Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Vale diz que vai deixar de extrair refino de minério em barragens

Empresa lucra com produto que usa matéria-prima presente em rejeitos

São Paulo

A mineradora Vale afirmou que vai deixar de extrair minério de ferro em barragens que estavam desativadas, como planejava fazer com a estrutura que se rompeu em Brumadinho (MG), deixando 150 mortos e 182 pessoas desaparecidas. 

De acordo com a empresa, em resposta a lista de perguntas feitas pela Folha, o objetivo neste momento é agilizar o processo de descomissionamento, quando o montante construído pelas mineradoras com o material derivado da atividade de mineração é descompactado para reduzir o risco de novos rompimentos. 

Desde 2016 a empresa dá sobrevida comercial a esses rejeitos ao extrair minérios finos que sobram do processo de mineração. O chamado pellet feed fines é usado pela Vale para criar o BRBF (Brazilian Blend Fines), produto que mistura esses minérios com o tipo extraído no Sistema Norte de Carajás, mais nobre. 

A extração de minérios finos em rejeitos só é possível em barragens a montante, técnica apontada por especialistas como a forma mais barata, e mais perigosa, de conter rejeitos.

A barragem que rompeu em Brumadinho foi construída a montante e estava inativa desde 2015, segundo a empresa. Em dezembro, a Vale obteve licença ambiental para retomar as atividades na barragem justamente para extrair os minérios finos dos rejeitos. 

Apesar de possuir teores de ferro menores do que os minérios extraídos das minas, o refino captado nas barragens localizadas no Quadrilátero Ferrífero, no centro-sul de Minas Gerais, onde fica Brumadinho, apresenta concentrações significativas do material. 

Questionada sobre a expectativa de extração de refino de minério nas barragens, a Vale afirmou que não divulga projeções e que o valor flutua de acordo com a procura do mercado. 

Especialistas dizem que o refino de minério em barragens torna-se rentável quando sobe o preço do ferro, como tem ocorrido desde o ano passado.

Segundo uma amostra captada na barragem 1 do Córrego do Feijão (a que se rompeu) e que consta em estudo da empresa de 2014, os rejeitos contidos ali apresentavam teores médios de 48,08% de ferro. Com o método de separação magnética, chegou-se a um concentrado com até 67,54%.

A extração nas barragens estava presente nas projeções da Vale há anos. Já havia um projeto para isso na barragem que se rompeu em Brumadinho, que estava previsto na ampliação das operações do complexo Paraopeba, o mesmo onde está a mina do Córrego do Feijão.

O reaproveitamento dos rejeitos estava no estudo de impacto ambiental da ampliação do complexo, feito em 2014. "Dependendo das condições de mercado, este material poderá ser comercializado com terceiros, tal como empilhado, ou utilizado na mista dos produtos produzidos em Feijão ou ainda ser reprocessado pela Vale", diz o estudo, feito há cinco anos.  

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