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Ucrânia não levará a nova Guerra Fria, diz militar americano

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Ex-comandante supremo da Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte) até o ano passado, o almirante aposentado americano James Stavridis afirma que a Rússia usa uma estratégia militar inédita e sofisticada para desestabilizar a Ucrânia.

Atualmente pró-reitor da Escola Fletcher, o ex-comandante, no entanto, descarta uma reedição da Guerra Fria.

A seguir, trechos de entrevista concedida na quinta-feira à Folha, em São Paulo, onde assinou um acordo de cooperação com o Instituto Fernando Henrique Cardoso e foi a um simpósio na Faap:

*

Folha - O sr. defende o "poder inteligente". O que é?
James Stavridis - Os países usam uma variedade de capacidades para tentar influenciar eventos globais. Algumas vezes, usam poder militar, duro. Com mais frequência, acredito que a resposta correta seja utilizar o "poder suave", como exercícios militares de cooperação, antinarcóticos, trabalho conjunto em ações humanitárias.
O que proponho é o "poder inteligente", tentar encontrar o equilíbrio entre os poderes duro e suave. Estou convencido de que, na maior parte das vezes, é melhor inclinar em direção ao "poder suave".
Quanto mais incentivarmos países a pensar sobre suas capacidades na forma de um botão de termostato [variando entre "poder duro" e "poder suave"], há mais probabilidade de resultados.

Neste momento, o termostato da Otan está em qual ponto devido à crise ucraniana?
Está em direção ao "poder suave", mas a Rússia usou "poder duro" para invadir e anexar a Crimeia. Usa o mesmo para gerar violência e agitação no leste da Ucrânia.
Em resposta, a Otan está usando "poder suave": inteligência, cibernética, providenciando sistemas não letais, apoio financeiro para a Ucrânia. Vamos oferecer armas e munição, mas a Otan não vai usar força militar, porque a Ucrânia não é membro da organização.
Se a Rússia invadir a Estônia, um membro, o nosso indicador irá para "poder duro". Mas não acredito que a Rússia vá fazer isso.

Recentemente, o sr. disse que a Rússia estava jogando as suas cartas com "finesse".
Estava me referindo ao leste ucraniano. Na Crimeia, eles foram muito bruscos. Simplesmente enviaram forças e anexaram. No que resta da Ucrânia, têm sido muito cuidadosos. Em vez de tanques, estão usando cibernética, operações psicológicas, informação e militares especiais, por debaixo do radar. Tudo isso é para negar a sua presença. No entanto, toda a inteligência indica que eles estão de fato lá.
Isso é uma mudança do modus operandi russo?
Acredito que sim. Se você olhar o que aconteceu na Geórgia, onde os russos invadiram em 2008, eram militares agressivos e tradicionais.

Marlene Bergamo/Folhapress
O ex-comandante da Otan James Stavridis concede entrevista em São Paulo
O ex-comandante da Otan James Stavridis concede entrevista em São Paulo

O Brasil sofre críticas por não se pronunciar sobre a Crimeia.
Não vou comentar a política externa brasileira. Mas seria útil se todos os países do mundo, especialmente os muito importantes –e o Brasil é um deles–, apoiassem [a condenação à anexação].

Há muito debate sobre se a Guerra Fria está de volta.
Podemos ter um pouco de "cool war" (guerra fresca). O calor das nossas relações caiu significativamente. Mas não estamos a caminho de outra Guerra Fria. Como a nossa agenda é tão grande – Síria, Irã, Ártico, pirataria, Afeganistão–, temos de trabalhar com a Rússia.
Vamos lembrar o que era a Guerra Fria: milhões e milhões de militares com suas armas alinhados em toda a Europa se encarando. Armas nucleares. Não estamos nem perto disso.

Os EUA deram um forte apoio militar ao combate às drogas em países como Colômbia e México, com resultados frustrantes. Recentemente, há um movimento crescente em favor da legalização. Qual é a sua opinião?
Creio que seja prematuro pensar na legalização da cocaína, porque é muito viciante. A ideia de legalizar maconha está surgindo, dois Estados americanos já o fizeram.
A maconha é uma parte significativa do comércio de drogas, portanto, uma estratégia potencial deveria ser a legalização da maconha e usar isso como um experimento para ver qual efeito isso tem.
Mas é uma conversa que está acontecendo e também precisa ser parte do diálogo entre os Estados Unidos, que são o grande mercado, e outras partes do mundo. O mercado norte-americano atrai não apenas maconha e cocaína do sul [América Latina], mas também heroína, que vem do leste, da Europa.
É simplista dizer que vamos parar a guerra às drogas erradicando o plantio. É preciso atacar o problema em três dimensões. Primeiro, a demanda. É responsabilidade dos Estados Unidos diminuir a demanda e tratar as pessoas viciadas, ter um bom sistema de saúde, educar. E sei que isso é um desafio no Brasil também.
Em segundo lugar, é preciso ir atrás da zona de trânsito, onde os militares têm alguma utilidade, tentar parar enquanto a droga se move.
E, em terceiro lugar, é preciso olhar o lado da oferta. Não acho que a erradicação tenha sido muito eficiente. Sou mais favorável à substituição de cultivos, educação, criação de outros empregos.

O ditador Bashar al-Assad, com apoio da Rússia, evitou uma intervenção americana e agora está ganhando a guerra. Quais são as opções diplomáticas e militares?
Começarei dizendo que estou muito pessimista com a Síria. É uma situação muito, muito sombria. Francamente, é difícil vislumbrar uma conclusão positiva.
O melhor exemplo de uma situação comparável são os Bálcãs, que atravessaram um período de violência extrema, com talvez 100 mil pessoas mortas, 2 milhões a 3 milhões de pessoas coagidas a cruzar fronteiras.
Mas a mudança na situação veio quando a comunidade internacional se uniu, sob a ONU, e de fato a Rússia cooperou com a Otan, enviando tropas de paz.
Portanto, espero que, em algum momento, com a assistência russa, possamos criar uma tropa de paz internacional para promover a estabilidade. Infelizmente, com os eventos na Ucrânia, é menos provável que tenhamos um resultado positivo.
No momento, a melhor coisa que a comunidade internacional pode fazer é combater a crise humanitária.
Em segundo lugar, precisamos manter a pressão sobre Assad, condenar suas ações.
Terceiro, precisamos manter um diálogo com a Rússia sobre isso. No meio da nossa preocupação sobre a Ucrânia, precisamos encontrar uma forma de avançar em outros temas com a Rússia.

No Afeganistão, a maioria das tropas da Otan deixará o país até o fim do ano...
Correto. Reduziremos para 15 mil militares da Otan, dos quais 10 mil norte-americanos. É suficiente para manter uma capacidade real ao lado das forças de segurança afegãs. Há 350 mil forças de segurança afegãs, entre policiais e militares. São bem treinados, capazes.
Darei um exemplo bem prático: a recente eleição. O Taleban queria desesperadamente obstruir a eleição, mas não conseguiu nada. A eleição ocorreu muito bem: 7 milhões votaram, dos quais 3 milhões eram mulheres. Isso significa um comparecimento de 65%. Nos EUA, registramos 60% de comparecimento na eleição presidencial mais recente.
A minha preocupação não é o Taleban. Eles são bastante impopulares. Agora, poderíamos nos preocupar com as tensões entre [as etnias] tadjiques, hazaras. Essas divisões, o narcotráfico e corrupção são três desafios reais no Afeganistão. Sou cautelosamente otimista: as chances são de dois em três de um resultado bem-sucedido.

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