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Jornalistas deveriam prestar mais atenção às periferias, afirma empreendedor

Para Eduardo Lyra, imprensa desconhece vida fora dos centros

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Edu Lyra

Fundador e presidente da Gerando Falcões

São Paulo

Como parte dos projetos especiais dos 100 anos da Folha, o jornal convidou 13 integrantes de grupos sub-representados no jornalismo profissional praticado no Brasil. Eles expõem episódios de preconceito e desinformação, além de problemas na relação com jornalistas e na forma como a imprensa noticia —ou não noticia— questões que os afetam direta ou indiretamente.

Batizada de “E Eu? - O Jornalismo Precisa me Ouvir”, a série é formada por vídeos e depoimentos em forma de texto.

Eduardo Lyra, cofundador e CEO da ONG Gerando Falcões
Eduardo Lyra, cofundador e CEO da ONG Gerando Falcões - Bruno Santos/Folhapress

Fundador e CEO do instituto Gerando Falcões (ONG voltada à promoção social de crianças e adolescentes periféricos por meio do esporte e da cultura), Eduardo Lyra, 33, fala sobre a representação, na imprensa, de moradores de favelas e periferias. Leia entrevista ou assista ao vídeo (há uma versão com recursos de acessibilidade logo abaixo).

VERSÃO COM RECURSOS DE ACESSIBILIDADE

Nasci numa favela em Guarulhos onde não tinha escola, creche nem saneamento básico. Vivia num barraco de chão de terra batida. Meu pai acabou se envolvendo no mundo do crime e foi preso, indiciado por roubar banco. Cresci visitando ele no presídio. Então existia um caminho meio direcionado para mim: vai ser bandido, vai ser traficante.

Mas eu tive uma grande inspiração dentro de casa, que foi o contraponto: minha mãe, que todo dia me dizia, "Filho, não importa de onde você vem, o que importa na vida é para onde você vai. Você pode ir para onde quiser."

Então estudei, depois fui para a universidade e não me formei, mas lá escrevi um livro, chamado "Jovens Falcões". Publiquei de forma independente. Juntei 30 amigos para vender de porta em porta por R$ 9,99. Em três meses, vendemos 5.000 livros, e usei o dinheiro para fundar a Gerando Falcões, que é a minha ONG, com mais três cofundadores.

Isso foi crescendo. Com oito anos de organização, passamos a ser um ecossistema de desenvolvimento social que trabalha em rede, acelerando ONGs dentro de favelas para que elas possam diminuir desigualdades com serviços de educação, desenvolvimento econômico e cidadania. Estamos em mais de 300 favelas do Brasil.

Eduardo Lyra, CEO da Gerando Falcões, usa o celular durante entrevista à Folha
Eduardo Lyra, CEO da Gerando Falcões, usa o celular durante entrevista à Folha - Bruno Santos/Folhapress

A gente acredita muito em inovação social, uso de dados e tecnologia para superar a pobreza.

Se tem um legado que a Covid deixa, entre muitos, é a compreensão maior da sociedade sobre as ONGs. ONG sempre foi vista como um lugar de corrupção e de ineficiência.

No começo da pandemia, as ONGs chegaram pelo menos cinco semanas antes do governo na vida do brasileiro mais pobre. Enquanto o governo tinha dificuldade para localizar os fantasmas brasileiros —quem não tem RG nem CPF—, as ONGs sabiam onde eles estavam e os chamavam pelo nome. Ficou provado que as ONGs têm eficiência, capacidade de execução, velocidade e verdade, e que estão a favor do Brasil.

A gente acredita muito em inovação social, uso de dados e tecnologia para superar a pobreza

Edu Lyra

Fundador e CEO da ONG Gerando Falcões

Na periferia tem muito talento. O sucesso pode vir de Harvard ou Stanford, mas também das favelas e dos guetos. Eu sou a exceção da exceção. A regra no Brasil é o cara virar bandido, ter a autoestima esfacelada e não acreditar em si próprio, ficar no meio do caminho. E aí vai perpetuando a desigualdade.

A imprensa tem que se sofisticar, avançar, entender o que está emergindo da periferia. A imprensa tem que vir até aqui.

O que acontece muito é que as pessoas e os líderes sociais de base tentam dialogar, mas nem sempre a porta está aberta. E aí os caras criam seu próprio movimento. "Pô, vou criar meu próprio jornal então, vou criar meu canal no YouTube." Então, acho que um dos desafios da Folha e da imprensa brasileira é deixar a porta aberta, falar, "Chega aí, mano, vamos te ouvir." Criar processos de escuta.

Um morador da favela também tem uma opinião do que está acontecendo no Congresso —mas quando tem, por exemplo, a reforma da Previdência, a gente vai ouvir sempre o mesmo conjunto de pessoas, que não representa o todo.

Não tinha jornal em casa porque meu pai não conseguia comer direito, quem dirá assinar a Folha, mas eu ia para os lugares onde tinha a Folha, a Veja, outras coisas. Eu ia para a biblioteca da cidade, mas sabia que os moleques da minha sala não estavam lendo.

Como a gente faz mais gente da quebrada consumir conhecimento? Como a gente consegue chegar onde tradicionalmente a Folha não chega? Será que essa galera deveria ter um preço diferente de assinatura, como a Folha faz com os professores? Porque existe uma desigualdade muito grande na informação também.

Uma vez a gente fez uma chuva de livros na favela; a gente fez uma mobilização, levamos muito livro. Quando chegaram os livros, todo mundo ia atrás de dicionário. Perguntamos para uma senhora por que ela queria tanto o dicionário —estava na época da eleição presidencial.

"Meu filho, porque eu queria entender o que o Aécio e a Dilma falam naqueles debates, que eu não consigo entender o que é PIB". Isso é uma aula de Brasil. Parecem dois estrangeiros falando sobre o país e ninguém entende direito na quebrada. Então precisa traduzir essa linguagem para a realidade das pessoas.

A Folha tem um papel muito forte e pode participar desse processo de ajudar o país a fazer um grande acordo —ou suscitar essa discussão na sociedade— sobre quais são os dez problemas dessa década que a gente vai resolver. A gente não pode passar mais uma década sem isso.

Não dá mais para interagir com favela passando uma demão. O Brasil passou uma demão na favela por muitos anos. Não dá mais para enxugar gelo. Tem que ser uma transformação sistêmica.

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