Sedentarismo, hipertensão e consumo de ultraprocessados são fatores de risco para demência

Prevenção de doenças neurodegenerativas tem mobilizado pesquisadores no mundo todo

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Acácio Moraes
Nápoles

O principal fator de risco para a demência é o envelhecimento. "Infelizmente não podemos lutar contra esse processo, mas existem outras variáveis que somos capazes de mudar", diz o professor e pesquisador Breno Pires Barbosa David. Estudos científicos publicados recentemente jogam nova luz sobre três delas: o sedentarismo na idade adulta, a hipertensão e a má alimentação.

O conhecimento sobre as condições que favorecem o surgimento da demência e do Alzheimer estão avançando muito nos últimos anos, afirma Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco. Com os chamados fatores de risco modificáveis descobertos por essas pesquisas, é possível desenvolver estratégias para cuidar da saúde, no âmbito pessoal e coletivo, e reduzir entre 40 e 50% dos casos de neurodegeneração.

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Principal fator de risco para a demência é o envelhecimento, mas existem outras variáveis que podem ser controladas - David L/Adobe Stock

Demência é um termo guarda-chuva usado para agrupar um conjunto de doenças que se manifestam através da perda cognitiva, ou seja, o paciente perde habilidades que dominava, comprometendo a sua autonomia e levando à dependência de terceiros. Apesar de ser muito mais comum em idosos, pode afetar indivíduos de todas as idades.

Os tipos mais comuns dessas enfermidades são as neurodegenerativas, aquelas que culminam em perda progressiva de neurônios. A depender da área do cérebro afetada, essas doenças podem causar diferentes perdas cognitivas. O Alzheimer é o caso mais comum, no qual áreas responsáveis pela retenção de memória são afetadas. Mas não é o único.

A demência frontotemporal recebe esse nome porque é caracterizada pela atrofia dessas regiões do cérebro, criando problemas comportamentais para o paciente. A doença, que afeta personalidades como o jornalista Maurício Kubrusly e o ator Bruce Willis, muitas vezes se manifesta precocemente, antes dos 60 anos. Outro gênero preocupante de demência são aquelas causadas por corpos de Lewy, que acomete a área visual do cérebro, podendo gerar alucinações e sintomas neuropsiquiátricos.

Os problemas, entretanto, podem ser evitados com a prevenção. Paulo Caramelli, professor e membro do Conselho Mundial de Demência, destaca seis hábitos fundamentais para a saúde, que não só são capazes de evitar a perda cognitiva, mas também reduzem as chances de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e morte precoce. São eles os cuidados com a diabetes e a obesidade, o fim do tabagismo e as já citadas prática de atividade física, atenção à hipertensão e cuidados com a alimentação.

Em uma pesquisa recente, os cientistas se perguntaram se existiria uma associação entre o comportamento sedentário e a demência. Para responder às questões, os especialistas fizeram um estudo usando dados coletados de quase 50 mil adultos saudáveis com mais de 60 anos do Reino Unido. Por uma semana, eles usaram um acelerômetro de pulso, capaz de medir o comportamento diário desses participantes. Depois de 7 anos passaram por um acompanhamento. Nesse período, 400 dos voluntários receberam o diagnóstico de demência.

Os resultados mostram que quanto menor o tempo diário de atividades físicas, maior o risco da doença. A prática de três horas diárias de exercícios, entre os participantes, foi capaz de reduzir em três vezes o risco de perda de cognição. Os pesquisadores também olharam a distribuição das atividades ao longo do dia, mas concluíram que elas não influenciam o resultado final.

Breno Barbosa explica que o sedentarismo aumenta o risco de uma série de problemas de saúde ao longo da vida, sendo potencialmente danoso para o cérebro. A atividade física melhora a nossa reserva cognitiva, uma espécie de "poupança" de neurônios que o corpo faz para a velhice. Mas ficar parado na terceira idade é especialmente danoso, afirma o pesquisador. Por isso ele ressalta que não tem idade errada para começar.

Outro grupo de pesquisadores se concentrou na influência da hipertensão como fator de risco para a perda de cognição. Usando dados de 34 mil pacientes com idades entre 60 e 110 anos de 15 diferentes países, inclusive do Brasil, agrupados em três categorias (saudáveis, tratados e sem tratamento).

Os resultados mostram que as duas doenças estão relacionadas. A boa notícia, entretanto, é que o tratamento da hipertensão é capaz de reduzir o risco de demência para os mesmos níveis das pessoas saudáveis. Ambos os estudos foram publicados no Journal of American Medical Association (JAMA), uma das revistas científicas mais prestigiadas na área de saúde.

Outro trabalho, publicado em julho na Alzheimer's & Dementia, relata o resultado do acompanhamento de quase 3.000 pacientes em relação à alimentação. A intenção dos cientistas era avaliar o efeito da má alimentação sobre a perda cognitiva. Para isso, foram reunidos dados sobre hábitos alimentares e, 14 anos depois, os pacientes foram reavaliados em busca do diagnóstico de demência.

Os pesquisadores mostram que quanto maior o número de porções de alimentos ultraprocessados por dia, maior o risco de desenvolver problemas neurodegenerativos. Embora seja muito atrativa para o paladar, durante o processamento da comida muitos nutrientes são perdidos, alguns dos quais poderiam garantir a proteção do cérebro.

Breno Barbosa diz que a alimentação é outro aspecto do estilo de vida que mexe com a saúde como um todo. Ele ressalta a importância de estudo com a dieta mediterrânea, que tem mostrado os benefícios para os neurônios das refeições balanceadas, ricas em nutriente, com elevado consumo de frutas, legumes, verduras, azeite, carne branca e grãos.

Para o especialista, a prevenção da demência atravessa a vida inteira. A alfabetização, ainda na infância, é determinante para o bom envelhecimento. Promover a escolarização adequada é uma forma de proteger a população, cada vez mais velha, dos malefícios das demências. Apesar de não podermos lutar contra a idade, é possível envelhecer de maneira saudável e com qualidade de vida.

O pesquisador também chama a atenção para muitas notícias falsas que têm surgido sobre demências, em especial o Alzheimer. Ele lembra que não existem evidências consistentes a favor do uso de ômega 3, estatinas, vitaminas e ginkgo biloba. A Academia Brasileira de Neurologia, da qual o neurologista faz parte, tem feito um esforço para combater a desinformação através das redes sociais.

Nesta quinta-feira (21) é lembrado o Dia Mundial do Alzheimer. A data foi instituída na abertura da conferência anual da ADI (Alzheimer's Disease International), em Edimburgo, na Escócia, em 21 de setembro de 1994, para celebrar o 10º aniversário desta federação internacional.

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