Rússia e Cuba pretendem oficializar turismo de vacina

Países afirmam que imunizarão viajantes no futuro; EUA atraem estrangeiros em busca de vacinação irregular

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São Paulo

Conforme a vacinação contra a Covid-19 avança pelo mundo, abre-se espaço para uma discussão sobre o chamado turismo de vacina: viajar até um país com imunização avançada e que ofereça as doses a viajantes, ser inoculado e voltar.

A modalidade ainda é incipiente, com alguns lugares prometendo vacinar turistas estrangeiros em um futuro próximo, sem fornecer mais informações, e outros negando, ao menos oficialmente, relatos de que a prática seria possível em seu território para quem pode pagar.

A Praça Vermelha, em Moscou, em 30 de março de 2020, durante lockdown, e na mesma data em 2021 
A Praça Vermelha, em Moscou, em 30 de março de 2020, durante lockdown, e na mesma data em 2021  - Dimitar Dilkoff/AFP

Mas há promessas. O perfil oficial da Sputnik V, vacina desenvolvida pela Rússia, por exemplo, postou na quinta-feira da semana passada (1º) que sua missão era “salvar vidas e trazer de volta a normalidade ao mundo” e que seus seguidores nas mídias sociais serão os primeiros convidados a se vacinar no país, junto com uma imagem instando estrangeiros a ir à Rússia atrás das doses.

Apesar da data, a postagem afirma que sua mensagem não é piada de Primeiro de Abril. Ainda assim, o perfil apenas diz que o programa deve começar em julho.

Uma agência de turismo norueguesa, a World Visitor, já oferece pacotes para que seus clientes tomem na Rússia as duas doses da Sputnik V. Os pacotes custam entre US$ 1.400 e US$ 3.500 (R$ 7.820 e R$ 19.550).

O problema é que as fronteiras do país ainda estão fechadas para a grande maioria dos países do mundo, incluindo os europeus, mas, segundo reportou a Deutsche Welle, o Kremlin parece querer incentivar as viagens, e a primeira seria a de um grupo de 40 alemães que tomariam a primeira dose nesta quinta (8).

Cuba, que praticamente vive do turismo, também sinalizou que pode oferecer a Soberana 2, sua vacina, a estrangeiros em férias na ilha.

O imunizante está nas fases finais de testes e não se sabe quando o país caribenho de fato adotará a política.

Enquanto alguns destinos prometem a vacinação de turistas, outros negam a prática.
No início do ano, o britânico The Telegraph relatou que ricos com mais de 65 anos estariam conseguindo, via um clube de iate baseado em Londres, viajar para Dubai e para a Índia para tomar a vacina.

Mas há dúvidas se isso de fato ocorreu. Outros veículos, como a Deutsche Welle, relataram, ouvindo agentes de viagem, que a história não procederia.

Oficialmente, Emirados Árabes Unidos e Índia estão vacinando apenas seus residentes.
Pessoas bem conectadas com a elite do emirado, porém, assumiram ter se deslocado até lá para tomar a dose. Entretanto, isso não aconteceu por meio de um pacote de turismo, e sim por causa de sua rede de relacionamento.

Com a vacinação avançada no Reino Unido, que pretende imunizar todos os adultos até o fim de julho, é improvável que britânicos busquem a solução atualmente.

Os Estados Unidos, que planejam vacinar 200 milhões de pessoas até 30 de abril, também atraíram viajantes para tomar a vacina.

Na Flórida, por exemplo, o turismo de vacinação ocorreu no início do ano. Como o estado não exigia prova de residência para aplicar as doses (o único critério então era ter mais de 65 anos), americanos de outros lugares e até estrangeiros aproveitaram a oportunidade para tomar a picada no braço.

Após reportagens apontarem a prática, e a consequente pressão de moradores, o estado prometeu, no fim de janeiro, apertar a fiscalização, administrando as doses apenas a residentes.

O Consulado-Geral do Brasil em Miami diz que “brasileiros a turismo, em tese, não conseguem ser vacinados, mesmo os que fazem parte dos grupos prioritários”.

O órgão diz ainda que recebeu poucas consultas de brasileiros sobre o tema, e que sempre os orienta a entrar em contato com as autoridades de saúde locais.

Na prática, entretanto, estrangeiros sem residência conseguem se imunizar, diz Daniel Toledo, advogado brasileiro especialista em imigração, que mora no estado.

“A gente vê muitos casos de estrangeiros vindo para cá para se vacinar. O único critério que exigem, na prática, é o de idade. Basta apresentar um documento”, afirma ele.

Ainda de acordo com o advogado, mesmo pessoas mais jovens do que as faixas etárias elegíveis para a imunização, também independentemente do seu status, conseguiam vacinas remanescentes dos postos —prática que ganhou o apelido de xepa no Brasil.

Ele diz que a situação de só precisar apresentar um documento pessoal para se vacinar é a mesma em outros dois estados em que seu escritório atua, Texas e Michigan.

De acordo com o site do departamento de saúde da Flórida, todos os moradores com mais de 16 anos podem tomar a vacina desde segunda (5). Não há menção sobre turistas.

Para Luiz Trigo, professor do departamento de turismo da USP, a vacinação de turistas não é a melhor solução, mas acaba auxiliando.

“É bom porque se esse pessoal rico for para lá tomar vacina, também ajuda na nossa imunidade de rebanho. É a solução do canalha, mas ajuda de alguma forma.”

Com ou sem a chance de tomar a picada, brasileiros seguem precisando passar por quarentena de 14 dias num terceiro território antes de entrar nos Estados Unidos. O México é uma opção.

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