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Henrique Gomes

Diante da crise do coronavírus, vale pular etapas de segurança e acelerar a produção de vacinas?

O sistema ético chamado de consequencialismo parece idealmente posicionado para julgar essas questões

Henrique Gomes

Nesta segunda-feira, um estudo inglês detalhado concluiu que a única forma de evitar centenas de milhares de mortes pelo novo coronavírus é implantar quarentena total até que se descubra uma vacina. O problema é que, mesmo em ritmo acelerado, esse processo deve demorar um ano e meio. E nada garante que a vacina será efetiva, o que levaria os cientistas de volta à fase de pesquisa.

Dentre as várias companhias ao redor do mundo que já têm protótipos de vacina, apenas uma pulou a etapa de fazer testes com animais e passou direto ao teste em humanos: a biocompanhia americana Moderna.

Reguladores costumam exigir provas de que o produto é seguro quando aplicado em animais de laboratório antes de liberar o teste em humanos. A justificativa formal para a ausência deste passo no caso da Moderna é que a vacina se baseia não em um “vírus enfraquecido”, como é usual, e sim em um RNA mensageiro, que só produzirá no organismo hospedeiro a proteína responsável pela infiltração do vírus na célula.

Cientista da empresa Arcturus Therapeutics pesquisa possível vacina para o novo coronavírus em laboratório em San Diego (EUA)
Cientista da empresa Arcturus Therapeutics pesquisa possível vacina para o novo coronavírus em laboratório em San Diego (EUA) - Bing Guan/Reuters

A ideia, ainda não comprovada, é que isto basta para convocar uma resposta imunológica robusta.
Ainda assim, o atalho regulatório “é muito atípico,” segundo Akiko Iwasaki, microbiólogo da Universidade de Yale que estuda a resposta imunológica à virus, e “reflete a urgência de desenvolver vacinas para conter a epidemia de Covid-19”.

Jonathan Kimmelman, diretor da unidade de ética biomédica da Universidade McGill, também adverte: “Surtos e emergências internacionais criam pressão para a suspensão de direitos e das regras usuais de conduta ética. Muitas vezes, estas decisões nos parecem enganadas em retrospecto”.

Já na fase de testes humanos, o protocolo de segurança de vacinas exige inoculação de grande número de pessoas durante um período extenso: no mínimo um ano.

Mas se atalhos são atípicos, a epidemia também é —a mais grave desde a gripe espanhola, de 1918. Seria o caso de aliviar ainda mais o protocolo de segurança sobre vacinas?

Dada a destruição que a Covid-19 está alastrando ao redor do mundo, seria o caso, por exemplo, de liberar a vacina para as populações de risco assim que ultrapassar testes menos rigorosos de segurança? Dois meses sem sinais adversos seriam suficientes para o 1% mais vulnerável? Seis meses para os 10%?

O sistema ético chamado de consequencialismo parece idealmente posicionado para julgar essas questões. Segundo este sistema, nenhum direito é absoluto e nenhuma regra de conduta ética é inviolável; todas as ações devem ser julgadas frente a uma análise de custo-benefício de suas consequências.

Um típico contra-argumento, ilustrado pelo cenário chamado de “Transplante”, revela as limitações do consequencialismo. Neste cenário, cinco pacientes de um hospital esperam transplantes de cinco orgãos diferentes, quando um paciente totalmente saudável é admitido por um médico consequencialista. O médico mata o saudável sem titubear e distribui seus orgãos: o benefício —salvar cinco pessoas—facilmente superava o custo de uma só vida!

“Mas espera um pouco”, diz o consequencialista. Se um médico fizesse esse tipo de coisa, as pessoas não confiariam mais em seus hospitais, e o custo a longo prazo para a sociedade seria vastamente pior do que o possível benefício.

Na vida real, as consequências a longo prazo da maior parte das ações são imprevisíveis. Assim, o consequencialismo se resume a regras de conduta que, na maior parte das vezes, em condições normais, levam a resultados positivos. Isto é, se resume ao chamado consequencialismo de regras, que não se distingue tanto de outros sistemas éticos, por exemplo, daqueles baseados em direitos invioláveis.

Mas, em alguns raros exemplos, como o que enfrentamos agora, os sistemas éticos divergem drasticamente. No caso do coronavírus, se nos basearmos nos direitos invioláveis das cobaias e nas regras bioéticas, não poderíamos cortar caminho para uma vacina. Mesmo assim, o público parece apoiar o aceleramento dos protocolos de segurança.

Além disso, voluntários precisam demonstrar compreender os possíveis riscos e efeitos colaterais dos protótipos de vacina antes de serem admitidos como cobaias. Isso leva a crer que uma abordagem consequencialista deveria ser sancionada.

Daqui, procederia então com um frio cálculo da probabilidade de mortes e efeitos colaterais de cada ramo de ação: a cada mês que a vacina não sai, mais danos à economia e mais vidas que toma; por outro lado, a eficácia da vacina, garantida só por alguns meses, possivelmente esconde efeitos colaterais sérios mais adiante.

Mesmo que a abordagem seja amplamente sancionada agora, a grande incógnita que permanece é como o público reagiria, e o que restaria de sua confiança na ciência, frente a uma surpresa desagradável no futuro.

Se vivêssemos em um mundo de adultos, entenderíamos que o risco sempre esteve presente, e manteríamos inabalada nossa fé na ciência mesmo neste cenário infeliz; assim como um jogador de pôquer que, ao perder uma mão boa, mantém a confiança em sua estratégia. Infelizmente, este mundo não é o nosso.

Henrique Gomes é físico, é doutor em gravidade quântica, doutorando em filosofia na Universidade Cambridge e colunista da Folha

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