Monopólio das empresas de tecnologia acentua desinformação e abusos na internet

Reações negativas ao Google e ao Facebook desconsideram ausência de fiscalização antitruste

Greg Ip
Washington

Este foi o ano em que as grandes empresas de tecnologia tiveram de aprender a engolir críticas, e viram suas reputações maculadas e os preços de suas ações derrubados por um maremoto de indignação política, causado pelo envolvimento delas em desinformação, censura e abusos de dados de usuários.

O açoitamento em praça pública pode ser necessário e até gratificante —mas é possível que vá longe demais. 

As críticas vão se tornar cada vez mais partidárias —os republicanos se irritarão com o suposto viés progressista do Google e os democratas ficarão furiosos com o Facebook por cumplicidade na manipulação de eleições. Com isso, cresce o risco de intervenções que não resolverão o problema subjacente nesse campo: a falta de competição.

Considerem as mais recentes revelações sobre a difusão de conteúdo manipulatório por agentes russos, que usaram Facebook, Twitter e Google. A interferência política é uma questão séria de política externa, mas os protestos parecem desproporcionais. 

O conteúdo vinculado à Rússia é minúsculo se comparado ao conteúdo total da mídia social, e empalidece ante a cobertura da mídia tradicional, e a propaganda política que a acompanha. 

O Twitter estima que esse tipo de conteúdo tenha respondido por apenas 0,5% das impressões totais de tuítes relacionados à eleição de 2016.

É improvável que isso tenha mudado quaisquer votos, dada a tendência humana de usar a internet para confirmar vieses. “Sempre houve desinformação e trapaça na política. E sempre haverá”, disse Brendan Nyhan, professor na Universidade do Michigan e um dos coautores do estudo. 

Que fiscais sancionados pelo governo decidam que conteúdo será removido cheira a censura. Mesmo censores autoindicados, como a “Suprema Corte” proposta por Mark Zuckerberg para decidir casos sobre retórica do ódio no Facebook, sucumbiriam a vieses políticos, por mais bem intencionados que sejam.

Os argumentos em favor de regulamentação das normas de privacidade são um tanto mais fortes. Existe um conflito evidente entre a privacidade do consumidor e os modelos de negócios de empresas como Google, Facebook, Twitter e, cada vez mais, a Amazon, que reúnem o máximo possível de informações e em seguida as monetizam.

Em coluna recente, Alec Stapp, do Niskanen Center, uma organização libertária de pesquisa, apontou que cerca de dois terços dos americanos não ligam muito para a privacidade. O risco é que uma reação motivada pela busca de proteção ao terço restante resulte em privações de serviços valiosos.

Centenas de empresas concorrem para colocar anúncios em sites da web e recolher dados sobre seus usuários, lideradas pelo Google, Facebook e suas subsidiárias. O Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Europeia, que entrou em vigor em maio, impôs requisitos severos a essas empresas.

Depois que a lei entrou em vigor, o software de rastreamento do Google apareceu em um número um pouco mais alto de sites, o do Facebook em 7% a menos, e os rastreadores de empresas menores tiveram sua presença reduzida em 32%, de acordo com a Ghostery, que desenvolve tecnologias que reforçam a privacidade na Web.

O efeito inicial da regra foi firmar o duopólio publicitário do Google e Facebook. Isso é um problema, porque esse domínio é a raiz da controvérsia que envolve as duas empresas. 

Os supostos vieses progressistas do Google não estariam em questão se os conservadores dispusessem de uma alternativa viável, como acontece no segmento dos canais de notícias de TV a cabo. 

Consumidores preocupados com a coleta de grande volume de dados sobre eles pelo Facebook não podem trocá-lo pelo Instagram ou WhatsApp, já que as duas empresas são propriedades do Facebook.

Além disso, existem crescentes indicações de que essas empresas usam seu tamanho para sufocar a concorrência. Emails divulgados por um comitê do Parlamento britânico mostram que o Facebook decidia o acesso que outras empresas teriam à sua plataforma com base em seu grau de ameaça como concorrentes. 

Um estudo publicado pela escola de administração de Harvard constatou que a Amazon analisava os produtos comercializados por outros comerciantes em sua plataforma, em busca de itens mais vendidos que os seus e mais bem classificados pelos compradores, e tentava passar a vendê-los diretamente. 

Isso beneficia os consumidores mas prejudica o crescimento de comerciantes externos. Se há uma área que precisa de intervenção governamental é a seguinte: uma fiscalização antitruste muito mais poderosa. 

“Google, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft... somados compraram mais de 436 empresas estabelecidas e startups nos 10 últimos anos, e as autoridades regulatórias não contestaram nenhuma dessas transações”, escrevem Jonathan Tepper e Denise Hearn em “The Myth of Capitalism: Monopolies and the Death of Competition” [o mito do capitalismo: monopólios e a morte da competição].

 “Ou as empresas jovens aceitam ser tomadas ou terminam impiedosamente esmagadas.” 

Traduzido do inglês por Paulo Migliacci 

The Wall Street Journal

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