Cresce a tolerância das empresas com bobagens nas redes

Ataques pessoais e preconceitos são imperdoáveis, mas um nude vazado pode passar batido, dizem recrutadores

Edson Aran
São Paulo

As empresas estão muito mais tolerantes do que já foram com aquilo que seus funcionários, ou futuros funcionários, postam na internet. 

“As redes sociais têm um espaço que é particular, e as coisas mostradas ali não necessariamente implicam em atitudes ruins no ambiente de trabalho”, diz Beatriz Freitas Maluf, diretora da Vereda RH, empresa que prospecta jovens talentos para o mercado.

“Um nude pontual não é suficiente para restringir um processo seletivo, assim como uma fala machista dentro de um volume grande de informações dificilmente será determinante”, afirma.

“Mas se isso for uma prática, o candidato pode, sim, ser reprovado e, se causar incômodo ao processo de seleção, isso será abordado de forma direta com ele”, completa a especialista.

Ilustração para Sobretudo Carreiras
Savron

Paula Traldi, da Blossom Consulting, empresa de coaching e cultura organizacional, discorda em partes: “Não se deve mandar nudes nunca! Nem se a pessoa for milionária e não precisar trabalhar nunca mais.”

Ana Carla Guimarães, gerente de recrutamento da Robert Half, empresa californiana de Recursos Humanos fundada em 1948, lembra que houve uma imensa transformação no mercado de trabalho nos últimos anos. “As conexões são mais ágeis e fáceis graças ao progresso tecnológico.”

De fato, basta um clique para espalhar um currículo via email ou conseguir acesso rápido a profissionais, empresas e oportunidades via redes sociais de negócios. 

Mesmo redes pessoais, como Twitter, Facebook e Instagram, podem ser uma ferramenta para expor trabalhos e ideias. A contrapartida é que a vida digital do usuário também fica exposta para as empresas que podem contratá-lo.

Seus vídeos vexaminosos no YouTube, seus nudes compartilhados no WhatsApp e seus furiosos embates políticos no Twitter estão disponíveis para todo mundo ver. 

Paula Traldi observa que as redes sociais apenas evidenciam um comportamento pessoal que já existia antes.

Ela lembra a história de um executivo brasileiro que era candidato a uma posição diretiva em uma grande multinacional francesa.

Os empregadores europeus vieram ao Brasil apenas para formalizar a contratação com um almoço, porque o assunto estava praticamente resolvido. Foi quando o brasileiro decidiu destratar um garçom na frente dos futuros patrões. A amizade acabou aí e o emprego também.

A justificativa dos franceses foi simples: “Se ele faz isso na nossa frente, imagina o que não fará com nossos funcionários quando não estivermos por perto”.

Paula Traldi acrescenta um cuidado. A rede social de um profissional pode ser bisbilhotada até para que as informações do currículo do candidato sejam confirmadas.

“Se ele diz que morou em Londres, o empregador pode verificar as postagens dele em determinado período”, explica ela. 

Beatriz Maluf acrescenta que ataques pessoais e bullying, mesmo quando limitados às redes sociais, são sempre danosos e perigosos. “É preciso ter muito cuidado para não se manifestar de forma agressiva”, afirma. 

O que jamais será perdoado e certamente assombrará a pessoa até o fim dos seus dias é uma postagem que evidencie preconceito de cor ou de gênero. Um deslize talvez passe batido, mas a reincidência vai causar danos irreparáveis.

“Um comportamento repetitivo é complicado, principalmente se o candidato almeja um cargo onde irá liderar pessoas”, afirma a diretora da Vereda RH.

Ana Carla Guimarães, da Robert Half, concorda: “O mundo corporativo está cada vez mais preocupado com a diversidade, e a pessoa alienada desses temas será penalizada em algum momento”, diz. 

“Pessoas em posição de liderança precisam saber interagir com equipes com grande nível de diversidade, porque é o que as empresas buscam”, diz Beatriz Freitas Maluf.

O problema, identificam as especialistas, é que a geração que nasceu nos anos 1980 e amadureceu junto com a internet cresceu cercada de imagens, mas parece incapaz de filtrá-las de maneira apropriada.

E as redes sociais alcançaram, hoje, o que nenhuma distopia totalitária conseguiu: todo mundo virou promotor, juiz e executor. Você vigia, julga e sentencia ao mesmo tempo em que é vigiado, julgado e sentenciado.

Seria divertido se não fosse trágico: seus atuais ou futuros empregadores também estão de olho em você e os seus rastros na internet podem colocar em risco o seu emprego ou até uma eventual promoção.

​Para a gerente de recrutamento da Robert Half a pergunta-chave é: como eu quero ser visto?

“Mesmo que a empresa na qual a pessoa trabalha, ou almeja trabalhar, tenha um perfil mais liberal, a imagem de um profissional e a página no Linkedin precisam refletir como ele quer ser visto no mundo do trabalho”, diz. 

Beatriz Maluf dá uma orientação: “Escolha uma foto que possa circular no ambiente corporativo. Uma foto sem camisa ou de biquíni não é a ideal. Muitas vezes as imagens que chegam para nós nos processos seletivos são completamente inadequadas.”

Destemperos políticos públicos, cada vez mais comuns em um país rachado e conflagrado, também podem complicar a vida profissional. Opiniões firmes podem até ser uma característica positiva, segundo os recrutadores, mas convém não se posicionar como uma pessoa que cria e incentiva conflitos. 

“Uma manifestação exacerbada e inflexível pode deixar a empresa contratante insegura”, explica a diretora da Vereda RH. “Isso é diferente de uma postura assertiva, que pode ser até muito positiva se a pessoa está engajada numa causa ou presta um serviço social, por exemplo.”

“O limite entre vida pessoal e vida digital não existe mais, e é necessário que o profissional se paute na internet como se pautaria em qualquer outro lugar”, aconselha Paula Traldi, da Blossom Consulting.

E não só para evitar problemas em uma entrevista de emprego. As redes sociais são ambientes tóxicos e lugar em que julgamentos sumários (ou “cancelamentos”) são cada vez mais comuns. É uma prática autoritária e complicada, mas é assim que a internet funciona hoje em dia. 

Não significa que você deva se censurar, mas é bom lembrar que a imagem projetada no Twitter, Facebook, Instagram etc. não está dissociada do seu Linkedin. Você é uma pessoa só, e todas as suas “personas” digitais precisam fazer sentido e montar a imagem que você de fato deseja projetar.

Mas, como sempre, a info highway tem mão dupla. 

“O candidato também precisa olhar a rede social do empregador”, observa Paula. “Afinal, se a cultura da empresa não bate com os valores dele, é melhor procurar outra. Hoje em dia, a saúde mental no trabalho é uma das coisas mais importantes nas empresa”, complementa. 

Beatriz Freitas Maluf resume todo o imbróglio: “Algumas manifestações talvez devam permanecer no ambiente privado”, diz ela. “A questão é: o quanto você quer se expor e para quem?”

Os olhos do Big Brother somos todos nós e eles são implacáveis. Da próxima vez, pense um pouco antes de apertar o botão de postar.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.