Índios plantam milho e batata para reforçar cultura ancestral

Com demarcação, guaranis de São Paulo ampliaram variedades cultivadas

Variedades de milho plantadas na terra indígena, em São Paulo Keiny Andrade/Folhapress

Tomás Chiaverini
São Paulo

Pouca gente lembra, mas a cidade de São Paulo tem índios. E os índios, neste caso da etnia guarani mbya, têm batatas-doces. Muitas batatas-doces. Cerca de 50 variedades. As batatas e os guaranis estão ancestralmente ligados.

Aqui, talvez uns não existissem sem os outros. Jerá Poti Mirim, 38, uma das lideranças da Terra Indígena Tenondé Porã, percebeu isso dez anos atrás, quando estava mergulhada na batalha pela demarcação do território onde seu povo vive hoje.

Na época, os guaranis da zona sul estavam numa situação ruim. A população crescia, mas a terra continuava do mesmo tamanho: 26 mil m². Eles se viram obrigados a parar de plantar e apenas alguns idosos guardaram mudas de batata-doce. As variedades foram reduzidas a duas.

"Quando o juruá [homem branco] percebe que a gente não tem plantio, acha que a gente é miserável", diz Jerá, segurando sua bebê de sete meses, em frente à casa de reza da aldeia Kalipety.

"Aí, ele traz alimento: macarrão, enlatados. A gente come essa comida e isso enfraquece ainda mais o plantio, muda o jeito que a gente vê a terra, que a gente vê o mundo."

Jerá percebeu que as batatas precisavam ser incluídas no processo de fortalecimento cultural, que, por sua vez, era parte da luta pela demarcação. "Não adianta ter casa de reza, falar a língua e só comer macarronada pronta."

Com isso, ela se tornou uma caçadora de batatas-doces —jety, em guarani. Primeiro, em outras aldeias. Da Argentina ao Mato Grosso, passando por Paraná e Minas Gerais. Com o tempo, algumas pessoas passaram a procurá-la para oferecer mudas.

"Em Minas, um juruá veio com uma rama de batata e disse que aquilo era do meu povo, que ele tinha pegado dez anos antes. Eu levei pra aldeia e os idosos falaram que realmente plantavam e comiam aquele tipo de batata", conta Jerá.

Em 2016, o Ministério da Justiça publicou uma portaria declaratória que, ainda que não seja a demarcação definitiva, formalizou o direito dos guaranis ao território reivindicado. A área aumentou de 26 hectares para quase 16 mil hectares. A plantação de batatas, incentivada pela obsessão de Jerá, espalhou-se.

Conforme as variedades se multiplicavam, vieram à tona antigos conhecimentos. A batata-roxa não podia ser dada a bebês porque prejudicaria a visão. A amarela, jetyju, era a mais indicada para os pequenos. Havia também as recomendadas para adultos, idosos, mulheres no puerpério.

Ao mesmo tempo, com tanta terra, não fazia sentindo plantar apenas batatas. Hoje, os guaranis da Tenondé colhem sete tipos de milho: espigas amarelas salpicadas de grandes grãos roxos, espigas pequeninas avermelhadas, outras quase negras.

A relação com o milho é diferente, sagrada. Quando o repórter pediu uma espiga para levar a um estúdio e produzir fotos para a reportagem, Jerá foi lacônica: "Não". Ela teme que o milho se torne impuro ao sair da terra e pare de crescer.

"Teve um chef de restaurante caro que ficou louco, me perguntando como fazia pra ter aquele milho roxo. Eu disse que aquele milho não saía da aldeia."

Já as batatas têm saído. Em julho, a Tenondé Porã recebeu um grupo de agricultores que, dois dias antes, tinham acolhido uma comitiva guarani. A ideia era estimular a troca de conhecimentos para fortalecer a agricultura da cidade.

O intercâmbio rende histórias surpreendentes. O guarani Edivaldo Silva, 50, também conhecido como Tumpã, empolgado com a demarcação, criou uma roça ambiciosa.

Em um ano, diz ter plantado, sozinho, 7.000 pés de mandioca. "Eu e Deus", diz. Agora, investe numa nova empreitada: transformar a raiz em farinha, num processo ancestral de boa parte dos índios brasileiros, que os guaranis da Tenondé haviam perdido.

Quem ajuda Tumpã nesse processo é um agricultor da região, Agnaldo Pereira Pardin, 55, que, até onde sabe, não tem origens indígenas.

Ele aprendeu a técnica de transformar mandioca em farinha com o sogro, em Minas Gerais, mas não sabe de onde veio o conhecimento.

Há, contudo, uma certeza: em algum momento, perdido nos últimos 500 anos, ele foi passado ao homem branco por um índio.

 

A farinha de mandioca integral produzida por Tumpã começará a ser vendida no Instituto Chão a partir de sábado (1º/9). O pacote de 450 g sairá por R$ 10. 

Instituto Chão -  R, Harmonia, 123, Vila Madalena, São Paulo
institutochao.org


Um dia na aldeia

  • É possível agendar visitas à Terra Indígena Tenondé Porã
  • Os grupos podem ter de dez a 50 pessoas
  • O roteiro inclui trilha e degustação da comida tradicional
  • Há também palestra sobre a cultura guarani e apresentação de coral
  • Informações e reservas pelo tenondepora.org.br

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