Descrição de chapéu Obituário Osvaldo Salvador (1938 - 2021)

Mortes: Torcedor-símbolo, Lua respirava a Ferroviária e Araraquara

Osvaldo Salvador morou no estádio, viajava com o clube e tinha carteirinha de 'auxiliar técnico'

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Ribeirão Preto

Por onde ia, Osvaldo Salvador, o Lua, 82, sempre levava duas coisas: no bolso eram os cartões vermelho e amarelo, para distribuir de brincadeira a “infratores” ou para quem não gostava, e no coração era a Ferroviária.

Torcedor-símbolo do clube de Araraquara, Lua era praticamente um patrimônio do clube do interior paulista. Morou na Arena da Fonte, estádio onde o time manda seus jogos, chegou a viajar principalmente nas décadas de 70 e 80 com o ônibus da equipe para partidas fora da cidade e tinha até mesmo uma carteirinha onde se lia “observador e auxiliar técnico” do futebol master.

No estádio, ficava onde queria, na arquibancada, junto com a diretoria ou até mesmo dentro do campo, numa história iniciada nos anos 60, quando seu pai vendia laranjas nos portões do estádio, conta o tutor de Lua, André Bermudez.

Amigo desde 1974, o repórter fotográfico Tetê Viviani, 66, conta que o local em que funcionava uma casa de máquinas no estádio foi ocupado por Lua quando o imóvel foi desativado devido à implantação de equipamentos mais modernos.

Imagem mostra homem em estádio, usando um uniforme grená, da Ferroviária, de Araraquara
Osvaldo Salvador, 82, o Lua, torcedor símbolo da Ferroviária, de Araraquara, que morreu na última terça-feira (20) - Tetê Viviani

Com isso, a proximidade com o clube do coração ficou ainda maior e ele inclusive almoçava no refeitório com os jogadores, fossem eles das categorias de base ou do time principal.

“Ele estava lá não só nos jogos, mas todos os dias. Sempre fotografei a Ferroviária e sempre acompanhei o Lua. Ele era popular com todo mundo, a cidade inteira o adorava e ele tinha portas abertas em todos os lugares.”

Quando não estava em Araraquara é porque tinha viajado para pescar na região de Coxim (MS).

Bermudez conta que Lua era muito obediente, mas arredio para tomar remédios, e que já enfrentou dificuldades especialmente nos anos 90, quando a Ferroviária enfrentava uma severa crise financeira.

Sem dinheiro, Lua era frequentemente levado por amigos para fazer as refeições em outros locais.

Foi quando amigos tiveram a ideia de aposentar o torcedor —que tinha uma deficiência intelectual—, o que conseguiram em 2003, com Bermudez assumindo a função de tutor.

“Todos os anos íamos pescar e ele ia comigo. Gostava de tomar uma cerveja e comer, mas tinha medo de encontrarmos onças, o que nunca ocorreu. Era uma criança, com coração puro, mas sempre com seu cartão vermelho por perto”, disse.

Amigos contam histórias emblemáticas do torcedor-símbolo em décadas passadas, como quando a diretoria do Botafogo de Ribeirão Preto não queria deixar ele entrar no vestiário. Usando um terno branco, um dirigente do clube adversário temia que o clube de Araraquara tivesse levado um pai de santo para o confronto e que isso pudesse trazer azar para a sua equipe.

Em outro confronto no interior, desta vez contra o Batatais, não havia mais ingressos na bilheteria, mas Lua, que dessa vez usava um terno escuro, foi apresentado como dirigente da Ferroviária e não só entrou no estádio como foi colocado num lugar especial na arquibancada coberta.

Lua se mudou para a casa de uma irmã a partir do início da pandemia, em março do ano passado, e suas saídas às ruas foram reduzidas desde então.

Mas teve tempo para relembrar uma homenagem que recebeu com um grafite na Via Expressa, principal avenida da cidade, onde passou em 2 de março, quando Viviani o levou para tomar a primeira dose da vacina contra a Covid-19.

Estranhou o baixo movimento nela e em outras vias —a cidade estava em pleno lockdown—, assim como ter encontrado o restaurante de um ex-jogador do clube fechado.

“Ele não estava saindo de casa e estranhou tudo, mas ficou emocionado ao ver o que os grafiteiros fizeram em sua homenagem”, disse Viviani.

Depois de ter se recuperado bem de um câncer de estômago descoberto em 2014, enfrentou nos últimos anos um tumor na próstata. Chegou a ficar internado por três dias, mas morreu na terça-feira (20) de complicações da doença.

A Ferroviária publicou nota de pesar pela morte de Lua, assim como o prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT).

“Personagem público da nossa cidade, sempre visto andando pelas ruas com o uniforme da AFE e seus cartões amarelo e vermelho, Lua era muito querido pelos atletas e pela diretoria da Ferroviária. Araraquara e a Ferroviária perdem, hoje, um de seus maiores símbolos”, disse o prefeito.

No velório, claro, não faltou a bandeira da Ferroviária e uma camisa do clube, com o número 1.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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