Descrição de chapéu Coronavírus

Politizada, cloroquina não terá parecer revisto por conselho após OMS

Presidente do Conselho Federal de Medicina afirma que todos têm opinião sobre remédio

Brasília

As iniciativas de interromper estudos com cloroquina feitas pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e outras por instituições internacionais não levarão o Conselho Federal de Medicina a rever o parecer dado em abril sobre o uso do medicamento em casos de Covid-19. A posição é defendida pelo presidente da entidade, Mauro Ribeiro, em entrevista à Folha.

“O que estamos ansiosos é pela divulgação de pesquisas sérias que nos indiquem um caminho para tratamento da doença. Nosso parecer nunca vai ser manipulado. A hora que saírem os estudos, vamos seguir”, defende Ribeiro.

Segundo o presidente do Conselho Federal de Medicina, que tem evitado comentar o tema nos últimos dois meses, a entidade tem recebido os anúncios da OMS “com tranquilidade”. Ele afirma que houve uma politização excessiva em torno do medicamento.

“É algo que beira ao absurdo [essa politização]. O que temos hoje é que quem é a favor do Bolsonaro defende de forma apaixonada, e quem é contra refuta de forma apaixonada.”

Nesta terça (7), o presidente Jair Bolsonaro divulgou que contraiu o novo coronavírus. Ele aproveitou o anúncio do seu teste para Covid-19 para defender o uso da hidroxicloroquina como medicamento eficaz para o tratamento da doença, mesmo sem que ainda exista comprovação científica do remédio. Afirmou que está tomando a droga.

A defesa em relação ao uso do remédio é feita por Bolsonaro desde o início da pandemia. Em abril, quando Luiz Henrique Mandetta era ministro da Saúde, o conselho de medicina foi solicitado a dar um parecer sobre o uso da cloroquina para o tratamento da Covid-19.

Em um documento, a entidade reforçou que não havia evidências sobre o uso do remédio, mas autorizava médicos a prescreverem o medicamento em três situações: 1) paciente com sintomas leves, em início de quadro clínico e com diagnóstico confirmado; 2) paciente com sintomas importantes, com ou sem recomendação de internação e 3) pacientes críticos na UTI com uso de ventilação mecânica.

Presidente da República, Jair Bolsonaro, com Mauro Ribeiro, Presidente do Conselho Federal de Medicina
Presidente da República, Jair Bolsonaro, com Mauro Ribeiro, Presidente do Conselho Federal de Medicina - Isac Nóbrega/Divulgação

Desde que o parecer foi divulgado, o aval do conselho à prescrição tem sido citado pelo presidente Jair Bolsonaro e pela atual equipe do Ministério da Saúde para defender mudanças na oferta da cloroquina --o que era rechaçado pela equipe de Mandetta.

A discordância em relação ao uso do remédio colaborou para a saídas de Mandetta​ e de seu sucessor, Nelson Teich, para quem o CFM deveria rever a posição sobre a possibilidade de uso off-label [fora da bula] do medicamento.

Atualmente, o parecer é usado como justificativa pelo Ministério da Saúde para oferta do remédio a pacientes com quadros leves da Covid, ainda que "sem comprovação de benefício inequívoco", como ressalta a pasta, e com alerta sobre riscos. Até então, o medicamento era indicado apenas para casos graves e críticos.

Ribeiro evita comentar a posição do ministério, mas diz que “todos têm opinião sobre a cloroquina”, incluindo “a imprensa, advogados, os arquitetos e os médicos”.

Ele reconhece que ainda não há comprovação de eficácia do uso do medicamento, indicado originalmente para malária, artrite e lúpus, no tratamento de infecção pelo novo coronavírus.

“Hoje, à luz da ciência e da medicina baseada em evidências, não existe nenhuma droga com eficácia comprovada no tratamento da Covid-19”, afirma.

“Existem estudos observacionais para os dois lados, mostrando que [a cloroquina] pode fazer mal ou fazer bem", afirma.

Segundo ele, apesar de não ver essa necessidade agora, a autarquia "pode rever o documento [sobre o uso da cloroquina em infectados com o novo coronavírus] a qualquer momento" a partir do resultado de novos estudos.

Um desses casos, disse, quase ocorreu após estudo publicado na Lancet com 96 mil pacientes e que apontava maior risco de arritmia e de morte em comparação com pacientes que não usaram os medicamentos.

O estudo, porém, foi retirado da revista após polêmica envolvendo a transparência dos dados.

"Aquele estudo era tão devastador e contrário à hidroxicloroquina que obrigatoriamente teríamos que rever o parecer se aquilo se confirmasse. Mas agimos com cautela, com prudência, para ver a repercussão. E aconteceu o que aconteceu: foi uma coisa tão constrangedora que o estudo foi retirado pelo próprio autor", diz.

Embora revista, a pesquisa da Lancet não foi o único revés recente ao uso da cloroquina.

Após idas e vindas, a Organização Mundial da Saúde anunciou em 17 de junho que decidiu interromper os experimentos com hidroxicloroquina para tratamento de Covid-19 no estudo Solidarity, que está sendo realizado em vários países do mundo, com pacientes hospitalizados.

Segundo a organização, a revisão feita por um comitê independente e resultados de outros estudos mostraram que não houve redução na mortalidade dos doentes que receberam a droga.

Neste sábado (4), a entidade voltou a frisar que a decisão havia ocorrido em definitivo para o Solidarity.

Dias antes do primeiro anúncio da OMS, a FDA (agência que regula medicamentos nos Estados Unidos) também revogou a autorização de uso emergencial do medicamento naquele país, alegando que “não era mais razoável” acreditar que a droga tivesse eficácia contra a Covid-19.

“Muito foi falado do que fez o FDA, mas ele retirou para pacientes graves”, afirma, referindo-se a uma ressalva feita no documento de que há baixa possibilidade de eficácia para esses casos.

Enquanto entidades recuam das orientações, o Ministério da Saúde tem redobrado a aposta no medicamento. Recentemente, a pasta decidiu estender a possibilidade de oferta do remédio para gestantes e crianças -- mesmo com recomendações contrárias da Sociedade Brasileira de Pediatria, por exemplo.

Questionado, o presidente do CFM evita comentar a decisão do ministério.

“Ele fez uma orientação, não vou defender ou criticar. Para nós, [o parecer] está sendo seguido", diz ele, para quem a necessidade decisão compartilhada entre médico, paciente ou responsável engloba esses casos.

Ainda assim, ele diz reconhecer que outras drogas têm tido resultados mais promissores em estudos iniciais que a cloroquina, caso da dexametasona e remdesivir, por exemplo. Mas alega que não cabe ao CFM fazer um novo parecer sobre elas.

"Esses medicamentos já se impuseram. Quem hoje se coloca contra dexametasona por um paciente que necessita de oxigênio? Não tem. A hidroxicloroquina é que está totalmente politizada."

E o conselho não teria colaborado para acirrar essa politização?

“O CFM foi usado tanto por um lado quanto pelo outro. Quem é contra a cloroquina interpreta o parecer de uma forma, e quem é a favor, de outra forma. É esse o ponto. Mas não teve por parte do CFM nenhum ato político. Quem solicitou o parecer foi o Ministério da Saúde”, diz ele, segundo quem o conselho não se arrepende de ter o feito o documento.

O tema, no entanto, gera polêmica entre médicos, que têm reclamado de pressões para indicar o uso do medicamento.

"Mas não existe exercício da medicina sem pressão", diz. "O que dá respaldo ao médico é o Código de Ética Médica."

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