Salvador esconde Caribe em miniatura nas ilhas da Baía de Todos os Santos

Com acesso difícil, praias de água morna aparecem pouco nos roteiros turísticos

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A Ilha dos Frades, na Bahia, recentemente teve seu patrimônio histórico restaurado pela Fundação Baía Viva, que facilitou a instalação de restaurantes e pousadas no local Divulgação

São Paulo e Salvador

Corumbau, Caraíva, Trancoso, Porto Seguro, Comandatuba, Itacaré, Barra Grande, Boipeba, Morro de São Paulo, Praia do Forte, Costa do Sauípe: o que não falta na Bahia é praia. Com 932 km de extensão, é natural que o maior litoral do Brasil ainda tenha uma ou outra joia pouco conhecida. O estranho é que algumas dessas praias lindas e quase secretas estejam em Salvador.

Um Caribe em miniatura fica nas águas limpas e translúcidas da Baía de Todos os Santos, que banham a capital. A baía tem 56 ilhas, mas só em uma delas, Itaparica, o turismo é uma atividade relevante. As 55 restantes, como a belíssima Ilha dos Frades, apenas começam a se preparar para receber veranistas.

Apesar da incontestável beleza e da ocupação muito antiga —a baía foi navegada por Américo Vespúcio, a serviço de Portugal, em 1501–, o conjunto de ilhas nunca se equipou para o turismo. O acesso é difícil, devido à falta de linhas regulares de barcos, e não há estrutura receptiva que comporte um grande fluxo de visitantes.

Vista de dentro da capela do Loreto - Divulgação

A razão do relativo esquecimento das ilhas é a forma como elas foram ocupadas. Grandes áreas são propriedade privada da elite regional, enquanto a população de baixa renda habita vilas precárias. Até pouco tempo atrás, os que tinham dinheiro para investir não tinham interesse em receber turistas; recentemente, mudaram de ideia.

A Fundação Baía Viva (fundacaobaiaviva.org.br) trabalha em projetos e obras para melhorar a estrutura das ilhas e capacitar os ilhéus para atividades de interesse turístico. É mantida pela iniciativa privada, com parceiros do setor público. Sua atual presidente é a advogada Isabela Suarez, filha de Carlos Suarez, ex-sócio da empreiteira OAS e dono de terras nas ilhas.

As ações se percebem principalmente na Ilha dos Frades, onde a fundação restaurou patrimônio histórico e facilitou a instalação de restaurantes e pousadas. Na vizinha Bom Jesus dos Passos, foram criados corredores gastronômicos para abrigar bares e restaurantes. Nas duas, construíram-se terminais náuticos para a chegada dos visitantes.

Na Ilha dos Frades, o ponto mais bonito é uma localidade chamada Loreto. Ali há uma capela do século 17, totalmente restaurada, numa ponta que avança sobre o mar. A igrejinha é usada para celebrar casamentos cujas festas ocorrem num espaço de eventos de propriedade da família Suarez, em um casarão histórico no terreno contíguo.

Quando não hospeda eventos, o complexo fica aberto à visitação e conta com um pequeno museu mantido pela Baía Viva, com informações sobre história, geografia, fauna e flora das ilhas. O acesso ao Loreto é livre, mas não há linhas regulares de transporte para lá.

Na extremidade oposta da ilha, a Ponta de Nossa Senhora de Guadalupe concentra a incipiente estrutura turística. Lá, atracam os barcos turísticos que saem do continente pela manhã.

Trata-se de um ótimo bate-volta para o turista hospedado na parte urbana de capital baiana –apesar de ficar distante, no fundo da baía, a ilha integra o município de Salvador. A praia em frente ao vilarejo tem água calma, limpa e morna.

O visitante pode almoçar um peixe honesto num restaurante simples, ou, se quiser um programa gastronômico sério, visitar a Preta.

Preta é o apelido de Angeluci Figueiredo, fotógrafa que se tornou uma das cozinheiras mais celebradas da Bahia. Com a ajuda da Baía Viva, Preta transferiu-se da Ilha da Maré, nas proximidades, para a Ilha dos Frades.

