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Descubra tesouros medievais na região de Castela e Leão, na Espanha

Províncias no noroeste do país são cheias de construções góticas e românicas

Bianka Vieira
Castela e Leão

Ir a Castela e Leão pode significar uma viagem a uma Espanha pregressa, marcada por grandes reinados, ou a um presente luxuoso, no qual mosteiros e palacetes são transformados em hotéis cinco estrelas. 

Estabelecida em 1983, quando houve a união dos territórios que compunham os reinos de Castela e de Leão, coroas fundantes para a formação da Espanha, a região costuma ficar fora de roteiros tradicionais. Só 20 mil dos 560 mil brasileiros que visitaram o país em 2018 passaram por lá, segundo o Instituto Nacional de Estatística espanhol.

Localizada no noroeste da Península Ibérica, Castela e Leão é composta por nove províncias (Ávila, Burgos, Leão, Palência, Salamanca, Segóvia, Soria, Valladolid e Zamora) e ocupada por construções góticas e românicas que remetem aos primeiros séculos da Baixa Idade Média, auge da dominação do catolicismo na Europa Ocidental. 

Para quem sai de Madri, a primeira parada é o município rural Santo Domingo de Silos, que está a duas horas de carro da capital espanhola —alugar um veículo é essencial, já que não há trem ou ônibus disponíveis em alguns municípios. 

Na entrada da cidade, um cemitério, uns crucifixos ladeando a estrada e a ausência de pessoas produzem um cenário de lugar abandonado que pode espantar forasteiros, mas vale a pena insistir no caminho. Mais adiante, no centro do vilarejo, uma pequena praça reúne bares, cafés e o hotel Tres Coronas de Silos, um palácio de estilo barroco construído em 1745. 

Mesmo para não hóspedes, a parada é valiosa pelo almoço: cordeiro assado, morcilla de Burgos —embutido feito com arroz, sangue e gordura do porco— e chorizo (tipo de linguiça) estão entre os pratos oferecidos por Emeterio Martín, 45, que, além de comandar o forno a lenha do hotel, é o prefeito da cidade pela quarta vez consecutiva. 

O grande atrativo do local é o Mosteiro de Santo Domingo de Silos. Embora a parte mais relevante de sua construção date do século 10º, sua fundação se deu no século 7º, período de dominação visigótica.
Inicialmente conhecido apenas como Silos, o nome do vilarejo ganhou um complemento após a chegada de Domingo (1000-1073), monge canonizado em 1076. Desde então, o lugar tornou-se ponto de peregrinação. 

O claustro do mosteiro é um dos símbolos da arte românica. Sua planta retangular, edificada em dois andares, traz ao centro um jardim quadrado, ladeado por arcos e colunas. Seus capitéis possuem desde personagens mitológicos, como sereias e dragões, até flores e passagens da Bíblia. 

Os monges do Mosteiro de Santo Domingo de Silos seguem à risca a orientação beneditina “ora et labora” (do latim, orar e trabalhar). Em um dia, oito horas são separadas para orar, oito para trabalhar e as restantes são usadas para fazer refeições, dormir e executar outras atividades. 

A uma hora do município de Santo Domingo de Silos fica Burgos, cidade que é a capital da província de mesmo nome. Ali nasceu o antigo reino de Castela, atravessado pelos rios Duero e Ebre. 
Situada a 900 metros de altitude, Burgos tem invernos rigorosos que podem chegar a -12ºC e verões com temperaturas próximas aos 39ºC. Nos arredores da praça Maior, árvores nas margens do rio Arlanzón convidam a um passeio de bicicleta ou caminhada. 

Há opções de restaurantes e cafés para todos os orçamentos, mas a variedade de pratos é pequena —quem não gosta de carne suína pode ter um pouco de trabalho. 

Se por acaso o restaurante oferecer um “helado de oliva” (sorvete de azeitona) como entrada, esqueça o sabor do fruto em conserva e não faça cara feia: apesar de inusitado, o prato é muito saboroso.
Na praça Santa Maria está a protagonista da província, a Catedral de Burgos, terceira maior da Espanha. Seus 12.276 metros quadrados, duas vezes o tamanho da Catedral da Sé de São Paulo, impressionam. Em 1984, o prédio foi declarado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. 

