Seis meses após fim de acordo, praça revitalizada no centro de SP já está degradada

Crianças em parquinho e quadra novos contrastam com vandalismo e dependentes químicos

Praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo

Praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo Danilo Verpa/Folhapress

São Paulo

Um pai empurra a filha na gangorra, crianças jogam bola e casais conversam nos bancos da praça. Ao fundo, uma aglomeração de curiosos se forma para observar peritos removerem uma manta de alumínio e revelarem o cadáver de um homem no gramado.

A reportagem viu a cena numa tarde de setembro na praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo. Ali, a revitalização do centro, aposta do prefeito Bruno Covas (PSDB), se choca com o público de dependentes químicos cada vez mais pressionado a deixar a vizinha cracolândia.

O local foi reformado pela iniciativa privada há um ano e meio, em acordo com a prefeitura, por R$ 1,5 milhão, mas, para a cuidadora de idosos Rosimeire Teixeira, 45, “nem parece que reformaram. Uma pena, a praça tão bonita”, diz.

“E se quiser tomar uma água, não tem onde”, diz Mateus Silva de Jesus, 22, que brincava com os filhos no local. A empresa Porto Seguro, que reformou a praça, instalou bebedouros, que foram depredados e tiveram seus canos removidos, restando só blocos ocos de alvenaria. Frequentadores da cracolândia por vezes vendem materiais recicláveis para satisfazer a dependência química.

“Aqui é bom, tem as bases da polícia. Mas não tenho coragem de deixar os meninos sozinhos”, conta Mateus.

Ao lado do parquinho, foi construída uma quadra poliesportiva, cercada por um alambrado e em frente ao posto policial inaugurado na reforma. A quadra está bem conservada —nas palavras de quem passa por ali— só porque fica trancada a maior parte do dia.

Em 2017, a praça chegou a ser ocupada durante um mês pelo fluxo (como é chamada a concentração de usuários e traficantes), após ação policial que desmobilizou temporariamente a feira livre de drogas na cracolândia.

Numa tentativa de levar moradores para a região e assim recuperar a área, o Governo de SP construiu cinco prédios nas redondezas, bem ao lado de onde os dependentes químicos se concentram, e reformou uma outra praça, a Júlio Prestes.

Mateus mora num desses prédios e frequenta a Princesa Isabel. “Lá tem o fluxo, às vezes chega fumaça de crack onde as crianças brincam, prefiro não deixar lá”, diz.

Em 2017, o então prefeito João Doria (PSDB) anunciou uma parceria com a Porto Seguro, dona de imóveis na região, que investiu R$ 1,5 milhão na reforma e se responsabilizou por cuidar da praça por mais 12 meses.

Sem ônus para a prefeitura, a parceria, dentro do programa Adote uma Praça, previa como contrapartida que a Porto Seguro instalasse placas que informassem que a empresa era a mantenedora. 

Em 2018, após a reforma, um policial afirmou à Folha que a Princesa Isabel estava virando “um novo Ibirapuera”, de tanta gente que frequentava o local. 

Com a crescente repressão na cracolândia, porém, aumentou também o número de barracas nos canteiros de terra batida.

“Sempre que tem operação lá [aponta para a região do fluxo], chega aqui também. Tiram barraca, tacam bomba, botam o pessoal pra correr. Mas a gente volta de novo”, diz Roberlei dos Reis, 44. “Todo dia eu tenho que usar [crack]. São 22 anos usando. Agora tô de boa, mas à tarde ou à noite vou ter que usar.”

Roberlei diz ter ficado preso por 17 anos, por assalto e furto, e afirma morar nas ruas da região há seis. Na praça, costuma dormir na área da ginástica.

“Vamos ficar aqui até obrigarem a gente a ir para o Tietê, lá”, diz ele, em referência a uma megatenda que a prefeitura construiu, a 3 km de distância, para atender os dependentes químicos e tentar tirá-los do centro. “Mas sou mais dormir na rua, me sinto melhor. Dormir na tenda é aquele fuzuê.”

Essas tendas, chamadas Atende, ficavam próximas da cracolândia até alguns meses atrás. Havia uma perto da Princesa Isabel, na rua General Rondon. A prefeitura desativou o espaço, na tentativa de forçar a saída dos usuários de drogas da região.

Um prédio será construído no terreno, dentro do programa Minha Casa Minha Vida Entidades, voltado para o movimento de moradia ULCM (Unificação das Lutas de Cortiço e Moradia). Serão 131 apartamentos, com 54 m² e dois quartos, financiados pela Caixa Econômica.

Membros da ULCM afixaram uma bandeira e já dormem no local —segundo eles, para impedir invasões.

 

Ônibus fretados utilizam rua lateral como garagem

Em frente a um terminal municipal de ônibus, a praça em Campos Elíseos tem formato retangular, com área aproximada de 20 mil m². Cada lateral tem 230 metros de comprimento. Uma delas fica na avenida Rio Branco. A outra, menos movimentada, virou uma espécie de garagem a céu aberto para ônibus fretados de todas as partes do país.

O número de grandes veículos estacionados por vezes bloqueia parcialmente a parada das linhas municipais de ônibus no ponto da praça. Os fretados são lavados e recebem manutenção no local.
Na via, é possível ver ao menos dois ônibus abandonados, com os pneus murchos e as portas entreabertas, presas por uma corrente. 

Mateus, que leva os filhos para brincar na praça Princesa Isabel, diz se sentir confortável, apesar das adversidades. “Tive amigo que foi assaltado, mas eu mesmo nunca tive nenhum problema. A praça podia ser mais bem cuidada, claro. Mas vai tirar o pessoal daqui e vai levar para onde? Vai matar? Só se for. São seres humanos também”, diz.

O homem cujo corpo foi recolhido na presença da reportagem era João Batista Camargo, 50. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, seu corpo não tinha sinais de violência.

Roberlei, que dorme na área de ginástica, diz que a convivência é pacífica. “O pessoal não tem porque reclamar de a gente estar aqui. Não mexemos com ninguém.”

Acordo venceu em abril; Prefeitura de SP deve cuidar da praça

O período do acordo entre a prefeitura e a Porto Seguro foi de 15 meses, entre janeiro de 2018 e abril de 2019. “Após o encerramento da cooperação, não há mais obrigações da empresa com o local”, informou a Subprefeitura da Sé. A manutenção do mobiliário danificado, portanto, é de responsabilidade do órgão municipal.

A administração regional afirma que o espaço aberto em frente ao monumento a Duque de Caxias é destinado a apresentações artísticas e a eventos como feiras de artesanato e food trucks.

Quanto aos banheiros, a subprefeitura afirma que eles funcionavam em comodato (empréstimo gratuito) sob responsabilidade da empresa Peebox, que era responsável pela manutenção. A empresa não foi localizada pela reportagem.

Por fim, a administração diz que a a Guarda Civil Metropolitana também atua diariamente na praça, em proteção aos agentes públicos durante as ações de zeladoria, limpeza, serviços de saúde e assistência social. Além disso, a GCM também realiza apoio durante ações da Polícia Militar contra o tráfico de drogas.

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