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Décima onda feminista vai com Dilma Rousseff, que segue sendo perseguida

É misoginia pura a desvalorização da primeira e única mulher presidente deste país feminicida

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Marilene Felinto

Espantoso o deboche, o enxovalho que continuam a praticar contra o nome de Dilma Rousseff e tantas outras, contra esse tipo de mulher-margarida, mulher que marcha por direitos, por justiça social, Marielle Franco, Elisa Quadros Sanzi, Talíria Petrone...

Quem caminha com elas precisa demonstrar, defendê-las do ataque de misoginia, marchar na #primaveradasmulheres, na Marcha das Vadias, (sim, #MeToo, sou vadia também, e “meu corpo, minhas regras”).

Mas que fique claro que o mundo macho, “a classe dominante (masculina e heterossexual) não abandonará seus privilégios porque enviamos muitos tuítes ou demos alguns gritos”, como afirma Paul B. Preciado sobre o movimento de mulheres que denunciam assédio sexual (#MeToo).

A ex-presidente Dilma Rousseff nos Estados Unidos, em 2017 - Hilary Swift/The New York Times

É preciso desconstruir e ressignificar (uma vez mais) o que o mundo macho apelida de “vadias”, de “vagabundas”. É preciso sororidade (“sisterhood”, disse Michelle Obama em sua recente autobiografia, “Becoming”, que virou documentário em 2020).

É preciso fraternidade entre mulheres que entendam a importância da resistência feminista, ainda que luta inglória: pois não é repulsiva a insistente perseguição à reputação da pessoa (e da política e da militante) Dilma Rousseff neste país?

Claro está que hashtags não mudarão o tom da soberania masculina, a “classe dominante” que, aqui, é de direita, de extrema direita (mas não só), misógina e machista, que controla a política, a mídia, a empresa, as igrejas e as chamadas “casas de família”.

Quantas ondas feministas serão necessárias? Na décima onda, a marcha será por Dilma Rousseff, esta cujo nome seguem achincalhando, equiparando-o ao de seus opressores, seus algozes torturadores.

Não é misoginia pura a desvalorização de figura tão importante na nossa história, dessa primeira e única mulher eleita presidente deste país vergonhosamente feminicida? E não se trata de uma mulher qualquer, mas de uma guerreira da resistência à opressão em todas as suas formas.

Não se trata das “anjas”, as damas e companheiras do mundo macho, as bem-comportadas donas de casa, as senhorinhas grotescas na sua falsa moral (Damares Alves), santas do pau oco, as hienas oportunistas (Marta Suplicy), as direitonas loucas pelo poder (Janaina Paschoal).

Está claro que ao mundo macho não bastou o espetáculo de horror que “impichou” ilegalmente Dilma Rousseff em 2016 e instituiu a devastação da direita fascista nas políticas social, ambiental, do trabalho, da saúde, das artes, da educação. Não bastou. Não bastou o assassinato covarde de Marielle Franco: a violência política contra as mulheres, nos mesmos moldes, neste exato momento, vai à caça de Talíria Petrone, deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, outra negra, outra ameaçada pelas milícias políticas e policiais do Rio.

Não bastou ao mundo macho contribuir para que o populismo fascista, a horda bolsonarista, se instalasse no poder. Querem continuar na esculhambação, na gargalhada blasé de homens reunidos em mesa de bar, inventando codinomes para aquelas que tratam como vadias, assobiando, assediando, passando a mão nas bundas das transeuntes.

Eliza Quadros Sanzi (me recuso a chamá-la pelo apelido vulgar com que a mídia ainda insiste em tratá-la), jovem ativista que participou, em 2013, do Ocupa Cabral, um acampamento diante da casa do ex-governador do Rio, que o acusava de corrupção, foi presa duas vezes, acusada de formação de quadrilha. A mídia destruiu sua reputação e sua identidade. Cabral, hoje presidiário, foi condenado por mais
de uma dezena de crimes.

O Brasil mantém-se vergonhosamente na classificação de país do atraso. Enquanto ondas de contracultura avançam mundo afora —a cultura queer, o movimento Vidas Negras Importam, os feminismos que ganharam cor de pele— e já tornam obsoleto o binarismo sexo/gênero, masculino/feminino, aqui ainda é preciso denunciar a cultura do fiu-fiu, o encoxo no transporte coletivo, a difamação do nome, o estupro e o assassinato cotidiano de mulheres.

A soberania masculina se define pelo uso legítimo de técnicas de violência (contra mulheres, contra crianças, contra homens não brancos, contra animais, contra o planeta como um todo), diz Preciado. E completa: “Essa violência se expressa socialmente sob a forma de dominação, economicamente sob a forma de privilégio, sexualmente sob a forma de agressão e estupro”.

(Este artigo deveria ter sido sobre o recente estupro/aborto de uma menina de dez anos no Espírito Santo, mas ganhou pernas, andou sozinho, foi dar em outros estupros cotidianos, aberrações da violência machista brasileira, que é preciso abortar.)

Escritora, publica na Folha duas vezes ao mês. Tem o site marilenefelinto.com.br.

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