Descrição de chapéu Vida cultural na pandemia

Acesso a eventos culturais aumenta na pandemia, mas desigualdade persiste

Lives possibilitam democratização, mas conectividade à internet ainda é problema para os mais pobres no Brasil

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Artur Búrigo
Florianópolis

Os eventos online durante a pandemia democratizaram o acesso à cultura, mas também explicitaram a desigualdade em relação à conectividade na sociedade brasileira.

Essa foi uma das conclusões do webinário Vida Cultural na Pandemia e no Pós-pandemia, realizado pela Folha e pelo Instituto Itaú Cultural, na terça-feira (15).

Em pesquisa realizada pelo Datafolha e Itaú Cultural, 67% dos entrevistados disseram ter percebido maior democratização no acesso à cultura no ambiente virtual.

Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha, aponta que a pandemia aprofundou desigualdades na sociedade brasileira, mas as atividades culturais online serviram como uma forma de alento para o fardo do distanciamento social. "Mesmo nos segmentos que não tinham o hábito de acessar conteúdos culturais, existe agora uma forte demanda", diz Janoni.

Ele ressalta que, nas classes D e E, praticamente dobra a intenção em continuar a consumir programação cultural em relação ao hábito que tinham antes da pandemia.

Para Fabio Malini, professor da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e especialista em redes sociais e ciência de dados, o setor cultural assumiu um papel ainda mais relevante na sociedade no início da pandemia, como um agente de coesão social, se transformando em uma alternativa aos encontros presenciais.

Mas, com o passar dos meses e a queda nos índices de isolamento social, ele afirma, as atividades culturais online que atingiam grandes audiências foram ficando mais escassas, o que impactou a saúde mental das pessoas.

"Em julho e agosto, enquanto havia estresse com o pico de casos de coronavírus no país, as lives que geravam confraternização de muitas pessoas diminuíram. Isso gerou um problema de crise psicológica contínua, com ausência de cultura de massa nos ambientes físico e virtual".


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Para aderir ao movimento de popularização das apresentações virtuais, a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) publicou as produções de seu acervo digital nas páginas da instituição.

Os vídeos chegaram a mais de 13 milhões de pessoas, inclusive de locais e estratos sociais que não costumavam frequentar os concertos presenciais.

"A transição para o digital obrigou a Osesp a repensar alguns conceitos, como o formato, que tipo de público queremos atingir e a duração dos concertos, assim como o repertório", afirma Marcelo Lopes, diretor-executivo da Fundação Osesp.

Ele ressalta os problemas da transição da música clássica para o online. "Em uma sala de concerto, cada pessoa interage com o som de uma forma. No ambiente virtual, com o olhar muito dirigido, há perda de parte desse encanto."

Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, o maior evento de cultura negra da América Latina e que foi realizado de forma virtual neste ano, chama a atenção para a desigualdade entre as transmissões ao vivo.

Ela aponta que, ao contrário das lives superproduzidas de cantores famosos, muitos artistas não tinham a estrutura necessária para transmitir um evento cultural de suas casas.

"Os artistas negros foram obrigados a migrar para o online, mas muitos não conseguiam acessar a internet com qualidade ou ter um dispositivo para produzir os conteúdos", afirma.

Barbosa também é fundadora do Preta Hub, que durante a pandemia forneceu apoio financeiro e psicológico para empreendedores negros do setor criativo e artistas negros criadores de conteúdo.

Alessandro Janoni, do Datafolha, afirma que, apesar dos eventos online eliminarem barreiras econômicas, como o custo dos ingressos, alimentação e transporte, ainda há uma parcela da sociedade excluída do ambiente virtual.

"O acesso à internet é diário para 52% dos integrantes das classes D e E, enquanto os das classes A e B, quase na totalidade, usam a rede diariamente", diz.

A mediação foi feita por Marcos Augusto Gonçalves, editor da Ilustríssima.

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