'Por que startups podem ser unicórnios e ONGs não?', diz Edu Lyra

Campanha da Gerando Falcões concorre na Escolha do Leitor em que público pode votar e doar para ações de enfrentamento à Covid-19

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São Paulo

Com disposição para converter a pobreza da favela em peça de museu, como ele sempre diz, Edu Lyra está à frente de uma campanha de combate à fome que arrecadou R$ 51 milhões em dois meses. Mas a estratégia vem de muito antes: a ONG Gerando Falcões, fundada por ele em 2011, se tornou hub de inovação social.

Se de um lado investe na formação de lideranças em favelas, de outro articula parcerias com empresas e poder público para trazer investimento para comunidades miseráveis.

Pacto social que pretende, em três anos, entregar uma tecnologia escalável de redução do ciclo de desigualdade. “Isso é ciência de foguete”, diz o empreendedor social.

homem de camiseta preta e óculos posa em frente a muro grafitado colorido
Edu Lyra, fundador da ONG Gerando Falcões - Renato Stockler

Em entrevista à Folha, Edu Lyra conta de que maneira tornou a Gerando Falcões um celeiro de projetos inovadores e como mobilizou milhões para distribuir cestas básicas digitais que mitigaram impactos da Covid-19.

“Se resolver um problema custar R$ 1 bi, vamos atrás. Por que startups podem ser unicórnios e ONGs não?”, diz o finalista do Prêmio Empreendedor Social do Ano em 2020.

A Gerando Falcões arrecadou mais de R$ 50 milhões em doações só neste ano. Como conseguiram mobilizar esse volume?
Criamos um movimento em cascata de combate à pobreza através da mobilização da sociedade. “Corona no Paredão - Fome Não” é uma campanha totalmente digital, que integra tecnologia e filantropia em escala.

Ano passado conseguimos R$ 25 milhões em quatro meses e, agora, em dois meses, mobilizamos R$ 51 milhões. Alimentaremos 800 mil pessoas em 700 favelas.

A estratégia envolveu anjos na página de doação, como se fosse BBB [Big Brother Brasil], só que o anjo salva alguém do paredão da fome. Definimos metas de mobilização de cestas digitais e empresas fizeram o match.

Tornamos a Gerando Falcões uma ONG orientada a dados para produzir impacto na ponta. Conhecemos quem são os doadores, onde vivem e seus hábitos –e nos comunicamos com eles de maneira eficiente. Criamos um ecossistema de parceiros que dão robustez e infraestrutura para toda essa engenharia de dados.

E tudo fabricado na favela, com nosso time. Não preciso me chamar Jeff Bezos para fazer coisas relevantes e construir o impossível com meu time. Isso é ciência de foguete.

Como é sua rotina? Você fica na gestão, liga para os doadores, vai para a rua?
Eu tenho duas agendas. Uma me coloca do balcão para dentro, para olhar a gestão, recrutar talentos, fortalecer a cultura, fazer a transformação digital e fomentar inovação.

E outra do balcão para fora, que é relacionamento com doadores, palestras, conversas com investidores, gravar vídeos, visitar lugares como Medellín...

E o que você trouxe da visita a Medellín, na Colômbia?
O Favela 3D, de digna, digital e desenvolvida. É um laboratório de soluções sociais para a combater a pobreza no Brasil.

O mundo aprendeu de tudo, de inteligência artificial a pilotar drones, mas não aprendemos a resolver a pobreza. Ela é endêmica, crônica, e precisamos desenvolver essa aprendizagem testando, capturando dados e redesenhando.

Como será o Favela 3D?
Nos próximos três anos, vamos integrar políticas públicas e tecnologias sociais na Vila Itália, favela de São José do Rio Preto. Moradia digna, empoderamento, capacitação profissional e geração de renda com o objetivo de construir emancipação social.

