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A educação transformadora como resposta

Romper com padrões do passado, redesenhar estruturas e reprogramar modelos mentais são parte desta proposta

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Emerson Ferreira

Fundador do Reflexões da Liberdade, é membro do Conselho Penitenciário de SP, Global Shaper no Fórum Econômico Mundial e membro do Catalyst 2030

Tornou-se senso comum dizer que a educação é resposta. Mas quando questionamos a fundo, poucas pessoas são capazes de definir qual educação é essa e, em especial, para que deve servir.

Nossa proposta é que precisa ser uma educação transformadora, aquela capaz de mudar realidades. Ainda precisamos assegurar educação inclusiva, equitativa e de qualidade para tantos que não tem, além de promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

Esse é inclusive o 4º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS). Mas hoje, além disso, a educação precisa também construir futuros desejáveis.

Não é só sobre conseguir ler esse texto ou assimilar o que está escrito na carta dos 17 ODS. Sequer tem a ver com decorá-los, saber descrevê-los ou repeti-los.

Uma educação transformadora ativa nossa vontade de priorizar e implementá-los. Sensibiliza para romper com padrões do passado, potencializa para redesenhar estruturas que já não servem mais e qualifica para reprogramar modelos mentais ultrapassados.

Caso contrário, não conseguiremos implementar as metas e objetivos que definimos para acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas tenham paz e prosperidade. E essa é a meta. Esse deve ser o objetivo.

Mas o que significa uma educação transformadora? Eu, Emerson Ferreira, experimentei a transformação dentro de uma unidade prisional, quando decidi que não seguiria mais o ciclo vicioso do crime que estava posto para mim.

Essa é uma das características da transformação: ela não é só uma mudança incremental, ela é um conjunto de construções e desconstruções que acontecem em nossa mente. Aumenta a perspectiva do viver quando experienciamos outras realidades mais favoráveis, quando encontramos pessoas dispostas a dialogar e crescer em conjunto.

Saí da prisão, me formei em psicologia e criei o Reflexões da Liberdade. E foi a partir das atividades desenvolvidas em trinta e sete escolas do município de Embu das Artes que percebi que a escola continua, infelizmente, muito semelhante àquela que frequentei 20 anos atrás.

A estrutura é parecida com a de uma prisão. Ela se fechou em muros e grades e carteiras enfileiradas.

Sendo diretor do Reflexões da Liberdade, construi uma metodologia com base na taxonomia de Bloom, em que levamos o jovem a ressignificar mentalmente seu contexto, trabalhando com educação que abrange doze áreas da vida e, a partir de testes de avaliação de personalidade, ativa diferentes inteligências para fortalecer valores humanos.

Fazemos isso em escolas, empresas e presídios porque a educação acontece em todos os lugares. Quando menciono que fazemos isso em presídios, pode despertar um desconforto, mas as pessoas que estão na prisão um dia passaram pela escola.

E se não passaram, precisam ainda mais de atenção para que possam contribuir para a sociedade, mesmo que tardiamente.

Nascido no outro lado da ponte, o privilegiado, eu, Rafael Maretti, fundei uma comunidade de agentes de transformação chamada Base Colaborativa. No começo, há quase dez anos, achava que poderíamos resolver tudo com racionalidade.

Mas a verdade é que não é suficiente entender mentalmente os desafios. É preciso que haja uma integração da mente, do coração e da vontade. E mais, isso precisa acontecer no campo do indivíduo, mas também nos diálogos, nas organizações e no mundo.

O primeiro passo é reconhecer-se parte do sistema e entender que os desafios externos são reflexos de questões internas. O segundo tem a ver com esse texto.

Menos pela informação contida nele e mais pelo exemplo da colaboração entre duas pessoas. Nascemos e vivemos em bordas opostas do sistema e, por isso, podemos ter juntos uma lente mais integral.

A parte mais difícil, mas também a essência da educação transformadora, é ter coragem de deixar o velho morrer para o novo nascer. É isso que a gente deveria estar aprendendo nas escolas, prisões, empresas e faculdades.

Como podemos acordar juntos para ser quem queremos ser? Para dar conta dos desafios históricos e dos que estão por vir, o único caminho é ir do ego para o eco, um tipo de atualização do nosso sistema operacional. Como acontece no celular, quando vem uma nova versão.

No fim, significa que vamos ter que aprender a amar juntos. Não de um jeito bobo, como se as coisas fossem fáceis. Mas muito menos de um jeito cínico, como se não fosse possível.

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