Discreto, vice de Covas ganha espaço na Prefeitura de SP

Ricardo Nunes (MDB) tem recebido romaria de políticos em gabinete e é elogiado pela oposição

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Atuante, discreto, solícito e cordial. É assim que é descrito, mesmo por alguns políticos da oposição, o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que há quatro meses bate ponto no Edifício Matarazzo, sede da prefeitura no centro da capital

Com a internação do prefeito Bruno Covas (PSDB), que se trata de um câncer —mas ainda despacha do hospital—, Nunes tem representado o chefe em agendas e aparecido mais.

Na última semana, por exemplo, ele esteve na inauguração da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jabaquara e participou de audiência pública do Programa de Metas da gestão.

A ação mais midiática foi na madrugada de 14 de março, na batida que flagrou o atacante Gabigol em um cassino clandestino na zona sul de São Paulo. À época, muito se questionou o que Nunes fazia na operação policial, mas o vice-prefeito havia sido designado representante da gestão municipal no comitê criado para fiscalizar aglomerações, proibidas durante a pandemia.

Também lá estava o deputado federal Alexandre Frota (PSDB), que diz que incentiva o vice a participar mais das operações in loco. “É uma oportunidade de ele estar perto do povo, as pessoas cobram, falam com ele diretamente”, diz. “Ricardo é uma pessoa extremamente educada, respeitosa, um cara que tem me tratado muito bem e de que eu gosto muito.”

Mas é da porta para dentro a movimentação mais intensa. Nunes tem recebido uma romaria de políticos e representantes de entidades com as mais variadas demandas, de diretores da Escola Paulista de Medicina a vereadores de oposição, como Eduardo Suplicy (PT) e Sonaira Fernandes (Republicanos).

Defensora maior do bolsonarismo na Câmara Municipal, Fernandes conta que foi ao gabinete do vice-prefeito na última semana com um grupo de donos de restaurantes para questionar as medidas do governo estadual que determinavam o fechamento dos comércios.

“Procurei na expectativa de que algumas dessas demandas fossem ouvidas. O vice-prefeito de imediato respondeu a minha mensagem, e foi cordial. Sou oposição ao PSDB na Casa, mas o Ricardo Nunes, sabendo que sou Bolsonaro, sabendo a bandeira que eu levanto, que não é a dele, foi muito cordial”, diz.

Na Câmara, onde passou oito anos, Nunes tem bom trânsito com vereadores e ganhou projeção na CPI da Sonegação Tributária.

Por outro lado, parcela dos novos nomes da Casa questiona o que ele representa, como Erika Hilton (PSOL), que não conviveu com ele no Legislativo municipal.

“Talvez ele até seja cordial, mas minha análise é da figura política dele. Eu fico muito preocupada em pensar nele como prefeito de São Paulo. Ele representa um caráter muito mais conservador do que o Covas, mais refratário às pautas que eu acredito, de dignidade humana aos LGBTQI. Representa uma casta política que vai na contramão de tudo o que eu acredito”, diz ela.

Católico conservador, Nunes atuou pela retirada de menções à diversidade sexual no Plano Municipal de Educação em 2015.

Além disso, foi o principal calo de Covas na campanha de reeleição, após denúncias de violência doméstica (hoje negadas por ele e sua esposa) e ligações controversas com entidades gestoras de creches serem reveladas pela Folha (ele nega qualquer irregularidade).

Escolhido vice numa articulação capitaneada por João Doria para conseguir o apoio do MDB, Nunes acabou escondido na campanha, mas foi defendido por Covas dos ataques de opositores, que ressaltou que ele não responde a nenhum processo.

Depois disso, Nunes desenvolveu lealdade ao prefeito e, mesmo hoje, mede palavras e é cuidadoso para não aparecer mais que o necessário, sobretudo em um momento delicado em que se especula sobre uma possível licença do mandatário para tratar da saúde.

Interlocutores diretos de Covas disseram à reportagem terem se surpreendido com o respeito que o vice empresta ao mandatário, já que qualquer passo em falso ou fala mal colocada pode ser visto como ansiedade para assumir a cadeira em caso de licença médica.

Pessoas próximas de Nunes disseram no entanto que o vice não trata dessa possibilidade nem em conversas reservadas e, à Folha, o próprio vice-prefeito disse estar seguro que Covas não precisará se licenciar do mandato.

Ele confidenciou a aliados, inclusive, que havia um receio de que, passada a eleição, pudesse encontrar resistência entre a ala do tucanato mais próxima do prefeito.

De fato, o emedebista até hoje não faz parte do núcleo duro de Covas, mas pessoas com trânsito no gabinete disseram à Folha que o prefeito não vê seu vice como ameaça.

Por outro lado, Nunes não foi nomeado para nenhuma secretaria, o que gerou desconforto entre ele e seu partido, segundo pessoas com quem a reportagem conversou. O próprio Covas, por exemplo, foi nomeado secretário de subprefeituras quando assumiu como vice em 2017, na chapa do hoje governador João Doria.

Após reeleito, Covas afirmou que Nunes seria seu braço direito e uma espécie de “clínico geral”, o que abriu margem para especulações que ele assumiria a Casa Civil e seria o responsável pela articulação com a Câmara.

No fim, a pasta foi para outro aliado do prefeito, Ricardo Tripoli, e Nunes, que confessou a aliados querer ser nomeado secretário de subprefeituras, acabou tendo apenas o cargo de vice.

O que, no fim, não foi pouco, dada a internação de Covas durante a pior fase da pandemia. À Folha, Nunes diz que considera muito positiva a experiência no Executivo.

“Estou conseguindo ajudar o prefeito nesse enfrentamento da pandemia, quando a cidade não parou”, diz ele, elencando a coordenação do programa Cidade Solidária, que organiza ações sociais durante a pandemia, o Programa de Metas, as ações contra aglomerações e a entrega de unidades de saúde.

Para o futuro, Nunes faz planos para trabalhar com a cidade sem pandemia, e ressalta que termina o mandato como vice de Covas, que ele diz ter "certeza e muita fé que vai se recuperar logo". Nunes diz que trabalha com a perspectiva da população paulistana vacinada contra a Covid-19 até o fim do ano e começa a desenhar com os secretários um plano de recuperação econômica da cidade.

"[Quero] Dar minha contribuição ao Bruno para uma gestão que diminua a desigualdade social, que consigamos melhorar a qualidade de vida das pessoas."

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.