Trabalho remoto revoluciona RH e impõe novas tarefas ao setor

Desafio é humanizar o ambiente online e fazer com que os colaboradores se sintam parte da organização a distância

Lisandra Matias
São Paulo

Com a crise do novo coronavírus, as empresas recorreram ao departamento de recursos humanos para adequar o home office dos funcionários, lidar com aspectos trabalhistas, aprender a mexer com novas ferramentas e garantir a produtividade mesmo a distância.

O profissional dessa área já vinha ganhando protagonismo nas companhias ao servir de apoio aos diretores nos processos de tomada de decisões estratégicas e de transformação digital das empresas. Com a pandemia, ganhou ainda mais relevância.

“As organizações tiveram praticamente que montar uma nova companhia num novo ambiente”, define Rafael Furtado, 41, líder de gente e gestão da Pearson, empresa que atua na área de educação.

Retrato de Rafael Furtado, 41, na empresa em que trabalha no setor de RH, na zona oeste de São Paulo
Rafael Furtado, 41, na empresa em que trabalha no setor de RH, na zona oeste de São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

A transposição digital, que já vinha acontecendo e sofreu forte aceleração, impacta diretamente a mudança cultural das empresas, e os profissionais de RH têm papel essencial nesse contexto.

“A adoção do home office levantou diversas questões, entre elas, como gerir remotamente e como manter o engajamento”, afirma Mariana Horno, gerente sênior de recrutamento da consultoria Robert Half. “Vários paradigmas foram quebrados, e esse legado vai permanecer.”

Um estudo feito pela consultoria aponta que 62% dos executivos brasileiros realizaram processos seletivos online durante a pandemia e 61% deles gostariam de continuar fazendo dessa forma.

Uma das profissionais que passou por essa vivência foi Katiuscia Teixeira, 30, head de gestão de pessoas na Zenvia, empresa de tecnologia que comercializa uma plataforma de comunicação multicanal com unidades em São Paulo, Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Ela conta que a companhia está em processo de expansão e, desde o início da quarentena, mais de cem pessoas foram contratadas de forma remota.

“Algumas nunca foram ao escritório e todas as experiências que estão tendo são digitais, o que nos obriga a repensar vários pontos, por exemplo, como gerar conexão com elas. Foi uma mudança visceral nas atribuições do profissional de RH”, afirma.

Entre as transformações que estão ocorrendo ela também cita as capacitações e treinamentos, que passaram a ser realizados a distância, a comunicação da equipe, que era muito baseada em reuniões presenciais, mas que agora utiliza documentos colaborativos, e os novos contratos de teletrabalho, modalidade que não existia na empresa.

Para José Carlos Figueira, diretor na consultoria Energy Group, o profissional de RH também tem o desafio de levar humanização para o ambiente digital e incutir o sentimento de pertencimento nos colaboradores.

“Perdeu-se a convivência do dia a dia, no cafezinho, no corredor, e a comunicação com a pessoa sentada ao seu lado. É função do RH fazer com que as pessoas se sintam parte da organização”, diz Figueira.

Para isso, entram em cena outras habilidades, que já vinham sendo bastante demandadas do profissional. Uma delas é melhorar a chamada jornada do colaborador, de modo que ele se sinta integrado à cultura organizacional e, consequentemente, produza mais e melhor.

Outra é a capacidade de trabalhar com dados, tanto os provenientes de pesquisas realizadas com funcionários quanto indicadores internos, como horas extras e informações de desempenho. Com o distanciamento, essa é uma das formas que o RH tem de perceber o clima.

Furtado, da Pearson, diz que uma das medidas tomadas na empresa quando entrou em quarentena foi fazer uma pesquisa para se conectar com as pessoas e entender como elas estavam vivenciando o home office.

Foram avaliados o conforto com a rotina do trabalho remoto, a clareza da comunicação, o acesso a ferramentas e sistemas de trabalho e a saúde mental dos funcionários.

Em posse dos dados, algumas iniciativas foram colocadas em prática, desde arcar com custos de energia e internet e disponibilizar mobiliários aos colaboradores até criar novos canais de comunicação, como reuniões mensais com o presidente e vice-presidentes.

Também foi desenvolvido um aplicativo que monitora o nível de satisfação dos funcionários e disponibiliza, por meio de inteligência artificial, cardápios e atividades físicas personalizadas.

“Os dados nos tornam muito mais humanos. Essa é outra grande transformação pela qual o RH vem passando e, com a pandemia, ficou ainda mais evidente”, diz Furtado.

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PROFISSIONALDE RH

Formação Graduação em administração ou psicologia e pós-graduação em áreas como gestão de pessoas, gestão de projetos e desenvolvimento de capital humano

Salário inicial R$ 1.600 (assistente) e R$ R$ 6.500 (gerente)

Onde estudar Faap (pós-graduação em gestão de pessoas: desenvolvimento estratégico do capital humano), FGV (MBA em gestão estratégica de recursos humanos), FIA (pós em gestão estratégica de pessoas), Ibmec-SP (MBA em gestão e desenvolvimento de pessoas)

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