Em um ambiente todo aberto e decorado com antiguidades colecionadas por Preta, você pode pedir uma das várias opções do mar ou fazer como fazia Jorge Amado. O restaurante prepara aquele que, segundo o colega João Ubaldo Ribeiro, era o prato predileto do escritor: o malassado. Ou a malassada. Ou mal-assado. Ou, ainda, mal-assada.

Independentemente da grafia, trata-se de uma peça grande de filé bovino, servida malpassada em molho escuro da própria carne. Na Preta, ele vem com legumes e farofa de requeijão de corte.

Guadalupe deve receber, ainda este ano, uma filial do restaurante espanhol La Taperia, de enorme sucesso no bairro do Rio Vermelho.

Se o plano é pernoitar na ilha, as melhores acomodações estão na pousada Pretoca –que, como você astutamente adivinhou, é anexa ao restaurante da Preta. A diária para casal, em apartamento com ar-condicionado, custa a partir de R$ 750. Inclui um café da manhã mais que farto: é um exagero de delícias regionais (cuscuz, tapioca, tubérculos cozidos), bolos, pães e frutas.

Casarão principal no terraço do Cerimonial Loreto - Divulgação

A algumas braçadas de distância, a Ilha de Bom Jesus dos Passos mantém a rusticidade de colônia de pescadores. Próximo ao atracadouro, a Fundação Baía Viva concentrou os restaurantes dos nativos em um corredor com instalações padronizadas.

No Cantinho da Sheila, a pedida é comer até morrer as moquecas e outras preparações baianas, gostosas e muito fartas. Exatamente ao lado, no Restaurante das Águas, a chef Vanessa Soares prepara massas, risotos e pizzas, além do repertório típico baiano.

A dificuldade de acesso segue sendo um entrave à descoberta das ilhas pelo visitante sem barco. Não há transporte regular entre Salvador, Frades e Bom Jesus.

O turista sem barco pode alugar uma lancha, o que não sai por menos de R$ 3.000 no bate-volta. Pode fazer um passeio turístico que inclua uma dessas ilhas no roteiro, com todos os percalços de um passeio turístico –quase todas as linhas incluem também Itaparica, mas há uma exclusiva para a Ilha dos Frades.

Ou, pode ir por terra até Madre de Deus, em uma viagem de 1h30 em estrada ruim a partir do centro de Salvador, e lá contratar um barqueiro.

O turista sem barco pode até burlar o sistema, mas o turismo no caribinho soteropolitano é todo voltado para o turista com barco.


ILHA DOS FRADES

Transporte

Barcos operados por agências turísticas partem do Terminal Turístico Náutico da Bahia, tel.: (71) 3241-9783. Quanto: R$ 120 (com transfer do hotel) em privetur.com.br.

Hospedagem

Pretoca Pousada

Quartos com ar-condicionado e banheiro, a partir de R$ 750 com café. No Instagram: @pretocdapousada.

Ecopousada da Lu

Cabanas de madeira com ventilador, banheiro coletivo, a partir de R$ 180 com café. No Instagram: @ecopousadarestaurantedalu.

Alimentação

Restaurante Preta

Moqueca de peixe e banana-da-terra (R$ 140, individual); malassado (R$ 125, individual).

BOM JESUS DOS PASSOS

Transporte

O traslado até a ilha é feito em embarcações pesqueiras, contratadas diretamente no terminal náutico de Madre de Deus (município a 66 km do centro de Salvador).

Hospedagem

Pousada Bomja Village

Quartos com ar-condicionado, R$ 350 com café. Tem piscina. No Instagram: @bomjavillage.

Casa do Tamarineiro

Quartos com ar-condicionado, a partir de R$ 100 por pessoa. No Instagram: @casadotamarineiro.

Alimentação

Cantinho da Sheila

Moqueca de peixe e camarão, R$ 150 (para 2 ou 3 pessoas). No Instagram: @cantinhodasheila.

Restaurante das Águas

Mariscada com siri, peixe, polvo, camarão, mexilhão, sambá galo (molusco bivalve) e peguari, uma espécie de caramujo marinho (R$ 160, para 2 ou 3 pessoas). No Instagram: @dasaguasbj.

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