Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Cinco jovens são mortos a tiros em Maricá, na região metropolitana do Rio

O crime aconteceu por volta das 5h50 deste domingo (25), em conjunto do Minha Casa, Minha Vida

Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Cinco jovens, ao menos dois deles menores de idade, foram mortos a tiros na madrugada deste domingo (25) em Maricá, na região metropolitana do Rio. 

De acordo com as primeiras informações, os garotos estavam numa área de convivência do conjunto habitacional Carlos Marighella, do programa federal Minha Casa Minha Vida, inaugurado em 2015 pela então presidente Dilma Rousseff (PT).

O crime ocorreu por volta das 5h50. A polícia ainda investiga a motivação dos assassinatos. Policiais da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo foram ao local para fazer a perícia e ouvir testemunhas. 

A região de Niterói, São Gonçalo e Maricá, municípios vizinhos a leste do Rio, têm vivido aumento da violência. 

Traficantes egressos de favelas da capital migraram para o interior na última década, fazendo subir os índices de violência urbana na região. Grupos milicianos também têm, em menor medida, expandido seus negócios para essas regiões do estado.

 
Até o início da tarde a Polícia Civil ainda não havia divulgado qual a principal linha de investigação e os suspeitos de cometerem o crime. Também não havia informações sobre a possibilidade de relação das vítimas com o crime organizado.
 
Esta foi mais uma madrugada de violência no Rio de Janeiro, estado que está sob intervenção federal na segurança pública desde 16 de fevereiro. A medida, inédita, foi decretada pelo presidente Michel Temer (MDB), com apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.
 
Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe dos forças de segurança do estado, que se encontra em grave crise econômica e política.
 
Na manhã do sábado (24), ao menos seis pessoas foram mortas em confronto com a PM na favela da Rocinha.
O condomínio Carlos Marighella, construído pelo programa Minha Casa, Minha Vida, em Maricá (RJ) - Mauro Pimentel/Folhapress

PASSINHO

Segundo July Mary Ribeiro Andrade, 35, mãe de um dos rapazes, os cinco mortos eram conhecidos por fazerem parte de rodas de passinho e batalhas de rap em Maricá. Os jovens voltavam de um show do cantor Projota no centro da cidade, a uma hora de ônibus de onde fica o condomínio. 

July é mãe de Marco Jonathan Silva de Oliveira, 17, pai de um bebê de 1 ano e quatro meses. Conhecido como Quadrado, ele foi um dos vencedores da Batalha do Passinho promovida pela prefeitura de Maricá em 2015. Mais recentemente, arriscava alguns versos de rap.

O rapaz teria uma entrevista de emprego como jovem aprendiz na próxima terça-feira (27). O objetivo era conseguir um trabalho enquanto ele finalizava o ensino médio em um curso supletivo.

Segundo ela, os cinco rapazes foram abordados por homens num carro, que ordenaram que eles se deitassem no chão e dispararam. 

July é uma liderança comunitária do condomínio, que tem 1.432 apartamentos. Ela foi uma das pessoas que perderam tudo em uma enchente em março de 2016, apenas sete meses após a inauguração do residencial. Segundo July, testemunhas teriam relatado que os atiradores prometeram voltar.

Michele Bitencourt, 37, mãe de Mateus Bitencourt, 18, disse que seu filho tinha sonho de ser cantor. Ele estava juntando dinheiro para comprar um computador, que usaria para produzir raps. Ela disse que os jovens voltavam do show e se reuniram na praça para se despedir. 

"O sonho dele foi interrompido. Meu filho não fazia nada de errado. Eu sinceramente não acho que vão encontrar quem matou. Eu não acredito na justiça dos homens mais no Brasil. Só na justiça divina", disse ela.

O pai de outra vítima, que não quis se identificar, disse que o filho não tinha relação com o crime organizado e era estudante. Segundo o pai, o filho e os amigos foram vítimas de covardia. Ele diz que seu filho teria sido morto ou por policiais ou por grupos milicianos que atuam na região.

Segundo um policial civil da região ouvido pela Folha, o condomínio Carlos Marighella tem sido alvo da atuação de pequenos traficantes. Policiais militares também vivem na região, alguns deles envolvidos com milícias.

Na semana passada, segundo um funcionário do IML de Niterói, dois jovens foram mortos com as mesmas características na região.

OUTROS CASOS

Segundo a Folha apurou com um policial civil da região, o condomínio Carlos Marighella tem sido alvo da atuação de pequenos traficantes. A região onde fica o conjunto habitacional é também ponto de moradia de policiais militares da região, alguns com envolvimento com a milícia. 

Na semana passada, segundo um funcionário do IML de Niterói, dois jovens foram mortos com as mesmas características na região.

Em março de 2016, apenas sete meses depois de inaugurado, o conjunto sofreu uma enchente e diversos moradores perderam tudo depois que tiveram suas casas invadida pela água.

O crime em Maricá ocorre em meio a intervenção federal na segurança, que tem pouco mais de um mês desde que foi decretada, em 16 de fevereiro, pelo presidente Michel Temer. 

Neste sábado (24), uma operação policial na Rocinha terminou com pelo menos sete mortos. A PM confirma ter matado seis pessoas. Familiares da sétima vítima dizem que ele foi atingido por tiro pelas costas e que o homem não tinha relação com o crime organizado. A Delegacia de Homicídios da capital afirma, contudo, que há pelo menos nove vítimas fatais no conflito de sábado na favela.

INTERVENÇÃO

As mortes na Rocinha ocorrem pouco mais de um mês após o início da intervenção federal na segurança pública do estado. A intervenção, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do Estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o Estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. 

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado --neste ano já são 30.
Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016).

Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia. Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu –estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros Estados com patamares ainda piores. No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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