores, os participantes do webinário destacam aqueles obtidos pelos profissionais da cultura.

A atriz e produtora Maria Bopp diz que o momento foi uma janela para que atores experimentassem um papel criativo. Ela se refere à possibilidade de, nas redes sociais, criarem suas próprias performances, roteiros e personagens, em busca de um nicho de público interessado.

"Muitas vezes ficamos em um lugar de espera, por um teste cair no colo. A pandemia colocou um desafio: se os trabalhos não vêm até mim, como faço para me reinventar e continuar exercendo meu ofício?", explica.

Além de ter protagonizado a série "Me Chama de Bruna", sobre Bruna Surfistinha, e outros trabalhos no Brasil e na Argentina, Bopp criou o canal "Blogueirinha do Fim do Mundo", pouco antes do início da pandemia no país. De 30 mil seguidores, o canal saltou para 600 mil. "Usei minha indignação para falar de maneira sarcástica sobre política."

O painel foi mediado pelo diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.