O local traz histórias, obras de arte e marcas arquitetônicas dos três séculos em que foi construído, entre 1221 e 1539. Entre os destaques estão o quadro de Leonardo da Vinci (1452-1519) “Santa María Magdalena” e os restos mortais de Rodrigo Díaz (1043-1099), cavaleiro do reino de Castela conhecido como “El Cid”, eternizado pelo filme de 1961 dirigido por Anthony Mann.

Em seu interior há 17 capelas, todas decoradas com muito ouro. Por € 7 (R$ 32), é possível usar audioguias em espanhol, inglês e francês. 

Próximo à catedral está uma passagem do caminho Francês, um das rotas de peregrinação que levam a Santiago de Compostela. O trajeto, que tem seu ponto de partida na cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port, ao sul da França, tem 800 km de extensão.

A 600 metros da Catedral de Burgos está o Museu da Evolução Humana, inaugurado em 2010, com arquitetura contemporânea e uma fachada de vidro que reflete a cidade. Os ingressos custam € 6 (R$ 27).

Em seu acervo há o crânio daquele que é conhecido como Miguelón, fóssil de mais de 400 mil anos. Miguelón, um Homo heidelbergensis, é o crânio de ancestral humano mais completo já encontrado. 

A peça, assim como outras expostas no museu, foi localizada em 1978 no sítio arqueológico de Atapuerca, a 15 km da capital Burgos. Em 1986, pesquisadores encontraram no local gravuras e vestígios do assentamento humano mais antigo da Europa, que data de 800 mil anos atrás. 

O sítio arqueológico também está aberto à visitação. As tarifas para o tour guiado vão de € 5 a € 6 (R$ 23 a R$ 27).

A pouco mais de uma hora da província de Burgos está Valladolid. Em Peñafiel, um de seus vilarejos, quase não se vê movimento nas ruas, mas é possível visitar um castelo medieval do século 10º construído em calcário. 

Projetado para fins militares, o prédio foi estratégico para o controle de fronteiras quando cristãos e muçulmanos disputavam territórios da Península Ibérica.

Armaduras de cavaleiros medievais e brasões decoram os cômodos estreitos do Castelo de Peñafiel. Conta-se que o aperto foi pensado para dificultar a fuga de inimigos que invadissem o lugar. Não se aventure sem uma visita guiada, que custa € 3,30 (R$ 15).

O castelo é também o lar do Museu Provincial do Vinho, aberto em 1999. Assim como nas demais províncias de Castela e Leão, o vinho é a atividade mais importante de Valladolid. Várias marcas são certificadas com o selo de Denominação de Origem, o qual fixa normas para o cultivo das uvas e preparo da bebida.

Em Peñafiel ainda é possível ver vestígios da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte, quando soldados saquearam igrejas e abriram sepulturas em busca de objetos de valor. Um símbolo dessa guerra é o túmulo do escritor Don Juán Manuel, sobrinho do rei de Castela Afonso 10º: a estátua e a tampa de mármore que protegiam os restos mortais estão fragmentadas desde as investidas napoleônicas.

A 40 quilômetros de Peñafiel fica a cidade de Vallodilid, capital da província de mesmo nome, onde a paisagem desértica e interiorana dá lugar ao vaivém dos carros.

Atual capital de Castela e Leão, foi em Valladolid onde nasceu Filipe 3º (1578-1621), simultaneamente rei da Espanha e de Portugal ao fim do século 16, e onde viveu por três anos Miguel de Cervantes (1547-1616), autor de “Dom Quixote”.

No centro da cidade, o rio Pisuerga foi transformado em praia na década de 1950. Uma faixa de areia é ocupada por locais que tomam banho de sol e praticam esportes. Do outro lado do rio, prédios contemporâneos marcam a paisagem e indicam uma cidade em processo de expansão. 

São muitas as mudanças que disputam os espaços históricos de Castela e Leão. A partir dos anos 2000, hotéis de luxo começaram a ocupar mosteiros e palacetes. 

É o caso do hotel Paradores da cidade de Lerma, instalado onde antes era o palácio do Duque de Lerma (1553-1625), erguido no século 17. Uma noite no palacete não sai por menos de € 1.300 (R$ 5.963).

Em Burgos, a Abadia de Santa Maria, mosteiro do século 12, deu lugar ao Mosteiro Castilla Termal Valbuena em 2015. No spa, o hóspede pode desfrutar de águas captadas a 386 metros de profundidade na zona termal do hotel. 

Em alta temporada, uma diária no mosteiro custa a partir de € 3.000 (R$ 13.762). 

A jornalista viajou a convite do Escritório de Turismo da embaixada da Espanha

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