Cientistas veem sinais de imunidade duradoura em curados da Covid-19

Pesquisas indicam que as células do sistema imune humano armazenam informações sobre o vírus para poderem combatê-lo

Katherine J. Wu

Cientistas que estão monitorando as reações imunológicas ao novo coronavírus começam a ver sinais animadores de imunidade forte e duradoura, mesmo em pessoas que apresentaram apenas sintomas leves da Covid-19. É o que sugere uma série de novos estudos.

Os anticorpos que combatem doenças, assim como as células imunológicas chamadas células B e células T, que são capazes de reconhecer o vírus, parecem persistir meses após a cura das infecções— uma repetição animadora da reação prolongada do corpo a outros vírus.

"As coisas estão realmente funcionando como deveriam", disse Deepta Bhattacharya, imunologista na Universidade do Arizona e autor de um dos novos estudos, que ainda não foi revisado por pares.

Embora os pesquisadores não possam prever quanto tempo essas respostas imunológicas vão durar, muitos especialistas consideram os dados um indício positivo de que as células mais "estudiosas" do corpo estão fazendo seu trabalho —e terão uma boa chance de se defender do coronavírus mais depressa e com maior entusiasmo que antes, caso sejam expostas a ele novamente.

"É exatamente o que esperávamos", disse Marion Pepper, imunologista da Universidade de Washington e autora de outro novo estudo, que está atualmente em análise na revista Nature. "Todas as peças estão presentes para termos uma resposta imunológica totalmente protetora."

A proteção contra a reinfecção não pode ser totalmente confirmada até que haja prova de que a maioria das pessoas que encontram o vírus pela segunda vez realmente são capazes de mantê-lo sob controle, disse Pepper. Mas as descobertas podem ajudar a suprimir as recentes preocupações sobre a capacidade do vírus de enganar o sistema imunológico e fazê-lo esquecer, deixando as pessoas vulneráveis a episódios repetidos da doença.

Os pesquisadores ainda não encontraram evidências inequívocas de que estejam ocorrendo reinfecções do coronavírus, especialmente nos poucos meses desde que o vírus começou a atacar a população humana. A perspectiva da memória imunológica "ajuda a explicar isso", disse a doutora Pepper.

Nas discussões sobre as respostas imunes ao coronavírus, muitos cientistas se concentram nos anticorpos— proteínas em forma de Y que podem se ligar à superfície dos patógenos e impedir que infectem as células. Mas os anticorpos representam apenas uma ala de um esquadrão complexo e coordenado de soldados imunológicos, cada um com seus modos próprios de ataque. Os vírus que já invadiram as células, por exemplo, ficam protegidos dos anticorpos, mas ainda são vulneráveis às células T, que forçam as células infectadas a se autodestruir. Outro conjunto de células T, apelidado de "auxiliares", pode convencer as células B a amadurecer, tornando-se máquinas produtoras de anticorpos.

Outro setor do sistema imunológico ataca os patógenos minutos após sua chegada, enviando sinais chamados citocinas para mobilizar forças de outras partes do corpo. Algumas evidências sugerem que casos graves de Covid-19 podem ser decorrentes desse processo inicial quando dá errado.

Os anticorpos também têm data de validade: como são proteínas inanimadas e não células vivas, eles não podem se reabastecer e, portanto, desaparecem do sangue semanas ou meses após serem produzidos.

Hordas de anticorpos aparecem logo após um vírus romper as barreiras do corpo e diminuem conforme a ameaça se dissipa. A maioria das células B que produzem esses anticorpos iniciais também morrem.

Mesmo quando não está sob ataque, porém, o corpo mantém um batalhão de células B de vida mais longa, que podem produzir em massa anticorpos que combatem os vírus, caso se mostrem úteis novamente. Alguns patrulham a corrente sanguínea, esperando para ser acionados novamente; outros recuam para a medula óssea, gerando pequenas quantidades de anticorpos que são detectáveis anos, às vezes décadas, após o fim de uma infecção.

Vários estudos, incluindo os conduzidos pelos doutores Bhattacharya e Pepper, encontraram anticorpos capazes de desarmar os coronavírus persistentes em níveis baixos no sangue meses depois que os pacientes se recuperaram da Covid-19.

"Os anticorpos diminuem, mas se estabelecem no que parece ser um nível mínimo estável", que pode ser observado cerca de três meses após o início dos sintomas, disse o doutor Bhattacharya. "A resposta parece perfeitamente duradoura."

Ver anticorpos muito tempo depois da infecção é um forte indício de que as células B ainda estão fervilhando na medula óssea, disse a doutora Pepper. Ela e sua equipe também conseguiram colher células B que reconhecem o coronavírus do sangue de pessoas que se recuperaram de casos leves de Covid-19, e as cultivaram em laboratório.