Nos últimos seis meses, investimos em pesquisa e no desenho de soluções com a comunidade, fizemos parceria com a Tellus e a Accenture para modelagem econômica e chegamos a algumas soluções.

Vamos entregar para o Brasil uma tecnologia viável e escalável de redução do ciclo de desigualdade nas favelas.

E por que escolheram a Vila Itália como piloto do projeto?
É uma combinação de fatores. A favela tem histórico de luta por melhorias. Tem a Amanda Oliveira, que é uma liderança local capacitada pela Universidade Falcons [faculdade informal da rede, voltada ao desenvolvimento de habilidades técnicas e emocionais para atuação nas favelas], e o prefeito Edinho Araújo (MDB-SP), que se mostrou aberto à transformação.

Começa ali, mas queremos iniciar outros Favelas 3D para acelerar a curva de aprendizagem. São José do Rio Preto é uma cidade rica e dá para alterar o ciclo de pobreza, fechar a fábrica da desigualdade.

Com esse projeto vocês pretendem influenciar políticas públicas?
Queremos influenciar governos do Brasil inteiro. Não dá para acabar com a pobreza sem a presença do governo.

E de que maneira vocês garantem a sustentabilidade da Gerando Falcões?
Um exemplo é o varejo social, o Magazine Luiza da Favela. Nós criamos um sistema de logística: as pessoas doam o estoque parado em casa, nós levamos para nosso centro de distribuição, processamos, precificamos e vendemos. Também lançamos um ecommerce e queremos replicar no Brasil inteiro.

Todo o lucro social será reinvestido integralmente para combater a pobreza. Um grande gerador de caixa para investir em inovação, tecnologia e em talentos para reduzir a desigualdade.

três homens sorriem para foto em frente a painel grafitado
Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões, ao lado de Satya Nadella, CEO da Microsoft, e Jorge Paulo Lemann, fundador do 3G Capital e da Fundação Estudar - Bruno Santos / Folhapress

O que a pandemia deixa de legado para a ONG?
A pandemia mostrou que a Gerando Falcões pode ser grande, mas é pequena dentro do problema. Se resolver um problema custar R$ 1 bi, vamos atrás. Por que startups podem ser unicórnios e ONGs não?

Vamos mudar de verdade, para valer. Não estamos nessa para defender status quo. A pobreza é como uma prisão de segurança máxima, o que ela permite são histórias de exceção, mas estamos criando tecnologias para virar a chave dessa prisão.

E para a sociedade brasileira, o que tem sido a pandemia?
Uma chacoalhada. A pandemia não tem compromisso com parte da sociedade que só se sente culpada. A culpa não resolve. Foi um recado de que estamos na direção errada, precisamos desligar e sermos responsáveis em construir algo que produza oportunidade.

Tem uma geração inteira sofrendo porque a máquina está mal construída. A máquina tem que moer a favor dos miúdos.

Você é otimista?
Sempre tem lugar para mais um na caravana, vamos com quem acredita. Eu não posso falar em nome da sociedade porque a gente se frusta, boto fé no que tenho controle.

E por que você se inscreveu no Prêmio Empreendedor Social, do qual foi finalista em 2020?
Eu queria que esse prêmio viesse para um empreendedor de favela. Isso é evidência de que a favela é potência. Eu represento um ecossistema de líderes, então não é sobre mim, é sobre empoderar os nossos.

EDUARDO LYRA, 33

Fundador e CEO da Gerando Falcões, ONG que viabiliza projetos de impacto social em periferias e favelas do Brasil. É uma realidade que conhece por experiência própria e que procura transformar por meio de ações mundialmente reconhecidas.

Selecionado pelo Fórum Econômico Mundial como um dos quinze jovens que podem mudar o mundo, entrou para o time do Global Shapers. Escreveu o livro “Jovens Falcões”, foi um dos roteiristas do filme “Na Quebrada” e deu palestras em universidades como Harvard e Babson College. ​

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