Clubes de elite de São Paulo vivem dilema com suas joias arquitetônicas

Enquanto Paulistano quer recuperar espírito original de ginásio, Pinheiros troca tombamento por modernização

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São Paulo

O ginásio Antônio Prado Júnior parece um óvni pousado perto da lateral do Club Athletico Paulistano que dá para a rua Colômbia, no Jardim América, zona oeste de São Paulo.

É verdade que a impressão já foi mais forte, quando o edifício, projeto de Paulo Mendes da Rocha escolhido em concurso em 1958, mantinha suas formas originais.

A estrutura pensada pelo arquiteto formado quatro anos antes era uma forma circular na qual seis pilares, apropriadamente chamados gigantes, sustentavam por tirantes a cobertura de madeira e telhas metálicas, flutuando sobre laterais abertas para uma grande praça.

O conjunto foi muito modificado ao longo de seis décadas. A forma solta foi aprisionada por salas, de diferentes usos, que lotearam todo o espaço sob a marquise, salas essas que agora vão desaparecer.

O ginásio foi tombado pelo Conpresp na 667ª reunião do órgão municipal do patrimônio, em março do ano passado. A mesma resolução protege a sede social do clube, projeto de Gregori Warchavchik (1896-1972), pioneiro da arquitetura modernista no país, e torna o lote do clube área envoltória dos bens. Na prática, isso significa que obra alguma pode ser feita ali sem a anuência do órgão.

O clube resolveu, porém, que “tombado como estava, ia ficar falho”, no dizer do advogado Sylvio Antunes Filho, vice-presidente da associação. “Ou se faz direito ou não se faz.”

A tarefa não era nada simples, uma vez que o ginásio tinha passado a abrigar muitas novas funções além das salinhas. Até uma piscina coberta foi adicionada à estrutura, além de quadras de tênis na esplanada.

No princípio, diz Antunes, não havia a atual boa disposição quanto à medida. “Entendíamos o tombamento como uma imposição.” Ele diz que aos poucos o clube foi adotando a ideia de que era interessante manter um patrimônio “bacana, reconhecido, premiado”

Com autorização do Conpresp, salas provisórias foram erguidas na esplanada, para poder desafogar a estrutura enquanto se preparavam novas instalações. 

Quando o trabalho terminar, o ginásio terá um fechamento de vidro, permitindo maior conforto termoacústico do que o original, e ar-condicionado, sem impedir a transparência imaginada pelo arquiteto.

Voltará a ter espaço para esgrima e ginástica olímpica e será também a sede do centro de memória da instituição —que estuda abrir o acesso ao espaço para quem quiser conhecer uma obra que, já no começo da carreira, demonstrava muito do que seria a arquitetura de Mendes da Rocha, reconhecido com o Pritzker, principal prêmio da profissão, em 2006.

À frente da recuperação do ginásio está o arquiteto Eduardo Colonelli. Ele assumiu a tarefa por indicação de Mendes da Rocha, 90, com quem já trabalhou. “Não dá para voltar ao ginásio dos anos 1960, tem de responder a certas necessidades atuais”, pondera Colonelli.

Ele mostra de forma paciente e bem-humorada o detalhado diagnóstico que reúne todos os problemas encontrados na construção. 

Alguns aspectos, como a substituição dos caixilhos originais, são simples de reverter. O ar-condicionado deu mais trabalho, pois era a intenção manter a fresta entre a marquise e a cobertura, mas também se achou solução. As tubulações serão mantidas aparentes, sem forro, mas “com um desenho que não interfira negativamente na arquitetura”. 

A cobertura era outro ponto frágil –não em termos de segurança, frisa Antunes, pois laudos garantem sua estabilidade. O enchimento de madeira entre as camadas de metal tem cupim. “Não tem como consertar, tem de refazer”, resume Colonelli.