Vários estudos, incluindo um publicado na sexta-feira (14) na revista científica Cell, também conseguiram isolar células T, que atacam o coronavírus do sangue de indivíduos recuperados, muito depois de os sintomas terem desaparecido. Quando provocadas com fragmentos de coronavírus em laboratório, essas células T enviaram sinais de combate ao vírus e se clonaram em novos exércitos prontos para enfrentar um inimigo conhecido.

Alguns estudos observaram que análises de células T podem dar aos pesquisadores uma visão rápida da resposta imunológica ao coronavírus, mesmo em pacientes cujos níveis de anticorpos diminuíram a um ponto em que são difíceis de detectar.

"Isso é muito promissor", disse Smita Iyer, imunologista na Universidade da Califórnia, Davis, que está estudando as reações imunes ao coronavírus em macacos rhesus, mas não participou dos novos estudos. "Permite certo otimismo sobre a imunidade de rebanho e, potencialmente, uma vacina."

Notavelmente, vários dos novos estudos estão encontrando essas respostas poderosas em pessoas que não desenvolveram casos graves de Covid-19, acrescentou a doutora Iyer. Alguns pesquisadores temem que infecções que afetam menos o corpo sejam menos memoráveis para as células estudiosas do sistema imunológico, que podem preferir investir seus recursos em ataques mais sérios. Em alguns casos, o corpo poderia eliminar os vírus tão rapidamente que não conseguiria catalogá-los.

"Este artigo sugere que isso não é verdade", disse a doutora Iyer. "Você ainda pode obter imunidade duradoura sem sofrer as consequências da infecção."

O que foi observado em pessoas que venceram casos brandos de Covid-19 pode não valer para pacientes hospitalizados, cujos corpos lutam para oferecer uma resposta imunológica equilibrada ao vírus, ou aqueles que foram infectados, mas não apresentaram sintomas. Grupos de pesquisadores em todo o mundo continuam estudando toda a gama de respostas. Mas "a grande maioria dos casos são infecções leves", disse Jason Netland, imunologista da Universidade de Washington e autor do artigo em análise na Nature. "Se essas pessoas ficarem protegidas, também é bom."

Essa nova onda de estudos também poderá atenuar ainda mais os temores sobre como e quando a pandemia terminará. Na sexta-feira, as diretrizes atualizadas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças foram mal interpretadas por várias reportagens que sugeriram que a imunidade ao coronavírus poderia durar apenas alguns meses. Especialistas responderam rapidamente, observando os perigos de se propagar tais declarações e indicando as abundantes evidências de que as pessoas que já tiveram o vírus provavelmente estão pelo menos em parte protegidas de reinfecção durante pelo menos três meses, se não muitos mais.

Considerados com outros estudos recentes, os novos dados reforçam a ideia de que, "sim, desenvolvemos imunidade a este vírus, e uma boa imunidade ao vírus", disse a doutora Eun-Hyung Lee, imunologista na Universidade Emory, que não participou desses estudos. "Essa é a mensagem que queremos divulgar."

Algumas doenças, como a gripe, podem atormentar as populações repetidamente. Mas isso é pelo menos em parte atribuído às altas taxas de mutação dos vírus influenza, que podem rapidamente tornar os patógenos irreconhecíveis para o sistema imunológico. Os coronavírus, em contraste, tendem a modificar sua aparência menos rapidamente de ano para ano.

Ainda assim, muito permanece desconhecido. Embora esses estudos indiquem o potencial de proteção, não demonstram a proteção em ação, disse a doutora Cheong-Hee Chang, imunologista na Universidade de Michigan que não esteve envolvida nos novos estudos. "É difícil prever o que vai acontecer", disse ela. "Os humanos são muito heterogêneos. Há muitos fatores em jogo."

A pesquisa em animais pode ajudar a preencher algumas lacunas. Estudos pequenos mostraram que um surto do coronavírus parece proteger os macacos rhesus de contraí-lo novamente.

Mas rastrear as respostas humanas em longo prazo levará tempo, disse a doutora Pepper. Uma boa memória imunológica, acrescentou ela, requer que as moléculas e células sejam abundantes, eficazes e duráveis --e os cientistas ainda não podem afirmar que essas três condições foram definitivamente satisfeitas.

Conforme os corpos das pessoas se acomodam no estado pós-coronavírus, "estamos chegando ao ponto de relevância" para ter uma visão de longo prazo sobre a imunidade, disse o doutor Bhattacharya. As coisas podem mudar em alguns meses ou anos. Ou talvez não.

"Não há atalhos aqui", disse Bhattacharya. "Simplesmente temos que seguir em frente."

Katherine J. Wu é uma repórter que cobre ciência e saúde. Ela tem doutorado em microbiologia e imunobiologia pela Universidade Harvard.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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