Para Raquel Schenkman, diretora do DPH, o trabalho realizado no Paulistano é prova de que é possível adaptar uma estrutura tombada, mesmo se bastante descaracterizada, a necessidades contemporâneas.

Não muito longe dali, o Esporte Clube Pinheiros, no Jardim Europa, tem um caso análogo, sob entendimento muito diferente. 

A instituição, que acaba de completar 120 anos –um a mais que o coirmão Paulistano– tem um salão de festas projetado por Warchavchik e inaugurado em 1957. É um espaço muito utilizado pelo clube e procurado para eventos como formaturas. 

O Pinheiros mantém com muito zelo seus 170 mil m², quase metade área verde, frequentados por mais de 39 mil sócios. Tem renovado suas instalações, realizando concursos de arquitetura para isso. Mas não quis o tombamento do salão de festas.

Um pedido de tombamento pode ser aberto por qualquer indivíduo, grupo ou instituição que pretenda defender o interesse público de um bem, privado ou não. Cabe aos órgãos de patrimônio decidir se os argumentos apresentados por quem propõe justificam a medida.

Em março de 2018, na sua 666ª reunião, realizada duas semanas antes da que preservou o Paulistano, o Conpresp tombou o salão, além de outras obras modernistas. Em junho, reviu sua decisão.

O que o Pinheiros defendeu, nas duas reuniões, era que o espaço se descaracterizara, pois parte importante, a marquise, fora derrubada quando a rua Iguatemi foi alargada, em 1969, abrindo espaço para a avenida Faria Lima.

No entendimento do DPH e da relatora do caso no Conpresp, Mariana Al Assal, representante do Instituto de Arquitetos do Brasil no órgão, a ambiência do salão havia se mantido, e o tombamento era importante já que havia planos de demolir a construção para erguer no lugar o espaço batizado como Arena Pinheiros.

A revisão da decisão pelo conselho, sem que surgisse fato novo, foi inédita e causou escândalo. Um abaixo-assinado com cerca de mil assinaturas pediu a preservação. O caso agora está nas mãos do Ministério Público de São Paulo (MPSP); o promotor Luís Roberto Proença abriu inquérito para apurar o fato na segunda (23).

“Por mais que tivesse alguma descaracterização, ele é possível de ser reintegrado, modernizado. Poderia ter sido, do meu ponto de vista, tombado”, opina Schenkman, que assumiu o DPH no início deste ano e não participou das decisões anteriores. 

Ela recorda o exemplo do clube Harmonia, projeto de Fábio Penteado. “É impecável, são supercuidadosos. Mas é um clube menor, como o Paulistano, que está se modernizando. O Pinheiros tem mais sócios, não sei se todos têm esse conhecimento de que isso é possível.”

O Pinheiros promoveu um concurso para escolher um projeto de reforma do salão, após o destombamento. Da discussão entre os dez participantes da comissão avaliadora, três externos e sete do clube, compreendeu-se que a melhor solução era a que mais conservava o que resta do projeto original.

A proposta do escritório H+F Arquitetos, o mesmo responsável pelo restauro e ampliação do Museu do Ipiranga, era o único que mantinha os três volumes que compõem o original –o corpo central oval, um segundo prédio ameboide e um prisma que serve de entrada de serviço.

Após a competição, porém, o clube fez uma nova votação interna, da qual saiu escolhido o projeto do escritório Biselli Katchborian, dupla de arquitetos que já venceu outros concursos do clube. No livro dedicado à sua carreira lançado neste ano, os escolhidos mostram sua visão para renovar a obra. Dos três corpos, somente o oval é mantido.

A Folha procurou o Pinheiros para saber mais sobre os planos para a reforma. Por meio de sua assessoria de comunicação, o clube respondeu que não havia “nenhum projeto de reforma para o salão”.

Questionados quanto ao projeto publicado no livro, disseram que, de fato, ele existe, mas que não há aprovação para a obra. Indagado a respeito de se havia alguma previsão para isso, o clube não respondeu.

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